Arquidiocese de Palmas

Artigos › 29/04/2020

Espiritualidade em tempos difíceis

No presente texto teceremos uma reflexão sobre uma das questões mais relevantes para atualidade, que é a espiritualidade; pois esta, se tornou uma das palavras mais usadas nesses últimos tempos, porque ela contribui muitíssimo para o equilíbrio de nossa vida.

A palavra espiritualidade nos remete à palavra ‘espírito’, do hebraico ‘Ruah’, significa sopro vital. Ela é uma propensão do ser humano a buscar um significado para a vida através de conceitos que ultrapassam o que é material: em sentido de conexão com o bem supremo que é Deus. É a abertura do espírito humano ao transcendente, para a plenitude do ser e do bem, e está presente em cada ser humano como condição de sua própria possibilidade. O homem é religioso por natureza ‘Homo religiosus’ pode-se traduzir a espiritualidade como sua mais profunda essência e aspiração.

Com essa abertura fundamental, sua espiritualidade, o homem é capaz de comunicar-se com Deus, busca-lo, amá-lo e encontrá-lo e com Ele travar um diálogo “face a face” (Ex 33,11). E segundo o catecismo da Igreja Católica: “o aspecto mais sublime da dignidade humana está nesta vocação do homem à comunhão com Deus”, n.27. O monge alemão Tomás de Kempis (sec.XV) escreveu em seu mais celebre livro de espiritualidade, ‘Imitação de Cristo’: “Sublime é a arte de conversar com Deus”. A espiritualidade nos proporciona o conhecimento de Deus por experiência.

A espiritualidade profunda, nos transforma e potencializa, nos ajuda a vencer, e é de grande valia para nós; em tempos difíceis, não podemos cair na ansiedade, nervosismo, agressividades… muito menos no alcoolismo, depressão ou pânico. Renovemos nossa experiência com Deus; muita fé e confiança nesta hora. Como o Apóstolo Paulo nos diz: “Tudo posso Naquele que me fortalece” (Fl 4,13). Que a nossa espiritualidade não seja superficial e somente exterior, ou meramente quantitativa, mas que seja integradora; relacionada com as qualidades do espirito humano – tais como amor e compaixão, paciência e tolerância; perdão e noção de responsabilidade harmoniosa com o próximo e com a natureza.

Em que consiste a espiritualidade? Consiste no encontro com Deus e seu amor. Como narra Santa Teresa d’Ávila: “Ocorria-me de repente tal sentimento da presença de Deus, que de modo algum podia duvidar que o Senhor estivesse dentro de mim e eu toda mergulhada Nele”. Tal experiência tem efeito transformador, muda o modo de ser, agir, pensar, relacionar-se com Deus, as pessoas e o mundo. Vai além da dimensão intelectual, toca a totalidade da existência e é sentida como graça, ou seja, não provocada pelo próprio sujeito, mas concedida pelo próprio Deus. Com a espiritualidade nos sentimos amados, abraçados e acolhidos por seu amor.

Os sacramentos são fonte de espiritualidade. A espiritualidade que a Igreja Católica nos propõe é baseada na habitação de Deus dentro de nós: pelo Sacramento do Batismo, o Espírito Santo entra em nossas vidas, passa a habitar em nossa alma, fazendo dela a sua morada. Essa vida divina em nós é incrementada e potencializada pelos Sacramentos da Confissão e da Eucaristia que o próprio Senhor nos deixou como sustento da nossa vida espiritual. Esta provoca em nós a mudança do coração, de valores, hábitos e atitudes “conversio cordis” e a “conversio morum”. Segundo o Catecismo: “O progresso espiritual tende à união sempre mais íntima com Cristo” n.2014. A espiritualidade é a oração do coração. Os frutos dessa é uma vida virtuosa, conduzida pelas virtudes fundamentais: a fé, a esperança e a caridade.

A espiritualidade cristã também nos dar força para superação dos problemas: As constantes pressões sociais, os pesados compromissos profissionais e financeiros, bem como os problemas de ordem pessoal, andam cobrando um preço muito caro à saúde das pessoas. Não é surpresa, infelizmente, que nossos tempos registrem números tão preocupantes sobre o estado emocional e mental das pessoas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a depressão é uma das doenças mais incapacitante do planeta. Muitas vezes a crise nos afeta demais e por consequência, no dia a dia ficamos mais irritados, agressivos, pessimistas. A espiritualidade é a força interior, cultivada na oração e na contemplação, que nos mantém animados e movem os nossos passos num caminho de esperança.

Como crescer na espiritualidade? Sugerimos quatro passos importantes. ‘Conhecer a si mesmo’: seus costumes, atitudes, desejos e sonhos para direciona-los ao Senhor. ‘Conhecer outras pessoas’: se relacionar com outras pessoas que possam nos ensinar algo sobre a vida espiritual, que possam nos inspirar, rezar conosco e por nós. ‘Reconhecer o seu lugar’: o seu espaço de oração, prepare o seu espaço se não o tem; um oratório, sua paroquia, sua Igreja local; ‘e também outros lugares’: dinamizar sua espiritualidade conhecendo outros lugares de oração, santuários, peregrinações, retiros, etc.

A vida de oração profunda é fonte da verdadeira espiritualidade: São tantas formas lindas de oração: a adoração ao Santíssimo Sacramento, o Santo terço, a via sacra, a meditação da palavra de Deus, orações espontâneas e leituras e músicas espirituais… Rezemos por nós, por todos que estão sofrendo, aos que governam e aos que se recomendaram à nossas orações. A vida de oração profunda, nos transforma e potencializa, nos ajuda a vencer, e é de grande valia para nós. Me recordo de Madre Teresa de Calcutá – Essa mulher de espírito tão belo, que foi considerada a primeira dama da caridade, quando em dezembro de 1979 recebeu o prêmio Nobel da Paz, na cidade de Oslo, na Noruega, após ter recebido alto elogio do presidente da ONU, ela disse: “Eu sou somente uma pobre mulher que reza e rezando o Senhor Jesus me enche o coração de amor pelos pobres, assim, posso ama-los com o amor de Deus”.

Concluo este artigo com uma linda historia. Certo dia um discípulo preocupado com sua espiritualidade e sua experiência com Deus se aproximou do mestre e lhe perguntou: – Mestre qual o maior impacto da fé em nossa vida? – O mestre, com seu olhar calmo e manso, respondeu com um sorriso nos lábios. – Meu caro, na realidade, são dois impactos maiores: o primeiro é que o ser humano se torna mais de Deus, dado à oração, a  uma espiritualidade consistente, à fé. O segundo é que ele se torna mais dos outros, mais próximo, mais humilde, solidário, acolhedor e amigo; um ser humano melhor; pois confiar em Deus e aderir à sua verdade não vai contra a liberdade, o bem e nem à sua inteligência.

Deus abençoe! Paz e bem.

Padre Geraldinho (Pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida – Aparecida do Rio Negro)

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