Arquidiocese de Palmas

Chegou…Plano Arquidiocesano de Evangelização – Ano II

APRESENTAÇÃO

 

PALMAS, UMA IGREJA EM CONSTRUÇÃO

 

1. Os códigos dos Patriarcas

 

“Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó” (Ex 3,6; At 3,13; 7,32; Mt 22,32; Mc 12,26; Lc 20,38). Cremos não haver maior graça concedida a uma pessoa do que a que foi agraciada aos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. É encantador ver Deus ser chamado “de Abraão, de Isaac e Jacó”, ao invés de “Abraão, Isaac e Jacó ser de Deus”. O Senhor, nosso Deus é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade (Sl 102,4). Quando criou, chamou, elegeu e enviou em missão os três patriarcas, como pais biológicos e espirituais do povo de Deus, deu a eles três códigos (dons, carismas e graças) especiais para gerenciarem obras que não eram suas. Quem são estes três patriarcas? O que fizeram para que Deus seja considerado deles? E quais são estes códigos?

Primeiro código: habitantes de tendas: os três patriarcas, Abraão, Isaac e Jacó, foram habitantes de tendas. Viviam em assentamentos, com suprimentos de água, ou adotavam um estilo seminômade de vida, moravam em tendas e se locomoviam, com suas manadas, de oásis em oásis, onde a terra podia ser habitada e cultivada (Gn 18,1-2.9-15; 26,25; 33,18-19). Estes nossos pais na fé foram especialistas em construção e em habitação em tendas. A tenda era também o tabernáculo, a morada e o lugar de adoração a Deus. Pouco a pouco a páscoa passou a ser a festa das tendas quando milhares de pessoas iam à Jerusalém e acampavam em tendas improvisadas. Deus mesmo era um habitante de tenda, até que foi construída uma casa digna para a sua morada. A festa da trasladação da arca da aliança testemunha o que estamos afirmando (1Cr 15,1ss;-16,1ss). Quando João, no prólogo do seu evangelho, começa a falar de Jesus diz que “o Verbo se fez carne e fez sua tenda em nosso meio” (Jo 1,14), enfatiza a natureza temporária e provisória dos seus dias aqui na terra. Com a sua entrada no mundo, as tendas antigas foram destruídas e reconstruídas. Por isto, diz o Apocalipse: “Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo. E ele, Deus-com-eles, será o seu Deus” (Ap 21,3). Paulo também usa a metáfora temporária da tenda para descrever a vida cristã (1Cor 5,1-4). Portanto, os três patriarcas se mantiveram vivos e cumpriram bem suas missões porque habitaram em tendas.

Segundo código: perfuradores de poços: os três patriarcas foram também cavadores de poços (Gn 26,15-22;31-32). Quando falamos em poço, necessariamente  pensamos em água, elemento necessário e indispensável para a vida humana. Cava-se poço para achar água. A água é um dos elementos vitais, aqui e fora da terra. A água é um bem que possibilita a existência, a sustentação e a preservação da vida. Cavar poços significa a busca de um bem muito precioso, muito mais valioso que o ouro, porque permite a sustentabilidade e a sobrevivência pessoal e familiar. Cavar poços é trabalhoso, exige conhecimento prático, técnica e ciência. Mas é recompensador ver as águas fluindo e fertilizando a terra a vida para germinar as sementes da presença de Deus. O poço mais conhecido era o poço de Jacó (Jo 4,1-42). Jacó tinha o poço, mas Jesus é a fonte. Jacó precisou  cavar o poço, mas Jesus é a fonte de água viva que jorra para a vida eterna. A vida e a alma do povo do deserto estavam sempre famintas e sedentas de Deus (Sl 42 e 62). Muitos morreram e ainda morrem de fome e de sede porque pararam de cavar poços e de acreditar que a vida e a bênção vêm em forma de água. Quem abandona a Deus, abandona a fonte de água viva: “este povo abandonou a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas que não podem conter água” (Jer 2,13). Quando ocorre isto, só vive se o reservatório espiritual estiver cheio de água viva. Como na natureza, em nossa vida há períodos de glórias e de bênçãos, mas também há períodos de dificuldades e lutas. Portanto, os três patriarcas se mantiveram vivos e cumpriram bem suas missões porque construíram poços.

Terceiro código: construtores de altares: os três patriarcas foram igualmente especialistas na construção de altares. Construir, erguer, levantar e elevar altar é cultuar e cultivar a Deus (Gn 33,18-20; 26,25). A palavra “altar” vem do latim “altus”, significa estrutura elevada para chamar a atenção ao poder do Deus invocado. Altar é o lugar mais alto para a entrada em contato com o poder divino. É símbolo da comunhão, da santificação, da reconciliação e da perfeição. É o lugar onde se manifesta a presença de Deus. É espaço de onde Deus vem ao encontro de nossas necessidades humanas e espirituais. É, por fim, o lugar da comunicação entre Deus e o homem, onde o fraco encontra força e poder. Entre os altares famosos está o que Jacó construiu (Gn 28,10-19). Este é o altar da verdadeira renovação e da comunhão com Deus. Deus tinha feito uma promessa a Jacó, mas ele só seria realmente abençoado depois que levantasse o altar. Outro altar famoso foi o construído em Betel, que significa “Casa de Deus” (Gn 35,1-3). Jacó levantou o altar a Deus, na casa de Deus, para significar a restauração, a comunhão, a santificação e a purificação. A caminhada do povo de Deus pelas terras de Canaã levou-o a aportar em Siquém, que significa “ombro amigo”, “abrigo”, “aconchego”. Siquém é o ombro amigo de Deus para ajudar o povo nas horas de dificuldades, de dores e de enfermidades. Hoje o altar é o coração de cada homem e de cada mulher. Quem tem altar tem vida, comunhão e bênção de Deus. Portanto, os três patriarcas se mantiveram vivos e cumpriram bem suas missões porque foram construtores de altares. 

 

2. Palmas, a Igreja das tendas, dos poços e dos altares

 

Todas as vezes que visito as Comunidades e pergunto: “que Igreja vocês querem ser?”, a resposta é sempre a mesma: “queremos ser uma Igreja Viva!” Quais são os códigos de uma Igreja Viva? Os mesmos códigos que Deus agraciou os três patriarcas. O Deus que permitiu a criação da Arquidiocese de Palmas deu a ela os códigos do seu carisma, da sua graça, da sua vocação e da sua missão. É nossa missão decodificá-los:

2.1. “Ide e anunciai”: Palmas, uma Igreja de tendas: Palmas nasceu, se formou se estabeleceu debaixo da “tenda” de um pequizeiro. Ela é “Igreja de tendas” por viver na provisoriedade, da adaptação, da inculturação e da providência; por ser uma Igreja inclusiva; por estar pronta para a saída, para percorrer os caminhos do deserto da vida, rumo à terra prometida, o Reino definitivo. Quais são as tendas que Palmas tem que habitar? As tendas inclusivas da multiculturalidade e da esperança. Precisamos todos morar debaixo deste mesmo teto. Que ninguém se sinta excluído das tendas inclusivas da nossa Igreja. Somos, portanto, todos convocados a entrar e a rezar esta oração: “Senhor, alarga o espaço da nossa tenda, estenda as cortinas da nossa morada, alonga as cordas e finca as estacas (Is 54,2).

2.2. “Ide e anunciai”: Palmas, uma Igreja perfuradora de poços: a Igreja de Palmas é também uma Igreja perfuradora poços para dar de beber a seu povo, faminto e sedento de Deus. O poço de Jacó, ao pé do qual Jesus se encontrou a Samaritana, a mais sedenta das mulheres de Sicar, é um código que precisamos decodificar (Jo 4,1ss). Ao pé do poço que Jacó cavou, hoje Jesus senta-se para evangelizar as pessoas sedentas. Jesus Cristo é a fonte de água viva, canalizada, pelo Espírito, para nosso interior (Jo 7,37-38). Somente uma Igreja samaritana é capaz de fazer o que Jesus fez com os discípulos e os habitantes de Samaria. Quais são os poços que Palmas tem que perfurar? Os poços do diálogo e da fraterna solidariedade. Que ninguém se sinta excluído das águas deste poço. Que sentemos todos, ao redor deste poço, e rezemos: “Senhor, dai-nos desta água, para que não tenhamos mais sede e nem precisamos mais vir aqui buscar água” (Jo 4,15).

2.3. “Ide e anunciai”: Palmas, uma Igreja construtora de altares: Palmas é igualmente uma Igreja em construção, em todos os sentidos e aspectos. Não somente porque está construindo Igrejas, entre elas, a Catedral, e as casas e os salões paroquiais. Mas porque ainda está construindo a sua identidade, a sua autoridade e sua missão. O altar é o símbolo da família reunida para a mesma refeição. Somos todos irmãos e irmãs: moramos debaixo do mesmo teto; sentamos todos ao redor da mesma mesa; ouvimos a mesma palavra; professamos a mesma fé; bebemos do mesmo cálice; e compartilhamos do mesmo pão. Somos todos convivas da mesa da casa comum. Se o mundo nos desune, a Igreja nos reúne. Quais são os altares que Palmas tem que construir? Os altares da unidade e da missionariedade. Que ninguém se sinta excluído do altar da mesma da casa comum. E, que por fim, possamos em uníssono rezar: “Senhor, dai-nos a graça de um só coração e uma só alma, para que, na comunhão fraterna, possamos compartilhar do mesmo pão da Palavra e da Eucaristia” (At 2,42; 4,32ss). 

Somos, portanto, uma Igreja em construção, no sentido pleno da palavra. O que não nos faltam são obras para serem construídas: novas tendas, novos poços e novos altares. Somos, como diz o salmista, “uma obra começada e inacabada” (Sl 137,8). Nunca devem faltar em nossas vidas a tenda, o poço e o altar. É feliz quem tem tendas para a sua habitação, poços para tirar água e altares para a oração e a celebração. Basta para isto ver como aconteceu na vida dos três patriarcas. Por isto, cada fiel da Arquidiocese de Palmas, tenha, na mente e no coração, as condições de decodificar (abrir e ler) estes seus códigos. Os três patriarcas, em cada novo desafio, armavam novas tendas, cavavam novos poços e levantavam novos altares. E de tenda em tenda, de poço em poço, de altar e altar, se mantiveram vivos e realizaram, com sucesso, as missões recebidas do Senhor. Deixemos a disposição de todos estes três cenários para vivermos o Ano da Bíblia e as duas Prioridades escolhidas para este ano pastoral: o Laicato e a Pastoral Orgânica. Afinal, embora muitos e diferentes e diversos, formamos um só corpo (Rm 12,4-5; 1Cor 12,12ss), porque o Espírito é o mesmo (1Cor 12,4-11). Que Deus nos ajude a fazermos o que fizeram os patriarcas e sermos vencedores. Que nunca falte em nossas vidas as tendas, os poços e os altares. Que todos possamos experimentar, escutar, contemplar e perscrutar, com alegria, o que o Espírito Santo diz à nossa Igreja.

 

Dom Pedro Brito Guimarães,

Arcebispo Metropolitano de Palmas

 

Palmas, 20 de outubro de 2016,

6 anos da minha nomeação para Arcebispo de Palmas

 

  1. ANIMAÇÃO BÍBLICA DE TODA A PASTORAL

 

A Bíblia é o Livro mais traduzido e comercializado no mundo. Todos têm acesso a ela e muitos pretendem estudá-la, alegando perícia e autoridade para interpretá-la corretamente. O resultado disso, é uma multiplicidade de interpretações, nem sempre convergentes entre si, que têm suscitado a proliferação de inúmeras igrejas, ditas cristãs, algumas muito bem sucedidas, atingindo dimensões preocupantes por atrair milhares de pessoas que acreditam dar cumprimento à vontade de Deus, transmitida pela Sagrada Escritura.

Por outro lado, a Igreja, na sua história, sempre se preocupou em manter viva a genuína interpretação da Sagrada Palavra, em harmonia com Tradição Apostólica, critério seguro, capaz de garantir a integridade da transmissão dos textos sagrados e sua correta interpretação, sem correr o risco de cair no subjetivismo e no fundamentalismo, muitas vezes pretensioso, que tem levado muitos a deformar o sentido da Sagrada Escritura a benefício próprio, ou para justificar ideologias de grupos sectários. Diante disso, o catolicismo, por meio de seu legítimo magistério, sempre levantou a voz contra todos os abusos cometidos contra a legítima interpretação da Bíblia, que não salvaguarde a Tradição, que, por sua vez, pretende manter inalterada aquela única voz que ecoa em toda a Escritura: a voz de Deus, pronunciada na plenitude dos tempos, pela boca de seu Verbo, Cristo encarnado, para a salvação da humanidade.

Neste Ano da Bíblia, a Arquidiocese de Palmas tem por proposta pastoral e formativa estudar a Palavra de Deus, com o intuito de buscar nela o fundamento de toda a sua ação pastoral. Para isso, é muito importante sabermos em que consiste a Bíblia, pois assim poderemos compreender melhor em que sentido ela é a Palavra de Deus, e como esta Palavra ainda pode guiar nossas vidas e orientar as nossas práticas pastorais.  A missão da Igreja se concretiza em sua práxis pastoral, que consiste em tornar Jesus Cristo conhecido e presente nos mais variados setores da sociedade, da qual é parte constituinte. Por isso, é muito importante conhecer os ensinamentos do divino Mestre, anunciados até os confins do mundo, por seus primeiros discípulos e pela Igreja recém-fundada, a fim de que também hoje possamos agir de acordo com aqueles ensinamentos, que nos foram transmitidos como “Palavras de vida eterna”. Por isso, conhecer a Palavra de Deus é um dever que se impõe a todos os que desejam vivê-la e anunciá-la. Afinal, uma pastoral animada biblicamente só será possível através de um estudo sistemático e permanente da Bíblia.   

Abaixo, apresentaremos, brevemente, a dupla dimensão da Sagrada Escritura, definida como “Palavra de Deus em palavras humanas”. Apresentaremos também os principais documentos do Magistério da Igreja, para quem deseja conhecer melhor e aprofundar os ensinamentos da Igreja a respeito da Palavra de Deus. Com estas poucas palavras, pretendemos despertar em todos os irmãos e irmãs um interesse ainda maior pelos estudos da Bíblia, estudos que trarão tantos proveitos para a vida cristã pessoal e comunitária. 

 

1. A Bíblia: Palavra de Deus

 

Esta é a clássica definição da Bíblia, mas nem, por isso, completa. É a primeira parte da definição e deve ser a primeira consideração de quem pretende estudar corretamente a Bíblia. Dizemos isso, pois, a Bíblia é também palavra humana, e não poderia ser de outra forma: o Deus que se revela na história, revela-se aos homens e se mantém vivo na memória dos homens, porque esses decidiram transmitir por escrito as Palavras reveladas por Deus ao seu povo. Mas é, sobretudo, com o seu Filho que esta revelação atinge seu ápice, falando Deus não mais por intermédio de homens, mas através de seu próprio Filho, feito homem, no meio dos homens.

 

Os primeiros versículos da Carta aos Hebreus ilustram muito bem isso: “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo. Ele é o resplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser. Ele sustenta o universo com a sua palavra poderosa. Tendo feito a purificação dos pecados, sentou-se à direita da majestade divina, nas alturas, elevado tão acima dos anjos quanto o nome que ele herdou supera o deles” (Hb 1,1-4).

Estas Palavras revelam os desígnios de Deus, sua sabedoria, o seu mistério escondido no tempo, revelado, em partes, a um povo escolhido, mas só compreendido totalmente quando seu Filho se encarna para revelar-nos “o que nem olhos não viram e ouvidos não ouviram” (1Cor 2,9). A Igreja está a serviço dessa Palavra, ela a guarda qual um tesouro que lhe foi confiado, e a ensina às nações por crer que só Cristo possui “Palavras da vida eterna” (Jo 6,68).

     

2. A Bíblia: Palavra humana

 

Não podemos esquecer de que a Bíblia se tornou também palavra humana, a partir do momento que Deus se revelou a homens e mulheres num tempo específico, inseridos numa cultura específica. Esses homens tiveram por missão o grande privilégio de codificar nas páginas dos Livros Sagrados as Palavras que Deus lhes havia revelado, por meio de gestos, eventos, profecias, verificados no decorrer da própria história desse povo. O resultado deste processo está refletido nas páginas da Sagrada Escritura, um Livro que fala de Deus, de sua vontade, de sua lei, mas através da história de um povo, circunscrito no tempo e no espaço: o povo antigo de Israel, que viveu nas terras orientais da Palestina, a partir do século XX, antes da encarnação de Jesus Cristo.

Por isso, os textos da Bíblia estão impregnados da cultura deste povo, assim como de tantos costumes dos povos orientais antigos (Egito, Síria, Mesopotâmia, Grécia). Para a compreensão adequada desses textos, é necessário o estudo da história, da geografia, da língua, da literatura, dos costumes dessas gentes, tão distintos dos nossos, caso contrário, corre-se o risco de dar a esses textos um sentido que eles não possuem. E isso poderá resultar num grande prejuízo para o leitor e para a ação evangelizadora da Igreja. 

 

Sugestões de leitura de alguns documentos do Magistério da Igreja sobre a Sagrada Escritura

 

Dei Verbum: Constituição Dogmática sobre a Sagrada Revelação, (Concílio Vaticano II);

Catecismo da Igreja Católica (51-141);

A Interpretação da Bíblia na Igreja (Pontifícia Comissão Bíblica);

Verbum Domini, (Bento XVI).

 

Padre Luciano Zilli

 

  1. CRISTÃOS LEIGOS E LEIGAS, NA IGREJA E NA SOCIEDADE:

SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO (Mt 5,13-14)

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprovou em sua 54ª Assembleia Geral o Documento 105: Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade “Sal da Terra e Luz do Mundo” (Mt 5,13-14). Fruto de um mutirão que contou com a participação de movimentos, pastorais, conselho, organismos. Homens e mulheres de boa vontade ajudam na construção de uma Igreja discípula e missionária.

Eis que a partir do Documento, afirma-se a expressão “sujeitos eclesiais” e se fundamentam nos ensinamentos do Concilio Vaticano II e na atualização posterior do Magistério da Igreja. Na afirmação do cristão leigo “como verdadeiro sujeito eclesial, que assume seus direitos e deveres na Igreja, sem cair no fechamento ou na indiferença, sem submissão servil nem constatação ideológica” (doc. 105 CNBB, p. 69), faz nascer a maturação da fé. “Os cristãos leigos e leigas são ‘embaixadores de Cristo’. Têm cidadania própria no povo de Deus; são participantes do ‘pleno direito na missão da Igreja’. Têm lugar insubstituível no anúncio e serviço do Evangelho” (p. 71). Portanto, “testemunhar amor à Igreja, servir os irmãos e irmãs, permanecer no seguimento de Jesus, na escuta obediente à inspiração do Espírito Santo e ter coragem, criatividade e ousadia para dar testemunho de Cristo” (p. 69). Estas são algumas das manifestações do sacramento do Batismo.

A renovação eclesiológica conciliar compreendeu o cristão leigo plenamente como membro efetivo da Igreja e não como um fiel de pertença menor ou inferior, a quem faltasse algo da comum dignidade cristã (LG, cap. 4). A Exortação Pós-sinodal Christifideles Laici retoma e afirma o significado positivo dos fiéis leigos como membros do Povo de Deus: sujeitos ativos na Igreja e no mundo, membros da Igreja e cidadãos da sociedade humana (CfL, n. 59).    

O sujeito cristão com a postura da consciência de si: distinto do outro e da realidade; mas, crente que “sua missão é sair de si, iluminar, se doar, dar sabor e se dissolver” (p. 21);  sujeito que se  faz na autonomia: “quando é capaz de decidir por si mesmo” (p. 70) , sem coação externa; e  sujeito na ação: ator e “relacional com os outros e o mundo” (p. 70). Com estas posturas que superam o individualismo, a intransitividade (egocentrismo), a massificação e/ou o comunitarismo (grupo de segurança que não tolera e diversidade individual e as diversidades externas), o leigo eclesial “descobre-se responsável por si e pelos outros” (p. 70).

A teologia deste sujeito eclesial confirma a eclesiologia do Vaticano II e do Papa Francisco: a Igreja em saída para servir e transformar o mundo. O cristão leigo, como sujeito no mundo, é chamado a agir de forma consciente. Age como sujeito histórico e discípulo missionário, sempre em diálogo e abertura com as culturas e as religiões, com filosofias do tempo e da história humana e com o Magistério da Igreja. Cada cristão participa da história humana como sinal de salvação pelo testemunho e ação, como sujeito que colabora na transformação da sociedade.

O processo de autonomia de ação e organização do laicato se realiza no interior da comunidade eclesial e, portanto, na comunhão com os demais membros e seus pastores. A este propósito, o Documento de Santo Domingo recomenda: “Promover os Conselhos de Leigos, em plena comunhão com os pastores e adequada autonomia, como lugares de encontro, diálogo e serviço, que contribuam para o fortalecimento da unidade, da espiritualidade e organização do laicato” (DSD, n. 98).

A Arquidiocese de Palmas reconhecendo a importância dos leigos e leigas das comunidades, dos ministérios e dos serviços. O Laicato é  prioridade em 2017! Temos o Conselho Arquidiocesano de Leigos e Leigas de Palmas (CALP) em comunhão com o Comissão do Laicato do Regional Norte3 da CNBB e com o Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB). Queremos confirmar nosso compromisso batismal para um mundo fraterno, solidário, com justiça social, dignidade e cidadania, onde possamos concretizar o sonho de Deus e do Papa Francisco por uma sociedade onde não tenha nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade.

Sintam-se todos convocados a colocar em prática esta prioridade.       

 

Samuel Viana e Istélia Folha

Setor Laicato

 

  1. PASTORAL ORGÂNICA

PLANEJAMENTO PASTORAL: DO QUE ESTAMOS FALANDO?

               

A Arquidiocese de Palmas deve assegurar que seu “Plano de Evangelização seja orgânico e articulado e se integre como projeto comum a seus vários “rostos” de vida e de testemunho eclesial:  paróquias, comunidades de vida consagrada, pequenas comunidades, movimentos e instituições que incidem nas cidades onde está presente” (DAp 518, b).

Ao voltar nosso olhar para o Plano Arquidiocesano de Evangelização 2016-2019, confirmamos em nossa missão evangelizadora que, neste ano de 2017 é o ANO DA BÍBLIA e são Prioridades a Pastoral Orgânica e o Laicato. No entanto, antes de assumirmos este caminho pastoral, é necessário discernir do que estamos falando: – de pastoral orgânica, de planejamento pastoral. Qual é o conceito melhor para a nossa realidade? Alguns conceitos poderão nos ajudar a fazer esta distinção e a estabelecer parâmetros para nossa ação evangelizadora.

A Pastoral Orgânica encontra seu fundamento bíblico especialmente no Apóstolo Paulo, mais especificamente em 1Cor 12. Paulo deveria conhecer o conceito de corpo utilizado pelos estóicos para falar da pólis (cidade, estado). Compreendendo o funcionamento do estado como um corpo vivo, onde cada membro possui sua distinção, mas todos se interconectam em funções e deveres para o seu funcionamento, em vista da felicidade. Paulo atribui esta imagem à Comunidade de Corinto. Ao utilizar a imagem do corpo, define a Igreja a um organismo vivo, formado por diversos membros, distintos entre si, mas necessários para a vida do organismo e para a vida de cada membro. Como o corpo não vive sem os membros e nem os membros têm vida sem o corpo, a Igreja também não vive sem seus membros.

Paulo vai mais longe que os estóicos, ao dizer que o que nos constituiu como corpo não foi uma lei ou uma evolução do agrupamento social, mas a graça de Deus que suscita dons e carismas diversos (1Cor 12,28), marcados por um mesmo Espírito (1Cor 12,13). Este mesmo Espírito suscita a diversidade de dons, carismas e ministérios, em vista do Reino de Deus, para o crescimento deste mesmo Reino. Assim, quando a Igreja fala de Pastoral Orgânica ou de conjunto está se reportando ao apóstolo Paulo, desejando que os diversos dons e carismas de nossos dias não se dispersem, mas trabalhem naquela unidade orgânica que deixa o corpo vivo e conserva útil cada membro.

O objetivo da Pastoral Orgânica não é padronizar as pastorais, nem desfigurar a variedade dos dons, carismas e serviços presentes nas comunidades. A busca da unidade não abafa a criatividade nem a ação do Espírito Santo. Cada grupo ou movimento eclesial, com sua espiritualidade e objetivos específicos, se coloca em sintonia com as metas que a Arquidiocese de Palmas deseja alcançar.

O papa João Paulo II, em Christifideles Laici, defende esta organicidade quando fala da vocação e da missão do cristão leigo na paróquia: “a comunhão eclesial, embora possua sempre uma dimensão universal, encontra a sua expressão mais imediata e visível na paróquia: esta é a única localização da Igreja (…) embora, por vezes dispersa em territórios vastíssimos ou quase desaparecida no meio de bairros modernos populosos e caóticos, a paróquia não é principalmente uma estrutura, um território, um edifício, mas é, sobretudo, ‘a família de Deus, como uma fraternidade animada pelo espírito de unidade’ (…). Em definitivo, a paróquia está fundada sobre uma realidade teológica” (número 26).

No Documento de Aparecida, em meio às inquietações e aos debates acerca da renovação da paróquia, os bispos expressaram que a paróquia “é o lugar privilegiado no qual a maioria dos fiéis tem uma experiência concreta de Cristo e a comunhão eclesial” (DAp 170). E, para completar esta exigência eclesial, o Documento 100 da CNBB não quer outra coisa se não propor a renovação paroquial, para que ela guarde a fidelidade à sua missão: ser célula viva da Igreja. As comunidades, as pastorais, os organismos e os movimentos são sujeitos eclesiais dentro do conjunto da Igreja e como tais devem entrar na Pastoral Orgânica, inserido na Arquidiocese de Palmas e com a presença em uma de suas paróquias. 

 

Portanto, a imagem de corpo, utilizada por Paulo, é a interpretação bíblica da diversidade que hoje vivemos e propõe a unidade que guarda o nosso testemunho como Comunidade de Fé. A Pastoral Orgânica é um elemento eclesial que sustenta a comunhão e testemunha a unidade da Igreja em todas as suas expressões, guardando sempre e fazendo-se membro do corpo místico de Cristo, que é a Igreja.

O Projeto Arquidiocesano de Evangelização para o ano de 2017 deve ser o caminho da Pastoral Orgânica, isto é, "uma resposta consciente e eficaz para atender às exigências do mundo de hoje com “indicações programáticas concretas, objetivos e métodos de trabalho, formação e valorização dos agentes e a procura dos meios necessários que permitam que o anúncio de Cristo chegue às pessoas, modele as comunidades e incida profundamente na sociedade e na cultura mediante o testemunho dos valores evangélicos. Os leigos devem participar do discernimento, da tomada de decisões, do planejamento e da execução. Esse projeto diocesano exige acompanhamento constante por parte do bispo, dos sacerdotes e dos agentes pastorais, com atitude flexível que lhes permita manter-se atentos às exigências da realidade sempre mutável.(DAp 371)

O estabelecimento de metas comuns na evangelização, aplicadas com criatividade, o senso de comunhão e de pertença à Arquidiocese concretizará o ideal de “unidade na diversidade”. Como fieis cristãos, sejamos sujeitos da evangelização em nossa Arquidiocese! Portanto, como agentes de pastoral, enquanto discípulos, nos esforcemos para desenvolver este Projeto como caminho aberto, orgânico e missionário da Pastoral de Conjunto de nossa Arquidiocese. Assim, poderemos melhor viver uma espiritualidade de comunhão e de participação que nos permita reconhecer em cada ação e prática evangelizadora de nossa Arquidiocese, fazendo-nos sempre mais testemunhas de unidade, sinal do Reino de Deus!

 

Padre Fábio Gleiser Vieira Silva

Coordenador Arquidiocesano de Pastoral

A disposição para aquisição a partir de 3 de janeiro de 2017 na secretária de pastoral com sra. Miriam.

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