Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

A Quarta-Feira de Cinzas

Homilia proferida pelo Rev. Padre Luciano Zilli na missa de quarta-feira de Cinzas

Paróquia Santa Teresinha, Palmas-To – Fevereiro de 2012

Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus,

A partir de hoje a igreja passa a se revestir do roxo penitencial, recordando que somos todos pecadores e necessitados da misericórdia de Deus: “Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra Vós!”, assim exclama o salmista.

Com essa cerimônia, damos início ao tempo litúrgico conhecido por Quaresma, que consiste nos quarenta dias em que a igreja se prepara, por meio do jejum, da esmola e da oração, para celebrar dignamente o mistério central e fundador de toda vida eclesial: a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O número quarenta é muito presente na Sagrada Escritura e sempre se relaciona a um período de preparação para algo grandioso: por ocasião do Dilúvio Deus faz chover quarenta dias e quarenta noites, purificando a terra de todos os seus pecados, salvando a Noé e sua família que se encontrava na arca (Gn 7,12.17); Moises passa quarenta dias e quarenta noites, em jejum total, no topo do monte Sinai, preparando-se para receber as tábuas da Aliança (Ex 24,12-18.34); O povo de Israel percorre o deserto por quarenta anos, preparando-se para tomar posse da Terra Prometida (Ex – Dt); O profeta Elias caminha quarenta dias até chegar ao Horeb, fugindo da perseguição do rei de Israel (I Reis 19,8); Jesus passa quarenta dias e quarenta noites no deserto em jejum e oração, preparando-se para anunciar aos homens o amor misericordioso de Deus, a Boa Nova, manifestada na encarnação de seu Filho bem-amado. Da mesma forma, a igreja nos convida hoje a iniciar essa longa e árdua caminhada, que nos conduzirá ao Cristo ressuscitado, razão de nossa fé.

Com qual ânimo, então, devemos nós percorrer essa estrada, caríssimos irmãos? Sabemos, por experiência, que as coisas de Deus exigem sacrifícios, predisposição da alma, renúncia, enfim, somente um coração devotado às coisas de Deus será capaz de enfrentar os desafios da Quaresma. A igreja, que é nossa mãe e mestra, ela mesma nos indica o caminho a seguir. Por meio das práticas penitenciais do jejum, da esmola e da oração, somos orientados a redescobrir o sentido da vida cristã, levando à plenitude nosso relacionamento com o mundo, com o próximo e com Deus. De que forma as práticas quaresmais podem nos ajudar nisso? Vejamos detalhadamente:

– Pelo jejum somos orientados ao autodomínio de nossas paixões, reduzindo ao mínimo nossas necessidades materiais, redimensionando assim a maneira de relacionarmos com a natureza, que sempre é tão generosa para conosco, enquanto nós tendemos a depredar-la. O jejum, assim compreendido, torna-se um ponto de equilíbrio para minhas paixões, predispondo-me a usufruir de modo ordenado de tudo aquilo que Deus colocou à minha disposição. Pelo jejum, Jesus se preparou para enfrentar todas as dificuldades que encontraria durante seu ministério público, e foi também por meio do jejum que Ele venceu tantas vezes a Satanás. Paradoxalmente, quando o corpo se torna fraco pela prática do jejum, o espírito se fortalece e a alma entra em plena comunhão com Deus, reconhecendo-o como único Bem, pois “não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).

– Pela esmola somos convidados a partilhar tudo o que temos. A esmola não deve ser entendida como doação daquilo que me sobra – o resto, mas como a partilha daquilo que tenho a disposição, afim de que os mais necessitados tenham o mínimo necessário para uma vida digna, conforme o projeto de Deus. Pela esmola, somos capazes de imitar a Cristo que não considerou a riqueza e glória de sua condição divina, mas fez-se pobre para salvar a todos. Num mundo marcado pelo individualismo e pela busca desenfreada de riqueza e glória, a prática da esmola nos recorda que tudo o que temos foi-nos dado por Deus, por isso, todos nossos bens devem estar à disposição do Reino, de sua difusão por toda a terra, que consiste na promoção integral do homem, de modo que não haja mais entre nós nenhum necessitado.

– Pela oração entramos em contato direto com Deus, nosso criador e salvador, fim último de toda nossa existência. É por meio da oração que somos transportados desse mundo, marcado pela violência e pela discórdia, até o âmago do coração divino, onde somos acolhidos como filhos, onde encontramos a paz que tantas vezes o mundo nos nega. Ali, em plena comunhão com Deus, redescobrimos o sentido de nossa vida, o sentido do mundo, e recebemos aquele auxílio necessário para continuarmos nossa caminhada em meio às vicissitudes do mundo atual. As melhores almas foram aquelas que mais souberam rezar, tanto que as chamamos de santas. O próprio Jesus passava longas horas em oração, em comunhão com o Pai. Quando rezamos, reconhecemos Deus como Senhor absoluto de tudo o que existe e nos dobramos em adoração diante Dele.

A esse ponto, vale recordar as palavras do Evangelho que acabamos de ouvir. Elas nos orientam sobre nosso comportamento em relação a essas práticas. Se a plenitude da vivência do Evangelho passa por elas, não devemos cumpri-las com o intuito de ostentar nossa perfeição diante dos homens. Só Deus é perfeito. Por mais que nos esforcemos sempre estaremos em dívida com Deus e com o próximo, por isso, a exortação de Jesus: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa de vosso Pai que está nos céus”.

É interessante notar que o texto lido, encontra-se em Mateus, numa sessão comumente intitulada “Sermão da Montanha”, que se inicia com a proclamação das “Bem-aventuranças”, entendidas por muitos estudiosos como o estatuto da nova religião que será instaurada por Cristo. Nelas, os pobres em espírito são louvados e considerados felizes, pois deles é o reino dos céus, e os puros de coração são os únicos capazes de verem a Deus. De maneira muito radical, Jesus mostra a seus seguidores que a lógica do mundo, que preza pela glória e poder, difere em muito da lógica do Evangelho. Se o reino do mundo exalta os grandes e poderosos, o Reino de Deus, em vez, exalta os pequeninos e desprezados, pois para esses serão revelados os mistérios do Reino. Nesse contexto, Jesus orienta seus seguidores a redimensionar a prática da justiça, que deve ser uma manifestação das mais puras intenções do coração, e não um modo de promoção pessoal, que nada mais seria que ostentação da hipocrisia, comportamento combatido por Jesus, que levado às últimas conseqüências foi a causa de sua morte na cruz – o Evangelho tem sido, desde seu primeiro anúncio, o maior manifesto contra a hipocrisia. O que significa a condenação de Jesus à morte senão o triunfo da hipocrisia sobre a verdade? – O projeto de Cristo é que todos nós tenhamos acesso aos mistérios e as riquezas do Reino, para isso é necessário possuirmos um coração puro, como enunciado nas Bem-aventuranças, somente assim nossas práticas penitenciais poderão ser louvadas, talvez não pelos homens, mas por Deus.

A igreja, que vive no mundo, mas sem ser do mundo, reconhece a necessidade constante de se penitenciar. É consciente de como o pecado ainda atrapalha a marcha do povo rumo à casa do Pai. Por isso, hoje nos convida a curvarmos nossas cabeças e recebermos as cinzas que nos recordam nossa mais mísera e primitiva condição: “Tu és pó, e ao pó retornaras!”. Diante desse gesto, todos nós, juntos com a igreja, devemos nos comprometer a lutar contra todo tipo de hipocrisia que ainda tende a se infiltrar em nossa sociedade. São muitos os pecados que assolam nosso mundo, e muitos deles castigam veementemente os menos favorecidos, os pobres. Por isso, a igreja do Brasil com sua voz profética, há anos, tem utilizado do período quaresmal para incentivar seus fiéis a denunciar tantos erros e hipocrisias que atrasam nossa sociedade e subjugam tantos irmãos sem voz. Dessa profunda reflexão profética, surgiu a Campanha da Fraternidade, que a cada ano aborda um tema social, muitas vezes ignorado pelo poder público, e nos convoca a um exame de consciência no intuito de melhor nos prepararmos para a Páscoa. Esses temas sempre nos impelem a evangelização de um setor de nossa sociedade, visto que em torno deles se escondem, muitas vezes, os pecados mais gritantes da sociedade brasileira.

Este ano, somos intimados a pensar juntos a questão da saúde pública. Deus nos criou para sermos felizes, ninguém pode ser plenamente feliz sofrendo algum tipo de dor, de enfermidade, tanto é verdade que a Nova Jerusalém descrita no Apocalipse é apresentada como um lugar onde não haverá mais lágrimas, pois Deus as enxugará. O lema “Que a saúde se difunda sobre a terra”, tirado do livro do Eclesiástico, apresenta-se a nós como um grande programa quaresmal. O que podemos fazer para que nossa gente tenha mais saúde, e seja mais feliz? Caberá a nossa comunidade refletir e se conscientizar da urgência desse apelo divino e encontrar os modos de se tornar profética em meio a tantos doentes, que se não estão nas camas de nossas casas, estão muito próximos de nós, na casa vizinha ou nos hospitais, ambiente nem sempre de acolhimento e esperança, mas de diminuição ainda mais daqueles que se humilham por uma vaga nos tão ocupados leitos hospitalares. Fechar os olhos para essa realidade é transformar nossas práticas quaresmais em atos de hipocrisia e ouvir dos lábios de Jesus a mesma reprovação.

Desejo a todos vocês, queridos irmãos e irmãs, uma quaresma muito santa, cheia de novas experiências com Deus e com o próximo, principalmente os doentes, conforme nos pede a igreja. Desejo uma caminhada mais consciente, mais cristã, afim de que no dia da Páscoa possamos cantar juntos nossos louvores a Deus que morreu por nós e por nós ressuscitou. Caríssimos, que as práticas quaresmais nos fortaleçam, elevem nosso espírito, de modo que não desprezemos a graça que um dia recebemos de Deus.

Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!

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