Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Finado Feriado

Você já programou o que fazer nos feriados de 29 de outubro a 2 de novembro? Pois é! Talvez seja esta a única pergunta de muitos, ou seja, o que fazer no feriadão prolongado que está chegando? Eu porém quero lançar uma outra pergunta e proposta: como dar sentido a esse feriado? Inúmeros são aqueles que desesperada e intensamente querem viver estes dias, mas fascinados pelas seduções do mundo, não enxergam, não se dão conta de que estes dias nos falam de vida.

Comemoramos dia 2 de novembro a Festa dos fiéis defuntos, finados. Ela se concretizou oficialmente, entre 1914 e 1922, quando esteve à frente da Igreja o último Papa Bento, Bento XV. Tempos duros, época da primeira grande guerra mundial (1914-1918), a mais devastadora de todas, com aproximadamente 10 milhões de mortos. Situação de muita dor e necessariamente, da busca de muita esperança.

A morte permanece para o homem um mistério. Cercado de respeito até mesmo por aqueles que não crêem. Seja qual for o tempo ou circunstâncias, a morte sempre causou espanto e interrogações profundas. Mas para o cristão convicto, a morte não é a resposta final. As indagações por ela provocadas tem respostas ainda mais profundas quando nos voltamos àquele que nos proclamou: “Quem crê no Filho terá a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,37-40).

É preciso ter no coração a certeza da vida, mas antes é preciso dar credito a morte. A morte é companheira certa e constante da história dos homens, inegável. Crer na morte significa entender o próprio homem, seu destino e desígnio. Imaginem vocês, se não morrêssemos. Imaginem-se, por um momento, continuamente envelhecendo. Talvez alguns se transformariam em verdadeiros maracujás (completamente enrugados) ou pelo volume, outros, em imensos dinossauros. E se, por uma causa, soubéssemos o dia e a hora de nossa morte. Poderíamos, por exemplo, ter isso inscrito na cédula de identidade, data de nascimento e data de falecimento. Que tal? Pense você abrindo um crediário, ou programando uma viagem; desmarcando um compromisso, pois naquela data você tem o enterro de um amigo e está convidado. Será um desconforto muito grande faltar.

Neste jogo de possibilidades o que seria ainda mais trágico irmãos, é cogitar sermos eternos como somos. A morte por sua vez então, põe fim a muitas coisas. Acaba com o sofrimento, com a dor, com os erros, cessa com o pecado. Diante dela, pensamos sempre nas coisa boas que ainda poderia fazer um falecido e que ficaram, depois de sua partida, apenas no mundo das hipóteses. Mas imaginemos também, o que não seria eternizar a sua maldade. Morrem portanto os bons e morrem igualmente os ímpios. A morte, irmãos, põe fim à história do homem da carne e inaugura para ele uma nova dimensão de vida. Uma vida agora completamente nova, livre do peso do corpo, das amarras da carne, do julgo do pecado; e o faz livre, revestido daquela liberdade, incorruptibilidade, a qual ele foi adquirindo desprendendo-se desse mundo e vivenciando, antecipadamente o mundo futuro.

A vida para o cristão, para aquele que crê, nos ensina são Paulo, não acaba, mas é transformada. Como seria bom ter entre nós, para sempre, mentes brilhantes como, por exemplo, João Paulo II. Mas como não seria aterrorizador se tivéssemos, como exemplo também, entre nós, evoluindo, gênios do mal como Hitler.

Por isso a morte é libertadora, fronteira final para os que praticam o bem e o mal. Momento de nos apoiarmos uns nos outros, momento de solidariedade, hora da caridade e de, principalmente, se suplicar misericórdia. A inesperada chegada da morte, sem aviso e recado, nos faz livres para levar a vida frente à nossa consciência e à verdade revelada.

Celebrar, no dia dois de novembro, os fiéis defuntos, é celebrar por todos aqueles que partiram fazendo o bem, defenderam a vida, viveram os valores do evangelho, procuraram fazer a vontade de Deus e que vivendo na espera, na esperança de ver a Deus face à face, sumo Bem, partiram desta vida ainda inacabados. É a comunhão da família Igreja, dos irmãos que estão à caminho, com aqueles irmãos que se foram. Com aqueles que partiram desejosos de agradar a Deus, mas que no combate, nos limites, faltas e pecados, morreram imperfeitos e que se apresentam diante de Deus, Justo Juiz.

Somos convidados então, irmãos, a rezar pelos falecidos, visitar o cemitério e principalmente participarmos da santa missa. Na Eucaristia apresentamos ao Pai, aquele que venceu a morte e nos indicou o Caminho a seguir: Jesus Cristo, Senhor nosso. Sem ter pecado, Jesus deu sua vida pelos pecadores. Veio para salvar o que estava perdido. Derramou seu sangue, no único e verdadeiro sacrifício capaz de agradar a Deus. Este mérito infinito é que aplicamos aos nossos irmãos falecidos. E ao celebrarmos a Santa Missa, esperamos na misericórdia que há no coração de Deus que em seu Filho Jesus Cristo, não abandona na morte todos aqueles nele creram.

Concluindo, meus queridos irmãos e irmãs, procuremos não enterrar estes dias. Lembremos de nossa condição humana. Busquemos dar sentido às datas litúrgico-comemorativas, elas tanto melhor serão vivenciadas, quanto melhor procurarmos com profundidade o seu significado; e enfim nosso feriado terá mais sentido e será muito mais gratificante também, o nosso descanso.

Pe. Marcos Antonio Tavoni

Professor de Teologia Fundamental e Reitor

do Seminário Interdiocesano de Palmas

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