Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

A Cinza que purifica

Quarta-feira de cinzas é considerada, pela Igreja Católica, a porta de entrada na quaresma. Com a cerimônia das cinzas, a Igreja abre, diante de seus filhos e filhas, a porta da sagrada penitência para que por ela todos possam passar. Durante quarenta dias somos convidados a refazer a experiência de Jesus no deserto, vencendo as tentações de satanás e permanecendo fiel ao projeto de Deus. Façamos desta quaresma um tempo de retiro espiritual, eliminando de nossa vida tudo aquilo que nos impede de ser parecidos com Jesus. Oxalá no final deste tempo quaresmal possamos fazer nossa as palavras do apóstolo Paulo: “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

Quando utilizamos pastoralmente um símbolo, típico de outra cultura ou de outro povo, como o caso da cinza, é preciso que entendamos o seu verdadeiro significado; sob pena da perda do seu significado para a atualidade. Isso porque a nossa cultura é bem diferente, em muitos aspectos, da cultura bíblica e a dos povos antigos. É o caso da expressão “quarta-feira de cinzas”. No momento em que me preparava, pessoalmente, para o exercício do meu ministério da misericórdia, do perdão e da fraternidade, me veio à mente a pergunta: o que significa a cinza que receberemos ao longo desta semana? Cinza, no sentido material, é pó ou resíduo da combustão (queima) completa de materiais inflamáveis. Cinza é resquício, vestígio ou memória do que passou, do que se consumiu, do que desapareceu, do que perdeu inteiramente a antiga intensidade ou vigor. Cinza é, portanto, produto de algo que foi purificado pelo fogo. Cinza, no sentido teológico e espiritual, é sinal de mortificação, de desejo de vida plena, de penitência e de purificação. Cinza é também expressão da neutralidade, da indecisão e da ausência de energia. Cinza é, por fim, algo que perdeu a consistência. Reduzir a cinzas ou desfazer-se em cinzas significa destruir completamente, extinguir.

Na Bíblia cinza simboliza dor, morte, pureza e santificação: (Nm 19,9; Hb 9,13); simboliza transitoriedade (Gn 18,27; Jó 30,19; Is 44,20); luto (2Sm 13,19; Sl 102,10) e penitência (Dn 9,3; Et 4,1; Jn 3,6). O próprio Jesus fez referência ao uso das cinzas quando fez referência à dureza de coração de seus ouvintes: “Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e as cinzas. (Mt 11,21). A Igreja, desde o quarto século, utiliza a cinza com um sacramental; sinal de penitencia e de purificação, de conversão e de mortificação. Tertuliano (160-220 DC), no seu livro “De Poenitentia”, prescreveu que um penitente deveria “viver sem alegria vestido com um tecido de saco rude e coberto de cinzas”. Mais claras ainda são as sábias palavras do papa emérito, Bento XVI: “a quarta-feira de cinzas é um convite à penitencia, à humildade, a ter diante dos olhos a própria condição mortal, mas não para cair no desespero, muito pelo contrário, poder acolher exatamente nesta nossa mortalidade, a inimaginável proximidade de Deus, que, além da morte, abre as portas para a ressurreição, ao paraíso finalmente reencontrado”. 

Devemos nos preparar para a páscoa, através da quaresma, compreendendo o significado profundo da cinza que recebemos. As cinzas que recebemos na nossa fronte não podem ser expressão de um mero rito externo. Elas devem ser sinais do nosso desejo profundo de mudar de vida, de abandonar as velhas práticas do homem e da mulher que vivem no pecado. Eles devem ser sinais do nosso desejo de viver não somente de pão, mas da Palavra de Deus. Reconhecendo nossa fragilidade e pequenez no sinal das cinzas, confessamos o amor de Deus por nós; a ação de sua graça vitoriosa em nossa vida. Entregues a nós mesmos, aos nossos caprichos e vaidades somos apenas cinzas. É a misericórdia de Deus quem nos tira da condição de miseráveis. É este amor purificador de Deus que nos eleva e nos faz viver. Não é este, por acaso, o ensinamento do salmista: “Senhor se tu tiras o olhar das tuas criaturas elas voltam ao pó”.

Aceitemos, portanto, que nos imponham a cinza. Ela expressa três realidades fundamentais: primeiro, somo criaturas mortais; devemos tomar consciência de nossa fragilidade, do inevitável fim de nossa existência terrestre, e dar novo rumo à nossa vida; segundo, somos chamados a nos converter ao evangelho de Jesus e a proposta do seu Reino, mudando nossa maneira de ver, pensar, agir; terceiro, somos chamados, como o ouro no cadinho, a nos purificar, morrendo ao pecado e ressurgindo com Cristo para sermos novas criaturas.
Assim explica o Missal Dominical o sentido da quaresma: “Devemos nos preparar para o começo da Quaresma compreendendo o significado profundo das cinzas que recebemos. É um tempo para examinar nossas ações atuais e passadas e lamentarmo-nos profundamente por nossos pecados. Só assim poderemos voltar nossos corações genuinamente para Nosso Senhor, que sofreu, morreu e ressuscitou pela nossa salvação. Além do mais esse tempo nos serve para renovar nossas promessas batismais, quando morremos para a vida passada e começamos uma nova vida em Cristo. Finalmente, conscientes que as coisas desse mundo são passageiras, procuremos viver de agora em diante com a firme esperança no futuro e a plenitude do céu” (Missal Dominical, Paulus, 1997, p. 140].

A própria oração de bênção das cinzas nos dá o sentido teológico deste sacramental. A cinza, por um lado é sinal de nossa fragilidade e pequenez; e por outro, é remédio que nos cura da mania de grandeza que se aninha em nosso coração, nos afastando de Deus e dos irmãos. Pelas sagradas cinzas, somos conduzidos Àquele que venceu o pecado e a morte e nos deu vida em plenitude no mistério de sua páscoa. Portanto, com os olhos fixos mo mistério pascal de Cristo, podemos e devemos fazer nossa essa singela oração da Igreja: “ó Deus, que não quereis a morte do pecador mas a sua conversão, escutai com bondade as nossas preces e dignai-vos abençoar estas cinzas que vamos colocar sobre as nossas cabeças. E assim reconhecendo que somos pó e que ao pó voltaremos, consigamos, pela observância da quaresma, obter o perdão dos pecados e viver uma vida nova à semelhança do Cristo ressuscitado”. Amém!

Dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo de Palmas

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