Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Homilia de Dom João Braz de Aviz

Senhor Embaixador do Brasil junto à Santa Sé, Luiz Felipe de Seixas Corrêa.

Senhor Embaixador do Brasil junto à Itália, José Viegas.

Senhores Arcebispos e Bispos presentes.

Autoridades, Sacerdotes, Senhores e Senhoras.

Reunimo-nos hoje na igreja de Santa Inês, na Praça Navona, em Roma, como homens e mulheres de fé, juntamente com alguns dos sucessores dos apóstolos e seus colaboradores, para celebrar o sacrifício da Santa Missa. Ele torna presente para nós o sacrifício único da cruz, realizado uma vez para sempre, em Jerusalém, pelo amor de nosso Deus, no alto do Calvário. Jesus Cristo o antecipou na última ceia, ao celebrar a Páscoa com seus discípulos.

Reunimo-nos também para comemorar uma página importante da vida do povo brasileiro, vivida em 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, na praça da Aclamação, hoje Praça da República.

Acabamos de acolher a Palavra de Deus, dirigida a todos nós seus filhos, para ser luz de nossa vida e, como dizia o Papa Paulo VI, nas palavras retomadas pelo Santo Padre Bento XVI em sua recentíssima Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, sobre A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja (30.09.2010). Falando a respeito do compromisso pela justiça e a transformação do mundo como constitutivo da evangelização, ele diz: trata-se de “chegar a atingir e como que a modificar pela força do evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio de salvação” (VD 100).

O profeta Malaquias nos assegura hoje que o sol da justiça nos trás salvação em suas asas, livrando-nos da soberba e da impiedade. Este sol da justiça é o Senhor (cf Ml 3,20).

No evangelho Jesus profetiza a destruição do templo de Jerusalém, acontecida alguns anos depois. Profetiza ainda as dificuldades e os sofrimentos que seus discípulos experimentarão no futuro para testemunhar o seu nome, exortando-os a permanecerem firmes até o fim.

O apóstolo Paulo, por sua vez, nos exorta em suas palavras aos cristãos de Tessalônica, a sermos trabalhadores para ganhar o pão que nos é necessário, para construir os valores do evangelho em que acreditamos e que recebemos daqueles que, em grande parte construíram os tempos anteriores a nós.

A Igreja nos apresenta esses textos da Palavra de Deus no contexto do ano litúrgico que está chegando ao seu final. Logo mais estaremos meditando sobre a segunda vinda de Cristo, que ainda está por acontecer e cuja data não nos foi dado conhecer. Este fato impele-nos a trabalhar bem no momento presente, pelos valores pessoais e sociais que contam verdadeiramente. À luz desta Palavra de Deus queremos revisitar os acontecimentos que hoje celebramos como nação brasileira.

A proclamação da República se deu por um grupo de militares do exército brasileiro, liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca. Tratou-se de um golpe de estado, sem o uso da violência, pelo qual foi deposto o Imperador do Brasil, Dom Pedro II e o presidente do Conselho de Ministros do Império, Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, do partido liberal.

O programa de reformas políticas proposto pelo Visconde de Ouro Preto, poucos meses antes, em nome do Império, foram: maior autonomia administrativa para as províncias, liberdade de voto, liberdade de ensino, redução das prerrogativas do conselho de Estado, mandatos não vitalícios no Senado. Eram medidas para preservar a monarquia. Elas foram vetadas pela maioria dos deputados de tendência conservadora. Essas medidas propostas e rejeitadas poucos meses antes, favoreceram a proclamação da república em 15 de novembro de 1889, pois representavam o desejo de muitos.

Havia, porém, outros fatores que levaram o império a perder o apoio de suas bases econômicas, militares e sociais.

Os grupos conservadores manifestaram sérios atritos com a Igreja Católica na “Questão Religiosa”. Ela encontrava-se submetida ao Estado, isto é, nenhuma ordem do Papa poderia vigorar no Brasil sem que fosse previamente aprovada pelo imperador. Em 1872, Dom Vital e Dom Macedo, bispos de Olinda e Belém do Pará, resolveram seguir por conta própria as ordens do Papa Pio IX, não ratificadas pelo imperador e pelos presidentes do Conselho de Ministros, punindo religiosos ligados à maçonaria. Diante da recusa dos bispos em obedecer, o imperador, Dom Pedro II os condenou a quatro anos de trabalho braçal (quebrar pedras). A condenação durou até 1875. O episódio desgastou a imagem do império junto à Igreja.

Os grupos progressistas, por sua vez, criticavam a monarquia pelo atraso em abolir a escravidão negra no Brasil. O tráfico negreiro já tinha sido abolido em outros países em 1850. No Brasil, pela resistência das elites agrárias tradicionais, e, diante das medidas graduais do império para a extinção da escravidão, sem indenizações proporcionais aos preços por elas pagos na compra de escravos, a abolição decretada pela Lei Áurea, só chegou em 1888. A falta de indenização fez com que o império perdesse seu último pilar de sustentação.

A grande dívida contraída pelo império por ocasião da Guerra do Paraguai (1864-1870) (três milhões de libras esterlinas em 1871 e 20 milhões em 1889) foi um fator econômico de descontentamento.

O próprio fato de o Imperador Dom Pedro II não ter descendentes homens, mas só mulheres, a mais velha, a princesa Isabel, casada com um francês, o Conde D´Eu, gerou o receio de que o país fosse governado por um estrangeiro, após a morte do imperador.

Os militares do Exército Brasileiro, sem poder se manifestar livremente na imprensa, por proibição da monarquia, e sujeitos a autorização dos Ministros da Guerra, na sua maioria civis, também somou descontentamento.

Não devemos ainda esquecer que, vários grupos, foram influenciados fortemente pela maçonaria e pelo positivismo de Auguste Comte: o Marechal Deodoro da Fonseca e todo o seu ministério, eram maçons. Após 1881, quando surgiu a igreja positivista do Brasil, foi iniciada uma forte campanha abolicionista e republicana.

Por último, alguns boatos, criados a propósito, aceleraram os fatos de 15 de novembro.

Um artigo de Aristides Lobo, testemunha ocular, publicado no Diário Popular de São Paulo no dia 18 de novembro de 1889, confirma a convicção de que a proclamação da República foi feita sem a participação popular. Na mesma direção está o fato que o referendum popular proposto pelo Marechal Deodoro, para que o povo brasileiro aprovasse ou não, por voto, a república, só ocorreu 104 anos mais tarde, por força das disposições transitórias da Constituição atual de 1988 (NB.: todas as informações acima têm como fonte a Enciclopédia Wikipédia).

Os altos e baixos, os caminhos diferenciados por onde passou a proclamação da república que hoje comemoramos, nos levam a refletir a partir de nossa base comum de fé nos valores universais do evangelho de Cristo.

A passagem do regime monárquico para o democrático, em si mesmo, é um progresso para nossa consciência de cidadãos brasileiros. Aos poucos, pois já passamos mais de um século da proclamação da republica, a democracia está nos educando a uma cultura participativa, dialogante, co-responsável e descentralizadora. Demonstram-no, em nossa história recente, a superação do período autoritário militar, a luta pelo espírito de liberdade, a capacidade de aproximação com o diferente em um diálogo sincero, a consciência e o desejo de superar a corrupção na vida pública, o esforço sempre mais claro de olhar para os que estão colocados pelo sistema político à margem da convivência social.

As últimas eleições estão nos convencendo de que os valores da democracia não serão construídos apenas por um partido, ou por uma classe social, e, muito menos, por uma pessoa. Ela também não sobreviverá na corrupção institucionalizada. Por isso a postura fundamental da busca do diálogo e da verdade é fundamental.

A busca de todos estes valores, que consideramos valores universais, é profundamente evangélica e merece ser realizada por uma nação como a nossa, em sua maioria formada de cristãos.

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