Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Homilia na Assembleia Legislativa

Senhores Deputados, senhoras Deputadas, senhores e senhoras, servidores desta casa do povo,

Tenho Sede!

Que esplêndida imagem do homem nos dá a narrativa do texto do Gênesis que acabamos de ouvir. O homem criado, senhor de toda a terra, a quem Deus dá tanto domínio e poder: o poder de ser fecundo, o poder de multiplicar-se, o poder de encher a terra e o poder de dominá-la. Quanto respeito Deus tem pelo homem! Quanto poder tem este homem!

Fará bem a nós, senhores e senhoras, reler e atualizar esta página da Bíblia porque, com muita freqüência, somos tentados a diminuir a imagem do homem e da mulher, de um modo ou de outro. Deus, ao contrário, possui uma ambição muito grande pelo homem e o quer grande e glorioso. Deus não é um patrão mesquinho, invejoso e egoísta que só quer para si a glória e o louvor. Deus quer dar e dar muito ao homem, diferente de muitos de nós que só quer receber, sem nada dar.

A pergunta que podemos fazer a Deus é a seguinte: como é possível uma participação do homem assim tão ampla? Que democracia é esta? Que distribuição de poder e de glória é esta? Não é perigoso todo este poder dado por Deus ao homem? Não é este domínio tão grande, levado ao pé da letra, a causa da destruição do meio ambiente?

Sabemos que, segundo a Bíblia, e o Gênesis nos contará isto: o pecado destruiu e ainda destrói a obra de Deus. A criação está doente, seja no tempo de Jesus que em nosso tempo. A terra está morrendo. Não agüenta mais ser desfrutada e depredada do jeito que está. Dizem os especialistas que o aquecimento global, as secas, as catástrofes naturais e as chuvas, como a que atingiram o Rio de Janeiro, que quase dizimaram cidades inteiras e matou mais de mil pessoas, serão sempre mais freqüentes. Com certeza este não é o desígnio de Deus para com a sua criatura. O certo é que Deus dá generosamente, quer dar sempre mais; há um grande desígnio para o homem, não quer que ele se diminua em coisas pequenas. E também não quer que o homem destrua a natureza, sua mãe, e nem o meio ambiente, sua casa e sua vida.

Preocupada com isto, a Igreja colocará, senhores deputados, nas ruas a Campanha da Fraternidade 2011, cujo tema: “Fraternidade e vida no planeta”. E lema: “A criação geme em dores de parto”.

Vemos isto também no evangelho que acabamos de ouvir. Jesus se opõe a tentativa de diminuir o homem, constrangindo-o por meros formalismos, por um legalismo pequeno, mesquinho, em que se dá grande importância a coisas pequenas, mesmo em detrimento do valor e da dignidade da pessoa humana. As coisas devem ser postas no seu devido lugar. Se uma coisa é pequena, há pouca importância e não precisa ser dramatizada. Não devemos ver escândalo e nem perder tempo com coisas insignificantes. Se a coisa é pequena deve permanecer pequena. Se é grande e se fará o homem grande, aí sim, deve se tratada com todo cuidado e respeito, gastar sessões e mais sessões, ser debatida até chegar a uma decisão final que beneficie a população, sobretudo, a mais pobre, que mais precisa do governo.

Para não falar mal das outras Instituições e falar de nós mesmos, uma vez no Seminário fomos fazer uma avaliação da casa como um todo, como é de costume. E surgiu o problema do limão: uns defendiam que o limão trazia muitos benefícios para a saúde; outras defendiam que era desperdício de dinheiro… E assim ficamos duelando por duas horas. O tempo acabou, sem sobrar tempo para as outras questões e não se chegou a nenhuma conclusão. Não sei se por aqui se perde tempo e dinheiro com mesquinharias e querelas, às vezes, deixando de lado os reais problemas do povo.

É muito comum a cena de Jesus no meio dos inquisidores, tendo que explicar suas ações e as dos seus discípulos. A acusação feita a Ele hoje, como as normas de higiene que o homem foi adquirindo ao longo da história, lida sem discernimento, parece não dizer nada a nós. Mas, tem a ver, sim, senhores deputados. Primeiro, por trata-se de acusação sem fundamento, muito comum em alguns ambientes no mundo de hoje. No Brasil vive a onda do denuncismo. Ao lado das acusações verdadeiras, há uma série de outras que não são feitas com bases e nem preocupações éticas, mas sim como base na busca do poder. Segundo, por trata-se de discriminação. No tempo de Jesus, esperamos que não no nosso, por trás da psicose da higiene e da pureza dos alimentos e dos objetos, se escondia um agravante ainda maior: não era só questão de higiene, mas de discriminação e de desprezo pelas pessoas, sobretudo as mais pobres. E não se deve discriminar ninguém.

Jesus denomina este tipo de atitude de hipocrisia, uma palavra tirada do teatro. O hipócrita era o ator, o apresentador, o que fazia o papel em uma cena épica e teatral. Com isto Jesus estava dizendo que eles usavam máscara, encenavam e simulavam uma situação para tirar proveito pessoal e acumular riquezas, mesmo em sacrifício da vida. Jesus os acusa de com isto abandonar o mandamento do amor, coisa muito grave. O amor não deve abandonado em hipótese nenhuma, nem no teatro, nem na Igreja, nem na sociedade e nem na política.

Estamos aqui, senhores Deputados, nesta casa da lei para abrir os trabalhos legislativos deste ano de 2011, com a oração. As perguntas que não podem calar são as seguintes: Como andam estas discussões nesta casa? O que mais se discute por aqui? Lembrados, senhores e senhoras, que a palavra “partido” (político), significa algo partido, não o todo e sim uma parte. E que a palavra “parlamento” (parlamentar) significa lugar para se falar, o “falatório”. Do que mais se fala por aqui?

Antes, porém de terminar estas minhas palavras, gostaria de deixar registrado nos anais desta Assembléia um problema uma questão que está nos angustiando: em muitas partes do mundo, inclusive aqui no Brasil, há toda uma tentativa de, em nome do Estado laico, retirar todos os símbolos religiosos das repartições públicas, como se Deus fosse inimigo do estado laico e como se religião fizesse mal ao homem.

Agradeço, de coração, ao senhor presidente, o convite para presidir esta missa no início dos trabalhos legislativos de 2011. Rezo pelos senhores e pelas senhoras para que aprovem leis justas para a melhoria da qualidade de vida do nosso povo. Rezo pelo desenvolvimento democrático, sustentável e solidário do nosso Tocantins. E isto depende, em muito, dos senhores e das senhoras.

Muito obrigado. Sejam todos abençoado! E fiquem todos com Deus. Amém!

+ Dom Pedro Brito Guimarães,

Arcebispo de Palmas – To

Palmas, 08 de fevereiro de 2011

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