Arquidiocese de Palmas

Diário da Visita Ad Limina dos Bispos do Regional Centro-Oeste

13.11.2010 – Sábado – Primeiro Dia

Os bispos do regional Centro Oeste da CNBB, depois de uma cuidadosa preparação, deram início oficialmente à realização da Visita Ad Limina Apostolorum. Eles formam o último grupo do Brasil a realizar esse procedimento qüinqüenal que remonta a tempos antigos. Segundo os registros históricos mais divulgados hoje em dia, é uma prática iniciada de forma mais consistente e regular no século IV e regulamentada no século XVI. De todo modo, trata-se de um costume consolidado e tradicional. A última Visita do episcopado brasileiro se deu em 2003 e não cumpriu a regularidade de 5 anos porque ocorreu a morte do Papa João Paulo II e a eleição de Bento XVI em 2005. Hoje, os bispos tiveram dois compromissos significativos: a Província Eclesiástica de Goiânia foi recebida para audiência particular com o Papa e uma celebração eucarística organizada pelas embaixadas brasileiras junto a Santa Sé e ao estado italiano para comemorar o aniversário da proclamação da República.

Os bispos foram recebidos numa das Loggia do Palazzo Apostólico. Acompanhados por padres e leigos, estavam presentes: Dom Washington Cruz e Dom Waldemar Dalbello, Arcebispo e bispo auxiliar de Goiânia respectivamente; Dom João Wilk, bispo de Anápolis; o bispo de Jatai e o emérito: Dom Luiz Majela e Dom Aloisio; Dom Carmelo Scampa de São Luis de Montes Belos; Dom Eugênio Rixen, de Goiás; Dom Adair José Guimarães da diocese de Rubiataba-Mozarlândia; Dom Guilherme Werlang de Ipameri e Dom Osvino Both, Ordinário Militar. Eles tiveram uma conversa reservada com o Papa por cerca de 40 minutos. Na saída, a Praça de São Pedro estava lotada de turistas e os bispos foram alegremente saudados por muitos deles enquanto se dirigiam à Domus Romana Sacerdotalis, na Via Traspontina onde estão hospedados.

No fim da tarde e já começo de noite para os romanos, a Piazza Navona estava repleta de chineses e italianos simpatizantes do Comitê por uma investigação sobre a perseguição do Falun Gong que luta para que o governo da China abra os campos de concentração para uma investigação independente e rigorosa. Há denúncias de genocídio, tortura e crimes contra a humanidade. Dentro de uma Igreja Santa Inês lotada, ao lado do Palácio Panphili que hospeda a embaixada brasileira em Roma, os bispos iniciavam uma belíssima celebração da Eucaristia. Presidida por Dom João Braz de Aviz, animada pelos padres do Colégio Pio Brasileiro e jovens do movimento Shalom, a missa foi realizada em clima de profundo recolhimento. Na Homilia, Dom João deu uma profunda lição sobre as circunstâncias históricas e políticas que produziu a proclamação da República. Não economizou termos, afirmou que foi um golpe de estado contra uma monarquia que agonizava. Chamou a atenção da responsabilidade de todos, hoje, diante da busca em aperfeiçoar nossa democracia deixando bem claro que essa não é uma tarefa nem de uma só classe, nem de um só partido e muito menos de uma só pessoa. No final da missa, Dom Washington Cruz convidou a todos os presentes para participarem da Eucaristia que será realizada durante a semana nas Basílicas Patriarcais sublinhando dia e horário dessas celebrações.

Os dois embaixadores: Jose Viegas, junto ao estado italiano e Luiz Felipe de Seixas Correa que responde pelo cargo junto ao Vaticano tiveram a palavra no final da missa e foram gentis com os bispos fraternos no modo de falar do Brasil e da história da república. No final, depois de um solene “viva o Brasil”, todos os participantes da celebração foram convidados para uma confraternização que se deu numa das belas galerias da embaixada que, segundo uma versão histórica, teria sido casa do Papa Inocêncio X que teve viveu seu pontificado de 15 de setembro de 1644 até 14 de janeiro de 1655 quando tinha 81 anos de idade. Umas 100 pessoas participaram do evento e foram uma a uma recepcionadas pelos dois embaixadores anfitriões. A recepção foi regada a vinho e refrigerante. Os bispos puderam conversar, durante o encontro, com muitos leigos brasileiros que vivem em Roma e tem alguma ligação com as embaixadas.

14.11.2010 – Domingo – Segundo Dia

O domingo em Roma amanheceu com tempo firme e um belo “frescheto” como costumam dizer por aqui. Na verdade, já faz frio na capital da Itália. Os bispos foram todos para a Rádio Vaticano logo no começo da manhã. A chamada emissora do Papa é comandada pelos jesuítas e não é, como se divulga, um órgão oficial do Vaticano. A própria rádio é responsável pelo que divulga. Até mesmo o jornal “L’Osservatore Romano” não tem essa aura de oficial. O órgão estritamente oficial do Vaticano chama-se Acta Apostolica Sedis. A rádio foi inaugurada por Pio XI em 1931 e o início da sua história coincide com o início da história do rádio no mundo uma vez que quem a montou foi Gugilemo Marconi, considerado o inventor do rádio. Hoje, a rádio vaticano transmite em mais de 30 idiomas para o mundo inteiro e o programa brasileiro completou, em 2008, cinqüenta anos de existência. Os membros da equipe desse programa chefiada pelo Pe. César Augusto acolheu os bispos na capela que está situada no segundo piso do Palazzo Pio, no final da Via della Conciliazione.

O presidente da celebração foi Dom Washington Cruz. Estavam presentes os familiares de Dom Raymundo Damasceno, Arcebispo de Aparecida e novo cardeal brasileiro. Mineiro de Capela Nova e atual presidente do Conselho Episcopal Latino Americano e do Caribe, Dom Damasceno recebeu a notícia de sua nomeação em setembro e receberá o barrete e o anel no Consistório que se realizará no próximo final de semana, dia 20 e 21 de novembro. Durante a homilia, o Arcebispo de Goiânia fez a seguinte advertência: “não podemos sonhar com ir para o Céu ‘de carona’, à custa dos outros, só porque pertencemos a uma paróquia ou grupo muito bom; ou porque temos pessoas importantes na Igreja com as quais estamos bem relacionados; ou ainda porque estamos inscritos em um número razoável número de irmandades”. O Arcebispo continuou: “A salvação – a santidade pessoal – tem de ser fruto do trabalho de cada um, de mãos dadas com o Senhor. Jesus aproveita um momento em que os Apóstolos louvam, entusiasmados, a beleza do templo e as outras construções da Cidade Santa. O que Jesus lhes diz não pode ser entendido apenas como um castigo para o povo infiel, mas como o destino para tudo o que fazemos neste mundo”.

Logo depois da missa, os bispos se dirigiram a Praça de São Pedro para acompanhar o Angelus. Como sempre, ao meio dia, da janela do Palazzo Aspostólico, o Papa Bento XVI antes de fazer a oração mariana da anunciação do Anjo, falou de conjuntura global. A edição eletrônica de hoje a tarde do jornal “La Repubblica”, resumiu o pronunciamento de modo espalhafatoso anunciando que o Papa não quer aliança entre países ricos. Apesar de Bento XVI ter chamado atenção sobre o perigo desse tipo de aliança, a ênfase foi dada aos perigos do consumo insustentável e a necessidade de um enfrentamento mais sério da crise econômica global, especialmente nesse momento que sucede a reunião do G20 na qual participaram as economias mais importantes do planeta. O Papa também sugeriu uma nova valorização da agricultura: “revalorizar a agricultura não em sentido nostálgico, mas como recurso indispensável para o futuro”. E contra a crise econômica é “fundamental cultivar e defender uma clara consciência ética à altura dos desafios mais complexos do tempo presente”.

Na parte da tarde, na Casa do Clero como é popularmente conhecida a Domus Sacerdotalis aqui em Roma, os bispos tiveram um tempo de adoração ao Santíssimo Sacramento. Exceto dois bispos do regional que não viajaram no dia de hoje, todos os outros participaram do momento de oração profunda. As celebrações de toda a Visita estão recebendo os cuidados litúrgicos de dois membros do clero de Goiânia: Pe. Luiz Henrique Brandão e o redentorista, Pe. Braulio Roger. O primeiro mora aqui em Roma e faz estudos de pós-graduação na Universidade Gregoriana e o segundo veio especialmente para desempenhar o papel de cerimoniário dos bispos.

15.11.2010 – Segunda-feira – Terceiro Dia

Tempo encoberto. Ainda assim, por volta das 7 da manhã, as ruas nas imediações do Vaticano estavam lotadas de turistas. Os bispos subiram para a Basílica Patriarcal de São Pedro quase uma hora antes do compromisso. Em procissão, saindo sacristia principal, eles desceram as escadas ao lado do Baldaquino e foram para uma capela que está situada diante do túmulo do apóstolo Pedro. Com a participação de alguns sacerdotes brasileiros, da Ir. Miriam Salete Cunha Thomassim, Secretária Executiva do Regional Centro Oeste da CNBB e de um casal de leigos, os bispos realizaram uma belíssima celebração na qual colocaram a intenção particular de todas as comunidades que compõem as dioceses que formam o regional. Belos cantos, momento de silêncio comovente e a celebração do maior mistério da fé. Logo após o encerramento da missa, os bispos cantaram a ladainha em latim, fizeram uma procissão diante do túmulo e voltaram para a sacristia que fica do lado esquerdo de quem se encontra de frente para o altar papal da Basílica.

Esta celebração teve um significado especial para todos os bispos. Dom Majella, Dom Carmelo, Dom Eugênio e Dom Guilherme gravaram depoimentos bonitos para o documentário sobre a visita Ad Limina. Cada um deles fez questão de dizer que ao se chegar a um lugar de referência tão cara para a Igreja não se pode deixar de lembrar da missão dada por Jesus a Pedro. E de renovar o compromisso com o cumprimento dessa missão que é a de apascentar as ovelhas no rebanho do Senhor. Lembraram também da pergunta feita por Jesus ao apóstolo, antes de lhe confiar esta tarefa tão especial: “Pedro, tu me amas?”. O amor, disseram os bispos, é a base e o sustento para se realizar a missão como sucessores de Pedro e dos apóstolos. Na saída da Basílica, vários brasileiros visitantes quiseram tirar uma fotografia com o grupo.

As 9 horas, os bispos foram recebidos na Comissão para a América Latina que está no final da Via della Conciliazone, já bem perto do Castelo Sant’Angelo, na margem do Rio Tibre. Criada durante o Concílio Vaticano II pelo Papa Paulo VI, a Comissão tem um papel importante no acompanhamento da Igreja em toda a América hispânica e portuguesa. O anfitrião dos bispos foi o Arcebispo colombiano Dom Octavio Ruiz Arenas, vice-presidente da CAL. Gentilmente, ele pediu que os bispos se apresentassem e, em seguida, ofereceu dois opúsculos produzidos pela Comissão. Em seguida, Dom Ruiz ouviu o que cada bispo do Centro Oeste tinha a apresentar a Comissão e deu orientações particulares, principalmente em relação aos procedimento de pedido de ajuda financeira para a Comissão. Ele revelou que a crise econômica mundial está refletindo no volume das ofertas e houve uma queda de 28% dos donativos que a CAL recebia todos os anos. Desse modo, insistiu para que se criem caminhos de auto-sustentação das Igrejas. Dom João Braz de Aviz tomou a palavra algumas vezes e explanou a respeito de esforços feitos pela Conferência dos Bispos do Brasil e por dioceses em particular para ajudar igrejas mais necessitadas no país. Dom Ruiz elogiou as iniciativas do Brasil. No final, os bispos foram convidados para um pequeno lanche nas instalações da Comissão.

As 11 horas, o Papa recebeu todos os bispos do regional numa audiência privativa. No encontro, Bento XVI recomendou: “De modo especial, alguns temas recomendam hoje uma ação conjunta dos Bispos: a promoção e a tutela da fé e da moral, a tradução dos livros litúrgicos, a promoção e formação das vocações de especial consagração, elaboração de subsídios para a catequese, o compromisso ecumênico, as relações com as autoridades civis, a defesa da vida humana, desde a concepção até a morte natural, a santidade da família e do matrimônio entre homem e mulher, o direito dos pais a educar seus filhos, a liberdade religiosa, os outros direitos humanos, a paz e a justiça social”.

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