Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Caminhada da Paz

A CAMINHADA DA PAZ

 

Dom Pedro Brito Guimarães,

Arcebispo de Palmas – TO

 

Estamos vivendo, no Brasil, o Ano da Paz, com o título: “Somos da Paz!” Em Assembleia, nós, bispos do Brasil, acordamos que no dia quatro de outubro, deste ano, festa de São Francisco, em todas as dioceses do Brasil (talvez algumas antes, outras depois, dependendo da conveniência pastoral) haverá a Caminhada da Paz. Quem, afinal, nunca cantarolou: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”, a célebre frase da Oração de São Francisco?

Não temos, em mãos, os dados estatísticos dos índices da violência no Estado do Tocantins. Mas, certamente, é do conhecimento de todos que a cultura da violência, em todos os aspectos e em todas as esferas sociais, está disseminada, banalizada e institucionalizada. O fato é que estamos em guerra. Segundo o papa Francisco, estamos vivendo a terceira guerra mundial por etapas, em pedaços, em gotas. Há, no Brasil, uma guerra política, econômica, social e cultural. E enquanto sociedade, nos encontramos diante de um dilema e de um desafio cruciais: vencer os flagelos do ódio, da violência, da vingança e da guerra, e implantar nos corações as culturas do encontro, da não-violência e da paz. Os princípios fundamentais em que se baseia esta nossa convicção, em favor dessa cultura da paz, são igualdade entre as pessoas e as comunidades, a irmandade e a fraternidade, a unidade da família e o primado da justiça sobre a força.

Muitos já disseram que “a paz não é a mera ausência da guerra, nem se reduz ao simples equilíbrio de forças entre os adversários, nem é resultado da opressão violenta; antes é, adequada e propriamente, definida como obra da justiça” (GS 78; Is 32,7).“A verdadeira paz não é ausência de guerra; é uma virtude, um estado mental, uma disposição para a benevolência, confiança e justiça” (B. Spinoza). E, por fim, se paz não é ausência de guerra, “é presença de amor e de Deus” (papa Paulo VI).

Jesus, o Príncipe da Paz (Is 9,5 ou 6), é a nossa Paz: de dois povos fez um só povo (Ef 2,14). É dele também o princípio da paz bíblica: “felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9). A paz não se encontra para ser comprada no comércio. A paz se constrói. É fruto de um contínuo esforço e de uma longa caminhada. Aliás, a paz é caminhada. A paz é um dos cuidados maternais da Igreja. A nossa, é a Igreja da paz. O cristão é um artífice, um artesão, um fazedor e um instrumento de paz. “A guerra não traz nada de bom a ninguém, nem sequer aos aparentes vencedores (papa Bento XVI). Não se ganha nada com a guerra ou com a violência. E, se por ventura, houver algum ganho é, na verdade, um ganho aparente, com o qual se perde mais do que se ganha.  A guerra é uma aventura sem retorno. Viver em paz é possível. Viver em paz é um dever que se impõe a todos. Com nossos conflitos, as nossas forças, as nossas armas e com tantas outras formas de hostilidades, derramamos sangues, despedaçadas vidas, sepultamos esperanças…

Por tudo isto, faz sentido esta nossa mobilização para a Primeira Caminhada da Paz. Caminhando, cantando e rezando, contemplaremos o céu, a lua e as estrelas, plasmados por Deus (Sl 8,4), como brilham e iluminam. Veremos e ouviremos os pássaros como voam e cantam. Miraremos os “lírios do campo”, como crescem, não trabalham, não fiam e vivem em paz. E nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um só entre eles (Mt 6,28-29). E, finalmente, encontraremos pessoas de paz, caminhando em paz e pela paz.

Deus é paz; eu sou da paz; nós somos da paz. Somos da paz. Somos construtores da paz. Pode parecer jogo de palavras, mas não é, a Caminhada da Paz não é simplesmente a caminhada pela paz. Já estarão em paz as pessoas que caminham, com as pessoas que caminham. Mais do que a paz para os outros, é paz para o caminhante, para quem derramar seu suor, queimar suas calorias e adquirir qualidade de vida. Agora, sim, vamos para a rua! Caminhemos juntos, saiamos do sedentarismo, vençamos a tentação da comodidade de tempo, de horário, de clima, de espaço e de motivação.

E, para concluir, uma brevíssima oração da paz: “Dai-nos, Senhor, a paz; ensinai-nos a vossa paz; guiai-nos para a vossa paz. Abri os nossos olhos e os nossos corações e dai-nos a coragem de dizer: ‘nunca mais a guerra!’ Com a guerra, tudo fica destruído. E dos corações de todos nós, homens e mulheres de paz, sejam banidas as palavras divisão, ódio, violência e guerra. Desarmai as nossas línguas e as nossas mãos; renovai os nossos corações e as nossas mentes, para que a palavra que nos faz encontrar seja sempre ‘irmão-irmã’, e o estilo das nossas vidas se torne paz, shalom, peace, friede, pax, paix, axé, assalam para todos nós. Amém (inspirado no papa Francisco).

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X