Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

As compensações espirituais

VIII SEMANA DO TEMPO COMUM ? ANO C

Eclo 35,1-15
Salmo 49
Marcos 10,28-31

As compensações espirituais

Os discípulos estão sendo doutrinados a respeito de suas obrigações para com o Reino de Deus. Mas o que receberiam em troca? Faz parte da natureza humana o mecanismo da compensação: ?faço isso para receber aquilo?. Esse mecanismo é tão arraigado na natureza humana, que aquilo que não controlamos em nós (como a parte biológica do nosso ser) funciona basicamente através dele. Podemos observar isso através de coisas simples, como a vontade de ingerir açúcar depois de uma refeição, ou de comer algo salgado se a nossa pressão está baixa. Esses mecanismos de compensação servem para equilibrar o nosso organismo.

E na vida espiritual? Deixar casa, mãe, pai, irmãos e a própria vida para seguir alguém supõe que haverá uma grande recompensa. Os discípulos, quando fizeram essa pergunta a Jesus, não estavam pensando em espiritualidade ainda, pois ainda não tinham nem ideia do que seria a Ressurreição; eles queriam uma recompensa por deixar tudo para seguir um homem que falava com autoridade e realizava milagres. O Senhor, conhecendo o mecanismo de compensação que rege o agir humano, promete o cêntuplo para aqueles que o seguirem, a vida eterna e, nessa versão do Evangelho de Marcos, acrescenta o ?com perseguições?.

Mas como o leigo do século XXI pode viver esse Evangelho? Como ?deixar tudo? para seguir Jesus Cristo? O que isso significa? A primeira leitura, do livro do Eclesiástico, nos dá uma pista. O mecanismo de compensação que há em nós também funciona em nosso relacionamento com Deus, mas em uma escala completamente distinta. Esse trecho nos ensina a sempre nos aproximarmos de Deus com uma oferta em mãos. Que oferta seria essa? A leitura, em seu nível literário, fala-nos do dízimo (que, para o destinatário da época em que foi escrita, significava devolver a décima parte de toda a colheita agrícola para o Templo). Elevando-a para o nível espiritual, percebemos que, para além do dízimo (que todos devemos devolver, segundo a disponibilidade de cada um, sobre o salário recebido), a nossa oferta a Deus são nossas boas ações: é o dízimo da caridade, segundo a doutrina contida no capítulo 25 do Evangelho de Mateus; é o dízimo do coração, ou seja, o amar a Deus sobre todas as coisas é ?deixar tudo? para seguir Jesus Cristo (renunciar a coisas boas para cumprir a missão que Deus confia a cada um de nós); é também o dízimo do tempo, pois também devemos devolver a Deus uma parte de cada dia que Ele nos dá, aplicando esse tempo em caridade e oração.

Mas saibamos: aproximar-se de Deus com ofertas nas mãos não é garantia que seremos atendidos, não é moeda de troca, ?pois Deus não se deixa subornar? (cf. Eclo 35,14). A atitude de oferecer algo a Deus antes de pedir uma graça é algo inerente à virtude da religião, a qual nos obriga o primeiro mandamento. A maior oferta a Deus já foi realizada: o sacrifício de Jesus Cristo. Todas as nossas ofertas devem derivar desta, na proporção das nossas debilidades e virtudes, para serem agradáveis a Deus. Assim, podemos dizer com o salmista: ?entrego meus caminhos ao Senhor e o mais Ele fará?. Assim seja.

Por Diácono João Paulo Veloso
Arquidiocese de Palmas
jpauloveloso2@gmail.com

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