Arquidiocese de Palmas

Dom Pedro apresenta sua primeira contribuição sobre tema do Instrumento de Trabalho, no Sínodo da Amazônia

O Arcebispo Metropolitano de Palmas, Dom Pedro Brito Guimarães, está participando do Sínodo da Amazônia, no Vaticano. Em sessão plenária realizada nesta terça feira, 08, Dom Pedro usou o tempo disponibilizado para explanar acerca dos pecados contra o meio ambiente. Cada participante tem oportunidade de fala sobre um tema do Instrumento de Trabalho. Confira na íntegra o discurso do Bispo.

REDEFINIÇÃO DO CONCEITO E DA CONSCIÊNCIA DE PECADOS ECOLÓGICOS

Santo padre, caros irmãos e irmãs, tenho sede!

“Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e sobriedade” (2Tm 1, 7).

O Instrumento de Trabalho do Sínodo para a Pan-Amazônia fala, diversas vezes, de “conversão ecológica” (IL 99-104). Uma nomenclatura nova e, por isto, ainda pouco conhecida, mas muito empenhativa.

Hoje em dia a opinião pública é bem informada sobre os problemas ecológicos,  mas tal sensibilidade não atingiu ainda a consciência cristã e esta ainda não acordou para uma moral ecológica que faça perceber a gravidade do pecado contra a criação de Deus.

Não obstante se considere que os pecados contra o meio ambiente sejam implicitamente transgressões contra os princípios da interdependência e da solidariedade entre as criaturas (Catecismo da Igreja Católica nn. 340 e 344) e contra a virtude da Justiça; e que a raiz destes pecados, como refletiu o vosso predecessor Bento XVI, seja a marginalização e negação de Deus, tendo na avidez humana o ponto de partida de toda ação (cf. Audiência Geral de 26/08/2009), ainda é escarça, ou mesmo inexistente, na literatura teológica, nos manuais de teologia e nos rituais de liturgia do sacramento da penitência, nos penitentes e nos confessores, uma relação explícita para um exame de consciência destes tipos de pecados.

Tal desordem causa uma ruptura entre o homem e a natureza, fruto da ganância desenfreada e da busca individual da felicidade.  É preciso fazer ver a dimensão social da ecologia. Na natureza tudo está integrado e em perfeita harmonia. O pecado ecológico é uma ação contra Deus e contra o próximo,  um pecado contra as futuras gerações,  uma vez que estas receberão um mundo danificado pela maldade do coração humano.

Se existe a necessidade da conversão ecológica, é necessário haver também a consciência de pecados ecológicos. Faltam na literatura teológica. Entre muitos, destaco os seguintes pecados ecológicos: jogar lixos em locais inadequados; poluir as fontes de águas e os rios; derrubar árvores e desmatar florestas; queimar terras; colocar venenos no ar e pesticidas e agrotóxicos cancerígenos nos alimentos que consumimos; matar a fauna e a flora; destruir os berços e os ninhos da vida da nossa casa comum. Entre muitos outros.

Desde os seres que julgamos mais úteis e até os que duvidamos do por quê existem têm a sua importância no equilíbrio ecológico. Todos tem o seu sentido de existir. Nada está sobrando na natureza.

Cada ser e cada criatura de Deus que matamos é um pecado contra o Criador. Além de ser um problema teológico, pois, ofenda a Deus, é um problema cristológico, pois, Jesus, ao se incarnar, redimiu a criação, fazendo novas todas as coisas. Tudo está intimamente interligado.

Eu nunca confessei estes pecados e nem nunca confessei ninguém sobre estes pecados.

Estamos praticando para com o meio ambiente um verdadeiro ecocídio: a terra está morrendo. Nós estamos destruindo a nossa casa comum. Não matar é um mandamento da lei de Deus. Matar é pecado.

Desta forma, a minha humilde sugestão é que a catequese e os rituais do sacramento da penitência sejam revistos, de maneira a se definir expressamente o que sejam os pecados ecológicos, bem como acrescentá-los no exame de consciência. Uma consciência reta e bem formada neste campo é capaz de gerar ações positivas para o cuidado de nossa casa comum. Ao contrário, a ignorância sobre o mal que podemos fazer ao meio ambiente é também uma ferramenta que acelera a sua destruição.

Creio firmemente que este Sínodo seja um meio oportuno, fruto da Divina Providência, para se proclamar a misericórdia de Deus e promover a reconciliação entre o homem e a natureza mediadora de sua existência.

Hoje, mais do que nunca, a Igreja deve falar, com incisiva precisão, do pecado  ecológico. Para tanto, deve assumir um discurso profético que denuncie a chamada “civilização industrial” que em nome do progresso submete a dignidade humana ao útil econômico, invertendo a hierarquia  dos valores e as leis que regem a convivência humana.

O Papa Francisco, na Laudato Sì, nos fez ver  a interdependência  que existe entre o ser humano e o criado nos seus vários aspectos quando nos falou de uma ecologia integral.

O pecado ecológico é, portanto,  quebra da comunhão  que existe entre Deus, o ser humano e o mundo criado como um todo.

É dentro deste quadro dramático e desalentador que faço minhas humildes sugestões. Para tanto indico algumas atividades-meio:

  1. Que a Igreja  amplie a sua compreensão de pecado,  incluindo esta dimensão ecológica integral.
  2. Sejam  revistos os manuais e os rituais do sacramento da penitência para com estes tipos de pecados. E dar aos pecadores a oportunidade de se reconciliarem com Deus e com suas criaturas. Em outras palavras, é preciso refazer a lista de pecados e acrescentar os pecados ecológicos.
  3. Elaboração de uma “teologia ecológica” consistente capaz de fazer aflorar na consciência dos cristãos o pecado ecológico como sendo quebra das relações com Deus, com o próximo e com a natureza.
  4. Os planos de pastoral das Igrejas Particulares devem incluir ações capazes de provocar sensibilização ecológica; uma catequese que ajude as crianças a crescer na admiração,  respeito e amor pelo criado como nossa casa comum;
  5. A ação evangelizadora das Igrejas Particulares devem organizar conferência, simpósios e seminários para despertar a consciência ecológica da comunidade cristã;
  6. Elaboração de uma teologia moral e de catecismos capazes  de evidenciar os pecados ecológicos leves e graves, bem como suas implicações nas relações  humanas e com todo e criado, no qual Deus se manifesta;
  7. Elaborar roteiros de celebrações penitências ecológicas nas quais de destaque o amor e o respeito pela criação; bem como um roteiro de exame de consciência mostrando os pecados ecológicos que atentam contra Deus e contra o próximo.

Obrigado!

Dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo metropolitano de Palmas –  Tocantins

Roma, 08 de outubro de 2019

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