Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

CARTA DE UM SACERDOTE AO SACERDOTE ZACARIAS SOBRE A MISERICÓRDIA

CARTA DE UM SACERDOTE AO SACERDOTE ZACARIAS SOBRE A MISERICÓRDIA
Palmas, 04 de agosto de 2016
Meu querido irmão no sacerdócio ministerial,
Tenho Sede!
“Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque a seu povo visitou e libertou!” Faço minhas estas suas sábias palavras, pois, de fato, é Bendito o Senhor que nos criou, nos chamou, nos elegeu e nos enviou, sem mérito alguma de nossa parte, por pura misericórdia, a este ministério tão importante para Deus, para a Igreja e para nós, seus sacerdotes.
Sou do tempo em que se escrevia, enviava, recebia e lia cartas. Por isto, resolvi escrever-lhe e enviar-lhe esta carta, na ótica da Misericórdia divina. É que estamos no Ano Jubilar da Misericórdia. E hoje é o nosso Jubileu da Misericórdia. A Misericórdia é a carteira de identidade de Deus, como diz o papa Francisco: “o Nome de Deus é Misericórdia”. “O Senhor é um Deus misericordioso e compassivo, lento na cólera e rico de amor e fidelidade, que conserva o seu amor por mil gerações, mas que castiga a culpa até à terceira e à quarta geração” (Ex 34,6-7). As duas virtudes de Deus, a misericórdia e a justiça, duram tempos diferentes: a misericórdia, até mil gerações; e a justiça, até sete (três mais quatro). Deus é mais misericórdia do que justiça, mais misericordioso do que justo. A Misericórdia divina é infinita, eterna e sem limite. A Misericórdia é o coração do Evangelho de Jesus Cristo. Ele é o Rosto da Misericórdia divina.
Caro irmão, fico aqui matutando o que aconteceu no seu coração e na sua mente, minutos antes de entrar no Templo para o sacrifício sagrado. Passa como um filme, na memória do meu inconsciente, os passos que você deu, as ações que você realizou e as palavras que você proferiu naquele dia. Sabemos pouco da sua vida pregressa, mas o suficiente para intuir que você foi um homem especial: um sacerdote justo, irrepreensível e cumpridor dos mandamentos, preceitos, estatutos e ordens do Senhor. Sabemos também, por experiência, como as preocupações, trazidas de casa, da família, da missão e das labutas do dia-a-dia interferem diretamente na nossa concentração na hora de presidir os atos litúrgicos da comunidade. Mil coisas nos vêm em mente. No seu caso, caro irmão, o peso do preconceito social, por ser idoso e esposo de uma mulher idosa e estéril. Como estar pronto para receber a (in)esperada notícia de que vai ser pai de um menino tão especial, neste estado de velhice e de esterilidade, em que vocês se encontram? Velhice e esterilidade são as marcas dos pobres de Javé, como, às vezes, são também as marcas do nosso sacerdócio. Somos todos sacerdotes pela infinita Misericórdia de Deus, rico em Misericórdia. E os misericordiosos alcançarão misericórdia, segundo Jesus.
Qual não foi a surpresa, naquele dia, escalado, por sorteio, para o ofício de oferecer incenso no Templo, na hora em que o incenso subiu ao céu, desceu o Anjo do Senhor para dar-lhe a maior notícia da sua vida: “você vai ser pai…!” Posso imaginar o tamanho da preocupação e do temor que se apoderaram de você. Ó surpresa de Deus! Não é fácil entender mesmo este Deus misericordioso. Não é todo dia que recebemos notícia de fecundidade e de paternidade, em face à nossa velhice, à nossa esterilidade e à nossa incredulidade. Somos velhos, estéreis e incrédulos por que não geramos filhos, ou por que não sabemos exercer bem a nossa paternidade ou ainda por que não domamos a nossa incredulidade? As surpresas de Deus inquietam, perturbam e trazem medo. Foi preciso o Anjo vir lhe encorajar: “não tenha medo; você vai ser pai; você vai ficar alegre e feliz…!” É bom saber que as suas súplicas, bem como as de Isabel, foram ouvidas e atendidas por Deus, rico em Misericórdia.
Ter filho não é tarefa fácil, sobretudo de um menino prodigioso e especial como é este João: grande diante de Deus; que não bebe vinho e nem bebida inebriante; que estará pleno do Espírito Santo; que converterá os corações endurecidos dos pais e dos filhos, a começar pelos de vocês; que terá missão parecida com a de Elias; que preparará para o Senhor um povo bem-disposto; e por fim, que andará à frente de Jesus, preparando os seus caminhos. Como você bem observou, com o olhar de pai e de sacerdote, este seu menino será o profeta do Altíssimo.
Diante do inaudito, você, idoso, com sua esposa idosa, certamente, contaminados por uma forte dose de ceticismo e de incredulidade, como, às vezes, acontece com os sacerdotes, só restou pedir ao Anjo um sinal explicativo: “de que modo saberei que isto é verdade?”-“Eu sou Gabriel” – disse-lhe o Anjo. “Fui escolhido para trazer a você esta boa notícia: você vai ser pai!”
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Mas, a notícia que não esperava e ninguém merece ouvir veio, em seguida: “ficará mudo porque não acreditou na promessa”. Não sabemos o que é pior ser idoso, ser estéril ou ser incrédulo!(?). Deus é tão misericordioso que somente lhe tirou a voz.
E agora, Zacarias? Punição? Castigo? Vingança? E o pior de tudo, irmão, foi ouvir do Anjo como se esta fosse uma boa notícia. Como pode um sacerdote não acreditar na Palavra e nas promessas do Senhor? A sua mudez que poderia parecer um castigo, se deu por decisão do Anjo, como sinal da veracidade da sua palavra. Quando Deus fala, devemos calar. Quando Deus promete devemos crer. Diante de Deus, a resposta razoável é o silêncio. Uma vez nascido o menino, a palavra volta à sua boca. Isto traz muitos e bons ensinamentos para nós: deixemos Deus fecundar a nossa vida, através do acolhimento da sua Palavra e das suas promessas; diante da obra de Deus convém o silêncio obsequioso, a adoração e o louvor. Você há de convir que mudez é uma doença danada e incômoda. Quem já teve crise de rouquidão, por uma simples gripe ou amigdalite, no dia em que mais precisava da voz para os ofícios, sabe o que isto significou para você. Se esta moda pega e se toda vez que duvidarmos das promessas divinas, ficarmos mudos, quem vai nos substituir nos serviços litúrgicos?
Que filho bonito você teve, caro Zacarias! Dizem que “filho feio não tem pai e que de filho bonito todos querem ser pai”. Segundo o papa Francisco, nosso pai na fé, “os filhos são uma dádiva. Cada um é único e irrepetível (…). Um filho é amado porque é filho: não, porque é bonito ou porque é deste modo ou daquele, mas porque é filho! Não, porque pensa como eu, nem porque encarna as minhas aspirações. Um filho é um filho” (AL 170). Quem não gostaria de ter um filho como este seu? Valeu à pena esperar tanto tempo para ter um filho com estes quilates. Como aconteceu com você, caro irmão, deve acontecer também com cada um de nós. Muito cedo as comunidades cristãs nos apelidaram de “padre”, que quer dizer: “pai” de muitos filhos, muitos como as estrelas do céu, tanto quanto a areia do mar, tanto quanto os filhos de Abraão… Não geramos filhos biológicos, mas filhos espirituais. Não geramos filhos para nós, mas para Deus. A nossa esterilidade e a nossa mudez são proporcionais à nossa incapacidade espiritual de gerar filhos para Deus. É o amor misericordioso que nos faz fecundos.
Deus, em sua misericórdia, deu-lhe um filho, apesar de ser um casal idoso, estéril e de duvidar da promessa de Deus, por ser justo e viver em conformidade com a vontade de Deus. Com o anúncio do nascimento de João, o precursor, teve início o cumprimento da era messiânica. Deus cumpriu o que havia prometido aos nossos pais. Os nomes de vocês comprovam a particularidade da Misericórdia de Deus na vida de vocês: “Zacarias” quer dizer: “o Senhor se lembrou”; “Isabel” quer dizer: “meu Deus é plenitude”; e “João” quer dizer: “O Senhor é gracioso”. Há um fato, contado por um padre do deserto, que diz o seguinte: “um discípulo, machucado gravemente, por outro, reclamou porque o mestre não o puniu, como todos esperavam. Passado um ano, outro discípulo, indignado exclamou: “como se faz para ignorar o que foi cometido? Além de tudo, Deus lhe deu olhos para ver!”- O mestre replicou-lhe: “é verdade, mas deu-nos também pálpebras para fechar os olhos”.
Depois disto, volta para casa, mudo, para curtir a gravidez de Isabel que, para aumentar ainda mais a sua expectativa, escondeu a sua gravidez por cinco meses. Por quê? Não sabemos. Talvez para provar e provocar ainda mais a sua incredulidade e a sua mudez. Com a mudez você ficou praticamente impossibilitado e incapaz de completar a liturgia que começou. O povo está ainda lhe esperando para continuar a liturgia, mas que só será retomada quando a promessa se tornar realidade: quando o menino nascer. A resposta razoável ao Deus misericordioso é a alegria. A primeira palavra pronunciada, depois de tudo o que aconteceu, caro Zacarias, foi o louvor a Deus. E, com isto, retoma e conclui a liturgia interrompida há nove meses. Quando o menino crescer, ele vai ser a voz que clama: “no deserto, preparem os caminhos do Senhor!” A partir de agora é o menino que deve retomar a palavra emudecida.
Há aqui, propositalmente, um corte e uma pausa na narrativa para a inserção do anúncio do nascimento de Jesus, sem prejuízo algum para o entendimento da excepcionalidade do seu filho. Este corte proposital é para inserir Jesus na nossa vida. Jesus é central na nossa vida. “O que é que sou sem Jesus?” Esta pausa foi o kairós da Misericórdia divina para você experimentá-lo, saboreá-lo, curti-lo e ruminá-lo. Tanto assim que quando da visita de Maria à sua casa, grávida de Jesus, o seu filho estremeceu de alegria no ventre de Isabel, e ela fica cheia do Espírito Santo. Diante de Jesus, todo joelho se dobra e toda língua proclama: Jesus é o Senhor para a glória de Deus Pai! Se até João estremeceu ao reconhecer Jesus, quando, afinal, estremeceremos ao reconhecê-Lo?
O seu cântico salmódico, Zacarias, escrito para o nascimento do seu filho, chamado popularmente de “Benedictus”, é rezado por nós, sacerdotes, nas Laudes da Liturgia das Horas.Todas as manhãs, entoamos este seu cântico, interrompido depois da mudez de uma noite de silêncio litúrgico do repouso sagrado. Ao pronunciarmos o“Benedictus” nos associamos ao seu louvor ao Deus que visitou o seu povo e o libertou. Um cântico sacerdotal a Deus, a Jesus e a seu filho. Lindas são as suas palavras dirigidas a Deus: “Bendito o Senhor que visitou e libertou o seu povo; fez surgir um poderoso Salvador; mostrou misericórdia; recordou sua santa Aliança”. Lindas igualmente são as palavras dedicadas a Jesus:“um Poderoso Salvador”,“para salvar-nos do poder dos inimigos”;“o Sol nascente que nos veio visitar”, “para iluminar a vida de quem vive nas trevas e guiar os seus passos no caminho da paz”. E lindas, por fim, são as palavras dirigidas ao seu filho: “Profeta do altíssimo, pois, irá andando à frente do Senhor para aplainar e preparar os seus caminhos”; “anunciando a seu povo o salvação”.
“Cantar é próprio de quem ama”, diz Santo Agostinho. Cântico tem tudo a ver com a liturgia do nosso ministério sacerdotal: união de letra, música, rima, ritmo, pausa, compasso, tempo, harmonia, partitura… A sua comunidade foi muito solícita e participativa no nascimento de seu João: fez festa, cantou, dançou, acedeu fogueira, se alegrou e comemorou. E a festa se prolongou até o dia em que o menino recebeu o nome: “João será chamado!”, – falado pela mãe e escrito por você, pai. É significa a circunstância em que você recobra a voz: apenas escreveu na tabuinha o nome “João”, a sua língua se soltou.
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Quando por incredulidade perdeu a voz, pela fé a recuperou. Também nós perdemos a voz pela incredulidade e a recuperamos pela fé.
Há aqui um testemunho de minha vida que gostaria de compartilhar com você, meu caro irmão, sacerdote: eu era seminarista, em 1983, em Roma. Numa das formações semanais, o padre Alfeu Piso, de Ribeirão Preto – SP, explicou para nós estes versículos, que o considero o coração deste seu cântico sacerdotal: “assim mostrou misericórdia, recordando a sua santa aliança e o juramento a Abraão, o nosso pai que, libertos do inimigo, sirvamos ao Senhor, sem temor, em santidade e justiça, enquanto perdurarem os nossos dias” (Lc 1,72-75). Questionava ele: “vocês querem ser padres? Então eis aqui o retrato falado de um sacerdócio: – um homem livre do inimigo, – servindo ao Senhor, – em santidade e justiça, – todos os dias da vida. Santo para justificar e justo para santificar”. Assim Deus mostrou “a sua Misericórdia, de geração em geração”, como disse Maria. Foi a Misericórdia divina quem salvou você da incredulidade e da mudez, caro Zacarias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Deus sente-se responsável por nós, isto é, deseja o nosso bem e quer nos ver felizes, cheios de alegria e serenos” (Misericordiae Vultus 9).
Misericórdia indica de fato o agir de Deus para conosco. Há uma fábula que diz que dois camponeses estavam numa hospedaria. E um deles, embriagado, perguntou ao outro: “você me queres bem?” O outro, refletiu um pouco, respondeu: “certamente, quero bem a você!” E o bêbado: “você diz que me quer bem, mas não sabe de que coisa mais necessito!” Amar o outro é conhecer as suas necessidades e sofrer com ele por causa das suas necessidades. Bela definição de amor e misericórdia. A Misericórdia divina tem os ícones: o Pai, cujo nome é Misericórdia; Jesus, o Filho, o Rosto e a Face da Misericórdia do Pai; e o Espírito Santo, doado "para a remissão dos pecados” (Jo 20,22), agindo em nós, cristãos, para que sejamos misericordiosos como o Pai (Lc 6,36). A Misericórdia tem uma casa: a casa onde moram você, Isabel e João. A Misericórdia tem um caminho: o caminho de sua casa para o Templo e do Templo para sua casa. A Misericórdia tem corações e ventres: os de Deus, os seus, os de Isabel, os de João Batista e os nossos, seus sacerdotes. E a Misericórdia tem vozes: a de Maria: “sua misericórdia se estende de geração em geração!”; e a sua: “assim mostrou misericórdia!” (DM, p. 29). A missão do sacerdote na Igreja é viver e anunciar esta Misericórdia de Deus. O sacerdote é ministro e embaixador desta Misericórdia.
No final desta encantadora e apaixonante história sacerdotal, na ótica da Misericórdia, caro Zacarias, há uma pergunta que não pode calar e ficar sem resposta: “o que vai ser deste menino?” Cada um pode se perguntar: o que vai ser de mim? A resposta também é encantadora e apaixonante: o menino crescia e ficava forte no espírito. Esta é também a nossa vocação e a nossa missão. Para isto fomos criados, escolhidos, eleitos, ordenados e enviados em missão.
E, para concluir, caro irmão, o Papa Francisco disse: “o padre é homem de misericórdia e compaixão, como o bom samaritano e como Jesus, o Bom Pastor. Há tanta gente ferida por problemas materiais, pelos escândalos, mesmo dentro da Igreja. Gente ferida pelas ilusões do mundo. Nós padres temos de estar ali, junto das pessoas. Misericórdia significa, antes de mais nada, curar as feridas. O padre está chamado a aprender isto, a ter um coração que se comove. O padre asséptico, de laboratório, não ajuda a Igreja. A verdadeira misericórdia toma a seu cargo a pessoa, escuta-a atentamente, aborda com respeito e com verdade a situação, acompanha-a no caminho de reconciliação. Comporta-se como o Bom Samaritano. O seu coração é capaz de compaixão, como o de Cristo”.
Deus é realmente gracioso e misericordioso! Para nós também, amados sacerdotes, completou-se este tempo a graça de Deus neste Ano Jubilar da Misericórdia! Os nossos vizinhos vão também se alegrar quando nos ver misericordiosos como o Pai, alegres, felizes, encantados…
“Eu amo a todos vocês, em Jesus Cristo” (1Cor 16,24), de coração!
Jesus Misericordioso, eu confio em vós! Amém!
                                                                                                            Dom Pedro Brito Guimarães,
                                                                                                             Arcebispo de Palmas – TO
                                                                                                             Ano Santo da Misericórdia

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