Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Analfabetismo Bíblico

Não é novidade alguma que, infelizmente, no Brasil e mundo afora, ainda existam muitas pessoas que não foram alfabetizadas. Apesar de todo avanço da humanidade, nas mais diversas áreas do conhecimento e das ciências em geral, algo ainda nos apavora; são multidões de analfabetos, por sobre toda a face da terra.

Ouvi, outro dia, alguém dizer que analfabeto, hoje, não é mais aquela pessoa que não saiba ler e escrever e sim aquela que ignora o mundo da informática, são os chamados analfabetos digitais. Imaginem vocês então, à que exclusão não fica relegado o pobre do analfabeto silábico.

Mas não é desses famintos analfabetos que quero me reportar. Se entendermos alfabetização, como iniciação de conhecimento e domínio de determinado assunto, encontraremos, mundo afora, várias formas de analfabetismo.

Queremos então falar de um analfabetismo existente entre nós, católicos. Como o próprio título deste artigo sugere, tratemos do analfabetismo bíblico. Não tem como fechar os olhos, existem muitos e muitos católicos, sedentos e famintos, que não sabem abrir a bíblia, ler e interpretar a palavra de Deus. Vão à missa, ouvem a palavra, sabem que foram extraídas da bíblia, conhecem pela tradição oral várias passagem e até, algumas clássicas, nas telas do cinema, mas o Livro da Bíblia, esse permanece um Enigma misterioso e que se tem em casa como objeto sagrado, assim como se preserva um crucifixo ou um outro símbolo religioso.

O mês de setembro, nos sugere a santa mãe Igreja, é um espaço de tempo que se abre para colocar em evidencia as Sagradas Escrituras, é o mês da Bíblia. Mês de maior relacionamento, de identificação de intimidade com Deus, através de sua palavra contida na Bíblia.

Interessante ler um trecho do Profeta Isaias quando escreve sobre a Bíblia “Será para vós de todas as coisas como as palavras de um livro selado: se é dado a alguém que saiba ler, dizendo-lhe: Lê isto, ele responderá: Não posso, está selado. E se for dado a quem não sabe ler e se lhe disser: Lê, responderá: não sei ler”. (Is 29, 11-12). Portanto, o acesso à Bíblia é, em si, misteriosamente complicado, não só para o analfabeto, mas também para o alfabetizado. Então como fazer? Onde ir? Onde encontraremos quem retire os selos ou que leia aos inaptos? Outro trecho do Livro Sagrado nos ajuda a responder a questão: “Não chores o leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu. Ele abrirá o livro e os sete selos” (Ap 5,5b). Este de que fala são João, é o próprio Cristo Senhor. Somente à Jesus Cristo e àqueles a quem foi dado o seu Espírito podem abrir as sagradas Escrituras, interpretar e ensinar.

Utilizando-se, mais uma vez, de analogia, poderemos aprender com o próprio processo da aprendizagem. Para ser alfabetizado é preciso mestres, é necessário quem alfabetize, instrua. Nesse sentido, elogia e nos indica também Isaias: “Como são belos os pés daqueles que evangelizam boas novas, que evangelizam a paz” (Is 52, 7). Estes que anunciam, estes que evangelizam e instruem são os continuadores da missão de Jesus. O depósito da fé e a interpretação da sagradas Escrituras foram confiados aos Apóstolos, aos seus sucessores, à Igreja.

Quem portanto, tem o dever, em primeiríssimo lugar, de ensinar, a missão de iniciar e instruir sobre a Bíblia é a Igreja, os bispos e os padres e especialistas no assunto.

É dever da Igreja cumprir sua missão: “Ide e fazei discípulos e ensinai” (Mt 28, 19-20). É obrigação do cristão observar o mandamento do Senhor: “Perscrutai as Escrituras” (Jo 5,39); e “Buscai e achareis” (Mt 7,7). Assim teremos a vida iluminada e orientada, pois nos diz Jesus: “Errais, sem conhecer as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22, 29).

Vivemos num mundo de muitas contestações e direitos. Reivindiquemos, então, irmãos, as coisas que são santas e que edificam para uma vida melhor. Já existe muita coisa boa por aí, nesse sentido, mas não tenhamos receio se não estão à nossa volta. Nos aproximemos da Comunidade paroquial e despertemos em nossos padres e irmãos a necessidade inadiável de romper com as barreiras de abrir este Livro e dele poder desfrutar. Coloquemos em prática nossas escolas e círculos bíblicos, desenvolvamos o gosto pela Lectio Divina.

Que setembro nos alerte para lutar contra o analfabetismo bíblico, ignorância que nos assola. Termino lembrando aqui o alerta deixado por são Jerônimo em seus escritos do século V, cuja memória comemora-se dia 31, dia da Bíblia. Citando o apóstolo Paulo, ele ao se reportar a Bíblia, escreve: “’Cristo é poder de Deus e a sabedoria de Deus’ (I Cor 1,24), e quem ignora as escrituras ignora o poder de Deus e sua sabedoria, ignorar as escrituras é ignorar Cristo”.

Pe. Marcos Antonio Tavoni

Reitor e Professor do Instituto Mater Dei,

Seminário Interdiocesano do Divino Espírito Santo

pemarcos.tavoni@gmail.com

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