Arquidiocese de Palmas

Eleições! Mas o que é Eleger?

Conhecer o sentido das palavras é fundamental para quem pretende falar com coerência e para quem deseja compreender bem o que é dito pelos outros. Na maioria das vezes ignoramos o que dizemos e ouvimos. Não conhecemos o sentido das palavras, por isso, falamos mal e entendemos mal.

O que significa eleição? Esse termo tão explorado pelo linguajar quotidiano e pela política pública, aparentemente tão óbvio que se pode dispensar o dicionário, esconde, na verdade, um sentido muito profundo, ignorado pela maioria daqueles que o pronunciam.

O substantivo ‘eleição’, ou seu correspondente verbal ‘eleger’, provêm do latim eligere, que por sua vez encontra sua raiz etimológica em legere/ler. Legere, em sua acepção mais arcaica, era um termo utilizado na agricultura, por ocasião da colheita dos frutos, e significava ‘colher’, ‘escolher’, ‘recolher’. Nesse sentido, as pessoas colhiam os frutos melhores, escolhidos entre tantos outros. Logo, colher implicava saber escolher.

Outra palavra também proveniente da raiz legere é intellegere, daí inteligência, palavra composta pela preposição inter/entre e o verbo legere/ler. Inteligente seria, então, aquele que é capaz de colher/ler o que está por dentro, ultrapassando o senso comum e superficial das coisas. Somente quem é capaz de ‘juntar as ideias’, predispondo-as de modo coerente, e apreender a realidade íntima das coisas pode-se dizer inteligente. Por isso, a pessoa inteligente é capaz de fazer a escolha correta entre as tantas opções que lhe são apresentadas, sabe ‘eleger’ com segurança, pois seu olhar atinge a realidade em seu núcleo mais profundo.

Legere, eligere, intellegere – ler, eleger, ler-por-dentro. Três conceitos irmanados etimologicamente que podem muito bem nos auxiliar na reflexão sobre como realizar uma boa eleição. Nos próximos dias seremos abordados por milhares de candidatos, dos mais variados partidos, que disputam uma vaga nos poderes executivo e legislativo de nossos municípios. Esses políticos, alguns saltados do anonimato, outros conhecidos de longa data, querem expor suas propostas, que acabam tomando ar de promessas, disputando acirradamente o voto dos eleitores. Herdeiros de uma retórica arcaica de palanque, sempre se apresentam como honestos, trabalhadores, provenientes de famílias humildes e batalhadoras, e, acima de tudo, melhores e mais preparados que qualquer outro que pretenda ocupar o cargo pleiteado.   

Diante desse panorama, como decidir? Como escolher? Como eleger? Quem é, de fato, honesto, trabalhador e preparado? Num jogo onde todas as cartas parecem a da vez, como decidir pela ‘melhor’? Nessa hora é preciso inteligência, ou seja, ‘ler-por-dentro’. Somente quem for capaz de análises profundas poderá decidir pela pessoa idônea, realmente capaz de representar os interesses da população, que não é obviamente um todo homogêneo. A propósito, vemos hoje uma situação política muito particular, onde os interesses de certos grupos tendem a suprimir qualquer debate que pretenda provocar uma reflexão mais aprofundada sobre alguns temas, o que iluminaria muitos políticos na hora de decidir por outros interesses, também legítimos, que não sejam estritamente aqueles dos grupos que representam.    

Eleger não é simplesmente escolher, mas, sobretudo, escolher bem, escolher com critérios, escolher com inteligência, pois dessa escolha dependerá não apenas o próprio futuro, que pode estar garantido através de um cargo público caso o seu candidato venha a ser eleito, mas o futuro, o bem-estar, de toda uma população, em que indivíduos nem sempre pensam e agem de igual maneira, o que não deveria gerar conflitos incontornáveis, mas promover debates sérios e decisões justas e éticas que convergissem, de fato, ao bem-estar de todos.

A sabedoria dos antigos nos ensina que o olho é o ‘espelho da alma’, por nos permitir adentrar no que o indivíduo tem de mais profundo. Ser inteligente, como vimos acima, significar olhar fundo, ir além das aparências. Por isso, nesses dias que antecedem as eleições municipais, sejamos inteligentes, deixemos que os olhos daqueles que nos imploram por votos falem o que as meras palavras, às vezes, camuflam. Deixemos o olhar falar quando as palavras já não são mais dignas de crédito. E não esqueçamos: somos inteligentes, podemos ‘ler-por-dentro’, por isso podemos, sim, eleger bem.  

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X