(Conversa com os seminaristas do Seminário Interdiocesano Divino Espírito Santo - Palmas - TO) 
 
Dom Pedro Brito Guimarães - Arcebispo de Palmas - TO 
 
“Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando o evangelho do Reino, e curando todo tipo de doença e enfermidade. Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: “a Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”(Mt 9,35-38).

“Não são raras às vezes em que surgem as seguintes dúvidas: Quem é o seminarista? O que ele faz?” (Padre Ricardo Cordeiro, membro da Comunidade Canção Nova). Conta a história que Pedro, em uma fase muito difícil de sua missão em Roma, resolveu abandonar tudo. Quando estava saindo da cidade, de cabeça baixa, desanimado e cansado, encontrou Jesus que vinha em sua direção. Pedro, surpreso ao ver Jesus, perguntou: “Mestre o que fazes por aqui? Para onde vais?” Jesus fixou o seu olhar em Pedro e disse: “Pedro, estou indo para Roma para ser crucificado outra vez”. Hoje este “quo vadis” de Pedro se reveste em um “quo vadis” de Jesus a você, seminarista: para onde vai?

Jesus cumpriu sua missão até a morte e morte de cruz. Não há missão sem cruz. “Perseguiram a mim, perseguirão a vocês” (Jo 15,20). Você, seminarista, já fez e já respondeu a estas perguntas? E entendeu a resposta de Jesus? Você está no seminário, em tempo de formação. E formação queira ou não, tem a ver com forma. Formar é colocar alguém numa fôrma ou numa fórma. Formação é formatação do coração para a missão. A formação é para colocar a missão no coração do seminarista. Afinal, não se forma para outra coisa ou para outra atividade, a não ser para a missão. Quem não gostar de missão não deveria querer ser padre. Só deveria ser padre quem gosta de missão. A missão é o coração da Igreja (RM 62) e, portanto, o coração da formação seminarística.

O que mais Jesus fez, com seus discípulos, foi formá-los, ensiná-los e treiná-los para serem missionários: sair e retornar à missão. O seminário, nada mais é do que a Escola de Jesus com seus discípulos. Eles aprenderam com seu Mestre como ser e como fazer missão. O seminário não tem como missão formar funcionários, empreendedores, intelectuais, políticos etc e sim missionários, melhor, missionários-padres. A Igreja não deve perder tempo nem dinheiro para formar padre-empresário, padre-midiático, padre-cantor, padre-milagreiro, padre-burocrático, padremoralista, padre-conservador, padre-devoto, padre-prosélito, padre-apologético..., mas tão somente, padremissionário. O seminário se move em dois balanços: o do “ser atraído” e o do “ser enviado”. No seminário a missão tem o seu nascedouro e o seu berço, o seu centro e o seu rosto, a sua casa e a sua estrada. O trabalho diário de um seminarista é todo ele missionário: acordo para a missão, rezo pela missão, estuda como missão, trabalha, descanso, faz lazer e pratico esportes por causa da missão e dorme na missão.Veja que belo testemunho dá o papa Francisco sobre a missão: “a missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser, se não me quero destruir. Eu sou uma missão nesta terra, e para isto estou neste mundo” (EG 273).

E uma das características basilares da missão é a alegria: a alegria de crer na missão, de se formar para a missão, de querer ser missionário e fazer missão. Quem não é feliz na missão não será feliz em nada na Igreja. E a manifestação da alegria missionária é encantamento pela missão. Dele nasce o ardor e o amor missionários. Missão não é para entristecer a seminarista. Missão que entristece não é a missão de Jesus. Seminarista que se entristece com a missão não é seminarista de Jesus. A missão tem um nome, um brilho, uma cor e um encanto: a alegria. Por isto, quando sou feliz na missão, tudo se resolve; quando sou feliz na missão, tudo se transforma; quando sou feliz na missão, cresço na fé; quando sou feliz na missão, me realizo; quando sou feliz na missão, os frutos amadurecem; quando sou feliz na missão, minha vocação se realiza; quando sou feliz na missão, me completo; quando sou feliz na missão, me formo; quando sou feliz na missão, sou missão. 

Em suma, o papa Francisco, elege três dimensões para a formação missionária do seminarista: primeira, a dimensão comunitária: a fraternidade: “somos todos irmãos” (Mt 23,8). A fraternidade expressa a unidade dos corações, como parte integrante do chamado que se recebe. O ministério sacerdotal não pode, de modo algum, ser individual e tampouco individualista. Há sempre uma dimensão comunitária. No seminário se vive juntos para aprender a se conhecer, a se estimar, a se ajudar e, às vezes, também a se suportar. Segunda, a dimensão espiritual: a oração: “de madrugada, ele rezava” (Mc 1,35). A imagem evocada é a do Cenáculo, onde os discípulos rezam com Maria, à espera do Espírito Santo. Disto, se deduz que na base da formação está a Palavra de Deus, que chega ao seu íntimo, o alimenta e o ilumina. Portanto, tenha todos os dias longas horas de oração e deixe que a oração seja um convite ao Espírito. Terceira, a dimensão apostólica: a missão: “ide, fazei discípulos” (Mt 28,19). Os anos de seminário não são senão uma preparação, com o único objetivo, de se tornar discípulo humilde capaz de preferência pelas pessoas mais vulneráveis. Eis o tripé da formação: fraternidade, oração e missão. A missão é inseparável da fraternidade e da oração porque elas abrem ao Espírito e o Espírito o guiará na missão. A missão, cuja alma é o amor, é levar aqueles que encontrarmos a acolher a ternura de Cristo. É por causa de tudo isto que afirmamos: na formação, como em qualquer outra atividade, tudo com missão, nada sem missão. 
 
DEBATE: O que você achou da colocação feita? Está, ao menos, no rumo do que se entende por missão? O que você acha que está faltando ou que está sobrando? O que é preciso fazer mesmo para ser alegre, viver e ser feliz na missão?