Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Homilia na Missa da Unidade

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para anunciar a boa nova aos humildes (Is 61,1)!”

Amado, amada de Deus,

Tenho sede!

A vocês, irmãos e irmãs, a graça e a paz da parte de Jesus Cristo, a testemunha fiel! A unidade é uma destas palavras que perderam seu significado e seu acento, e por isto, caíram em desuso, neste mundo da “biodiversidade cultural e religiosa”. Todo mundo, a qualquer custo, quer se auto-afirmar, mesmo se a custa e a sacrifício da unidade. Num mundo como o nosso que briga até pelo ar que respira, que patrocina a desunião, a desavença, as brigas e as intrigas, não é fácil nem falar nem viver e nem celebrar a unidade e na unidade. Toda vez que perdemos de vista a grandeza do mistério da comunhão da Igreja para ficar preso a mesquinhez de uma pessoa, a fragilidade de um determinado grupo, ao erro de um determinado período histórico, perdemos a capacidade de contemplar o infinito mistério de Deus agindo em nós. Deus é infinitamente maior do que nosso pecado. Entender o mistério da comunhão da Igreja é não amesquinhá-la, não perder tempo com fofocas e picuinhas que ameaçam fechar a comunidade em si mesma e isolar os grupos. Quem, portanto, discrimina, que divide, separa, despreza os outros, quem mantém divisões na comunidade “não reconhece o corpo do Senhor, a sua Igreja.

A missa de hoje à noite tem este nome: missa do crisma e da unidade. Por antiqüíssima tradição, às vésperas da morte de Jesus, a Igreja celebra esta missa da unidade e da bênção dos santos olhos, com uma clara finalidade: todos ungidos para viver a unidade.

Mas de que unidade falamos e por que unidade queremos celebrar? A unidade entre o bispo e os padres, dos padres entre si, dos padres com o povo e do povo com os padres. De fato, sacerdote, unção e unidade estão estreitamente ligados com o sacramento do amor que Jesus instituiu, afinal “a eucaristia é sacramento da piedade, sinal de unidade e vínculo da caridade”. O bispo, ladeado de seus sacerdotes e de seus fieis, concelebram esta eucaristia, em espírito de unidade e sinal de pertença à mesma Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica.

A unidade foi a grande missão de Jesus aqui na terra. Um dia, olhando para Jerusalém, no pináculo na montanha, ele chorou diante da triste situação de Jerusalém: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aquelas que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos como uma galinha reúne seus pintainhos debaixo das asas, mas não quisestes!” (Mt 23,37). Por este sonho Jesus viveu, morreu e não o viu acontecer.

São Lucas, no evangelho de hoje, narra que Jesus iniciou sua vida pública com a leitura deste texto do profeta Isaias. Jesus, ungido como profeta, rei e sacerdote, é enviado a pregar a boa nova. Esta é a imagem da nossa missão. Este é um claro exemplo da nossa Igreja. “Unidos pela força da oração, ungidos pelo Espírito da missão, vamos juntos construir uma Igreja em ação”!

Nos textos correspondentes de Mateus e Marcos, a pregação de Jesus começa e se condensa deste modo: “convertei-vos e crede no evangelho!” Lucas, ao contrário, preferiu-nos indicar o início da pregação de Jesus com uma graça divina: “Hoje se cumpriram as Escrituras: O Espírito do Senhor está sobre mim; ele me ungiu…” De agora em diante o Reino deixa de ser uma realidade somente do futuro para se transformar em algo presente e atuante na história. Jesus anuncia a libertação das quatro grandes misérias do homem no mundo: a pobreza, a prisão, a opressão e a cegueira. E a Igreja abençoa os olhos santos exatamente para colaborar com Jesus com a libertação dos pobres, dos prisioneiros, dos oprimidos e dos cegos. Aqueles que sofrem por um defeito físico (cegos), aqueles que sofrem pela maldade dos outros (oprimidos e prisioneiros) e aqueles que são vítimas de uma desordem social ou da penúria de meios econômicos (pobres), estão agora diante da iminência de serem libertos de suas misérias, deficiências e feridas. Somente na medida em que vivermos esta boa nova da libertação, vivemos o Espírito de Cristo e caminhamos verdadeiramente rumo a Páscoa. Cada um destes três óleos, abençoados, tem uma desta propriedade libertadora.

Para São João, na segunda leitura, o Deus cristão, em Jesus Cristo, é o Alfa e o Ômega, o começo e o fim, aquele que era, que é e que vem… Este é o elemento fundamental e característico do ser cristão: considerar Deus como “aquele que vem” para nos ungir e nos unir.

Jesus, na oração sacerdotal, capítulo 17 do evangelho de São João, ao término da ultima ceia, se retirou para o Getsêmani onde se prostrou em oração. O pano de fundo desta sua oração é a iminência da sua paixão, como nós estamos aqui próximos da paixão. Nesta sua oração Jesus deixa antever uma bela definição do que o cristão: o cristão é aquele que vive a unidade. Elaborou os motivos desta nossa unidade, na forma de seis para quês. Aliás, Jesus não rezou uma única oração sacerdotal, mas três. Como Jesus rezou, eu quero rezar esta missa nesta intenção:

1) Para que teu Filho te glorifique. A glorificação que Jesus fará do Pai dependerá desta nossa unidade. Desunidos nós não glorificamos a Deus. Desunidos o nosso culto é contraditório e incoerente. A glória de Deus é que vivamos a unidade. Vamos todos, irmãos e irmãs, glorificar a Deus por nossa unidade no essencial Façamos nossas as palavras de Santo Agostinho: “no essencial, a unidade, na dúvida, a liberdade, em tudo, a caridade”.

2) Para que sejam um como eu e ti somos um. Jesus se apresenta a nós como modelo desta unidade. Como Jesus e o Pai são um, a esta unidade também somos chamados. Jesus pede a proteção do Pai para que ninguém perca o nome de Deus. O nome de Deus é amor. O amor do Pai, em Cristo, o amor, em Cristo, de todos os que crêem em Cristo. A unidade da Igreja e dos crentes é fundada sobre a unidade de Deus. Somente quem vive esta unidade pode guardar o nome de Deus. Nesta unidade ninguém se perca, ninguém se extravia, exceto o filho da perdição. Judas se perdeu por causa das suas pequenas rebeldias. Quem se rebela, se perde. Somos diversos, em carismas, culturas, idades, procedências, classes socais, mesmo assim e, por causa disso, somos chamados à unidade.

3) Para que sejam santificados na verdade. Jesus quer a nossa santificação e por ela morreu. Ele mesmo se auto-define com a Verdade. E é esta verdade que devemos proclamar. Jesus reza para que sejamos santificados na verdade. O cristianismo é a religião da verdade. O cristão é o homem/mulher da verdade. A Igreja é a casa da verdade. Na Igreja, nada de mentira, nada de faz de conta, nada de aparência. A nossa Igreja é a casa da unidade, da verdade, da bondade, da beleza, da fidelidade, do amor, da acolhida, do encontro com Jesus Cristo, do pobre, do evangelho, da evangelização, da missão, de Deus. E a casa de Maria, onde estamos, é o ícone da igreja samaritana, da casa de Nazaré, de Belém, de Caná, do Cenáculo…

4) Para que o mundo creia que tu me enviaste. O cristianismo perde sua credibilidade por nossa causa. A credibilidade de nossas palavras está em jogo. Muitos não crêem em Jesus por ver cristãos que vivem mal; por divisão na nossa Igreja; porque não damos testemunhos de unidade.

5) Para que contemplem minha glória. Ser cristão é viver na fidelidade pessoal a Jesus, na humildade, na vida de cada dia, feita de um tecido de oração e trabalho. Igreja existe para permitir esta fidelidade a Deus, no seguimento de Jesus, nas mais variadas circunstâncias concretas da vida de cada um de nós. Contemplar é ver Deus com os olhos da fé. Quem contempla os irmãos vivendo juntos contempla a glória de Deus. Que desta verdade o Senhor nos faça contemplativos na ação.

6) Para que o amor com que me amaste esteja neles. O amor é começo e o fim da unidade. Tudo começa com o amor e termina no amor. A Igreja que se ama manifesta que Deus é amor. E quem ama permanece em Deus.

Para concluir e para ilustrar bem o que dissemos, me servirei desta historinha: “Conta-se que num mosteiro, certo dia chegou à porta um homem pobre que recebia dos monges ajudas freqüentes. Trazia um lindo cacho de uvas que ele havia colhido de sua pequena plantação e desejava oferecê-lo ao porteiro, pela amabilidade com que o recebia. O monge o recebeu com alegria, admirado pela beleza das uvas. Ao se distanciar o doador, pensou o monge porteiro: vou dar este lindo cacho de uvas ao Abade. Ele o merece mais do que eu. O Abade o recebe maravilhado. Partindo o porteiro, o Abade ofereceu as uvas ao monge mais velho e doente. Ao se distanciar o Abade, o doente as dá ao monge enfermeiro, como prova de gratidão pela sua caridade. Mas ao sair do quarto, o enfermeiro presenteia o monge cozinheiro, agradecido pelos humildes serviços. O cozinheiro, já quase ao fim do dia, toma cuidadosamente as uvas e as dá ao monge mais jovem para que não se desanimasse diante das dificuldades. Este, com os olhos brilhantes de admiração, toma as usas e as oferece ao monge porteiro que o recebeu com tanta bondade. O porteiro recebe novamente as uvas, certo agora de que vivia verdadeiramente num lugar de Deus, onde reinava exclusivamente a lei o amor e todo sinal de egoísmo havia já desaparecido…”

Como vimos, amados, amadas de Deus, são João traça, de forma magistral, na oração sacerdotal de Jesus, e agora ajudado por esta história, o que entendemos por unidade na nossa Igreja de Palmas. Vamos apostar mais na unidade, irmãos e irmãs? Vamos viver mais esta unidade? Que o Espírito do Senhor, nos unja, nos abençoe e nos envie para viver e anunciar esta boa nova. Assim seja. Amém!

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