Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Homilia de Dom Pedro na Posse do Governador do Tocantins

Exmo. Sr. Governador do Estado do Tocantins,

Exmos. Srs. Senadores, Deputados, Prefeitos, Vereadores, Secretários e demais autoridades civis e Militares,

Exmos srs. dom Philip e dom Romualdo,

Revmos padres, querido povo de Deus,

Tenho sede!

Há um pensamento que diz que “os cristãos não podem se omitir e os pastores não podem se calar!” A Arquidiocese de Palmas, consciente da “laicidade” do Estado, no pleno exercício de sua missão profética de dialogar com a sociedade organizada e com as instituições democráticas, consciente da importância deste momento em que os senhores, nossos novos governantes, democraticamente eleitos, são empossados nos ofícios de Governador, Vice-governador e Secretários, sente-se no deve de compartilhar estes breves pensamentos.

Estamos aqui reunidos para cumprir uma das práticas mais antigas da Igreja: rezar pelas pessoas que exercem o poder civil na sociedade. Como ouvimos, há pouco, o apóstolo Paulo exorta a seu discípulo Timóteo a oferecer “súplicas, pedidos, intercessões, especialmente pelos reis e autoridades, para que possamos viver tranqüilos e serenos, com toda dignidade” (1Tm 2,1-2). Tal prática da Igreja se enraíza na tradição religiosa do Antigo Testamento, pois, são inúmeros os salmos de intercessão pelos reis e dirigentes do povo de Deus. A Igreja insere orações pelos governantes em momentos muito importantes de sua liturgia: durante a solenidade da sexta-feira santa a Igreja reza pelos governantes de todas as nações, para que Deus nosso Senhor dirija a sua mente e o seu coração segundo a sua vontade, para buscarem sempre a verdadeira paz e a liberdade de todos os povos, reza assim: “Deus eterno e onipotente, em cujas mãos estão os corações dos homens e os direitos dos povos, assisti os nossos governantes, para que, com o vosso auxílio, se fortaleça em toda a terra a prosperidade das nações, a segurança da paz e a liberdade religiosa”.

E por ocasião da Bênção do Santíssimo Sacramento ela reza: “abençoai as pessoas constituídas em dignidade para que governem com justiça”.

Neste sentido, e com estas intenções convidamos a todos aqui presentes a orarmos juntos pelos governantes que elegemos para que exerçam os seus mandados com dedicação, espírito de serviço e preferência pelos pobres.

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). A política, segundo o papa Paulo VI, “é uma das mais altas expressões da caridade cristã”, quando é exercida como serviço, de forma criativa e participativa, voltada unicamente para o bem-comum; quando combate os vícios, os abusos e os erros e evita exclusões; quando, com objetivos claros, cuida do bem da sociedade como um todo, gerencia e administra os bens públicos, com transparência e honestidade; quando trabalha em favor de todos e combate os privilégios; quando é aberta às necessidades da comunidade e luta pela vida das pessoas, contra as desigualdades sociais e a violência; quando promove a dignidade do ser humano e tem como pontos de partida os direitos humanos e os deveres sociais; quando promove a participação, pois, este é o verdadeiro sentido da democracia.

Neste sentido, a política, por fim, é a mais nobre das atividades humanas, a maneira exigente de se viver uma verdadeira “diaconia social e cristã” e a forma mais sublime de exercer a caridade, de viver o compromisso cristão a serviço dos outros, sobretudo dos mais necessitados e abandonados da sociedade. Esta “Política exercida em sua forma autêntica, inspirada nos princípios do Evangelho, é um caminho de santificação” (Cf. DGAEIB, 169).

Mahatma Ghandi, um homem politicamente correto, dizia que são suficientes poucas coisas para arruinar e destruir uma nação. E, entre elas, citava “a política sem princípios, o prazer sem consciência, a riqueza sem trabalho, o conhecimento sem qualidade e o convívio sem moralidade”. Não há quem não queira ser governado por políticos honestos, competentes e trabalhadores.

No imaginário popular o político é o homem das promessas. Não é proibido prometer. O pecado é prometer e não cumprir o prometido. Promessa deve gerar compromisso. As duas palavras – promessa e compromisso – possuem a mesma origem semântica. Quem não cumpre o que promete, trai as suas próprias palavras, os seus próprios princípios. Infeliz do homem ou da mulher que trai a si mesmo. Com certeza, muitos devem ter ouvidos as promessas de campanhas. Hoje o nosso desejo é vê-las transformadas em plataformas de governo.

Nosso povo, das zonas urbana e rural, precisa urgentemente de melhoria de vida; nossas cidades necessitam de calçamento, de asfalto, de saneamento básico, de centros de saúde, de abastecimento de água, de energia elétrica, de políticas públicas de educação de qualidade que previnam as crianças, os adolescentes e os jovens da ociosidade, das drogas e da prostituição; nosso povo precisa de mecanismos que gerem emprego e renda, que os capacitem para competir, com igualdade, no mundo do trabalho globalizado; nossas crianças precisam de creches e de merenda escolar; nossos idosos precisam de lazer e de centros de reabilitação; nossos trabalhadores rurais precisam de financiamento, de investimento no espírito associativo, de reforma agrária e política agrícola, voltada para a agricultura familiar; todos precisam do resgate da cultura de justiça e de paz, do cultivo e da defesa dos valores da família, da partilha solidária das oportunidades para o crescimento e desenvolvimento integrado e integral; os servidores precisam do pagamento em dia dos seus salários e do respeito aos seus direitos trabalhistas; todos nós precisamos de formação política, da consciência crítica para a cidadania e de formação ecológica para a preservação do meio ambiente.

Apesar de algumas experiências amargas e desastrosas já vividas, ainda acreditamos que existem bons políticos. Esperamos que a posse dos senhores e das senhoras sejam o início da gestação, o embrião de um novo tempo de paz, progresso e desenvolvimento. Isso implica na busca da justiça, da liberdade, da paz, da igualdade e do respeito à vida. Que todos, nos ofícios de governar, seja no legislativo que no executivo, empunhem a bandeira da luta pelo resgate das dividas sociais, trabalhem pelo bem comum, sejam servidores de todos, saibam relativizar os interesses pessoais, defendam, sem lisura, o trato das coisas públicas e não extravasem no espírito de vingança e no ódio em cima dos adversários.

Senhor Governador, estamos aqui rezando para que tudo isto aconteça. O senhor nos coloque na lista daqueles que querem contribuir e colaborar com um governo voltado para o desenvolvimento sustentável deste nosso querido Estado do Tocantins. Conte com nossas orações, nosso apoio e nossas parcerias, naquilo que for possível e legal, respeitando a laicidade do Estado.

Que Jesus, aquele que armou sua tenda em nosso meio, tão bem apresentado como luz do mundo pelo evangelho que acabamos de ouvir, seja a luz do vosso governo.

A Igreja venera entre seus santos e santas, homens e mulheres que serviram a Deus através do seu generoso empenho nas atividades políticas e de governo. Entre eles, está são Tomás Moro, padroeiro dos governantes e dos políticos, escritor do livro “Utopia”. Peçamos a intercessão e a ajuda dele nesta caminhada nobre e necessária e a bênção de Deus nesta missão confiada aos senhores para a construção solidariamente de um mundo melhor!

Rezemos ,irmãos e irmãs, pela Presidente da República, pelos Ministros das diversas áreas, pelos Governadores, Deputados, Senadores e Secretários, pelos partidos políticos, pelos Prefeitos e Vereadores e todos aqueles que de alguma forma exercem autoridade neste país.

Com os mais sinceros votos de um profícuo e eficaz governo, na caridade de Cristo, bom Pastor, um abraço fraterno a todos e todas.

Dom Pedro Brito Guimarães,

Arcebispo de Palmas – To

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