Amado, amada de Deus, tenho sede do grito da viúva!

 

O santo Evangelho, ouvido em todas as celebrações, nas nossas Igrejas, neste final de semana que passou me motivou a compartilhar com você, amado, amada de Deus, o grito intermitente de uma pobre viúva contra um juiz impostor, indolente e insensível que não teme nem a Deus e nem ao ser humano. Que contraste nos conta Jesus nesta parábola! De um lado, um juiz que “não teme a Deus” e “não respeita as pessoas”: um homem surdo à voz de Deus e indiferente aos sofrimentos dos oprimidos. De outro lado, uma viúva que tem fé que protesta, pedindo justiça, apesar da insensibilidade do juiz. Uma parábola mais realista como esta é difícil de encontrar.

A vida imita a parábola ou a parábola imita a vida. Todo o dia assistiu, quase que passivamente, cenas como estas acontecer nos tribunais, nos hospitais, nas cadeias, nos bancos, nos campos e nas cidades.  A diferença é que nestes e em tantos lugares faltam ser ouvidos os gritos dos injustiçados e excluídos. Porque se todas as viúvas do mundo resolvessem gritar ao mesmo tempo contra as injustiças cometidas por este imenso país chamado Brasil, ele se transformaria em um clamor ensurdecedor.

Quantos gritam nas vilas dos hospitais para marcar consultas, cirurgias e receber remédios para a sua sobrevivência aqui na terra? Quantos gritam pelos campos, pelas praças e ruas deste país, reivindicando os seus direitos negados? Quantos gritam nas cadeias e nos presídios para que seus processos andem, sejam julgados e paguem as suas penas dignamente, de acordo com o crime praticado?

Haveria um caos social, se ao mesmo tempo, todas as viúvas do mundo gritassem, se todos os pobres gritassem, se todos os que se sentem enganados por esta sociedade elevassem a voz. O sistema social tremeria diante do grito da vida. O resultado final não estaria no triunfo dos mais fortes e poderosos, nem no poder do dinheiro, mas no grito incessante, de não-violência ativa. O grito dos que clamam diante de Deus e diante dos homens tem uma força infinita; trata-se da onipotência daqueles que gritam.

As mesas de muitos juízes estão abarrotadas e empilhadas de processos envelhecidos que nunca foram julgados, que podiam beneficiar muitas viúvas. Na tradição judaica a viúva, o órfão e o estrangeiro são os símbolos das pessoas mais desprotegidas e indefesas. A viúva grita e se rebela, não se resigna e nem se curva diante da insensibilidade do juiz iníquo. A voz profética desta pobre viúva se fez ouvir. Não está faltando uma voz profética das viúvas deste mundo contra os juízes insensíveis? Muitos estão alienados e anestesiados frentes aos seus direitos mais básicos. Esta é a fé na força do protesto. Esta é a fé que se eleva e se opõe ao sistema injusto. Que fé é a nossa se não ouvimos os gritos dos injustiçados? Para que serve uma fé que não questiona o status quo? Esta é a fé fundamental, a fé da viúva que grita e pede justiça. A fé cristã não se reduz a uma aceitação doutrinal, prática de obrigações religiosas e obediência e uma disciplina. A fé é uma vida que se desperta, cresce, se expande e vai se renovando a cada dia e tem implicações na construção de um mundo mais justo.

Um bom dia e fique com Deus!