Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Homilia na Missa de Abertura das Atividades do Seminário Interdiocesano

Meus queridos bispos, professores, formadores, estudantes de Filosofia e de Teologia; queridos irmãos e irmãs, servidores e colaboradores da formação dos futuros presbíteros,

Tenho sede!

É sempre útil espiritualmente relermos esta página do livro do Gênesis que nos fala de Deus Criador. Às vezes olhamos com bons olhos para uma obra humana, por mais feia e menos significante que seja, e nos maravilhamos e esquecemos de nos maravilharmos com as grandes obras de Deus. Reler estas obras de Deus deve nos encher de admiração e de grandeza. Como professores e estudantes de Teologia e de Filosofia, sabemos que a Bíblia não pretende explicar de modo cientifico como o mundo foi criado. A narração da criação é uma história religiosa e teológica de quem acredita que toda a criação provém de Deus e da sua palavra criadora.

O que mais nos cativa nesta narrativa é que o autor desta página é uma pessoa cheia de admiração pela obra de Deus. A nossa admiração, a milhões de ano de distância, deveria ser ainda maior porque o homem moderno compreende mais e melhor a grandeza do universo do que o homem do Gênesis. Muitos segredos do universo que foram desvendados que com certeza o autor do livro de Gênesis não sabia. O homem moderno é especialista em desvendar os segredos do universo: pisou na lua, conheceu novos planetas, novas galáxias… O céu está cheio de satélites espiões capazes de revelar-nos o mundo por dentro e por fora.

Na narrativa, a pouco ouvida, há uma expressão responsorial, que retorna quase como um refrão de uma melodia: “E Deus viu que tudo era bom!” Para um cristão as coisas são boas, belas, esplêndidas e nos enche de reconhecimento porque Deus as criou, porque vivemos circundados das obras de Deus.

Sabemos que, segundo a Bíblia – e o Gênesis nos contará -, que o pecado destruiu e ainda destrói a obra de Deus. A criação está doente, seja no tempo de Jesus que em nosso tempo. A terra está morrendo. Não agüenta mais ser desfrutada e depredada do jeito que está. Aquecimento global, secas, catástrofes, como a que atingiu o Rio de Janeiro, que dizimou cidades inteiras e mais de mil pessoas, serão sempre mais freqüentes. A Igreja colocará nas ruas a Campanha da Fraternidade, cujo tema: “Fraternidade e vida no planeta”. E lema: “A criação geme em dores de parto”.

Neste breve sumário que Marcos faz das atividades missionárias de Jesus, sobressai a atividade curativa de Jesus. As doenças no tempo de Jesus, ultrapassavam o nível físico e médico, para entrar na esfera do transcendente e do religioso. Os leitores cristãos deste evangelho devem se convencer de que é necessário tocar em Jesus num sentido mais profundamente do que o que fizeram os galileus. Isto é, devemos acreditar nele como o Messias prometido, que cria, chama, cura, liberta e salva o povo ainda hoje. Hoje nos deparamos com uma sociedade tipicamente doente, que quer tocar no manto de Jesus para ser curada das suas fragilidades, deficiências e debilidades. Precisamos de médicos, de corpo e de alma, para curar as feridas do corpo e da alma do nosso povo. Nossa vocação é colaborar com Jesus, nos colocando a serviço da vida do planeta e das pessoas.

Com esta meditação, amados, amadas de Deus, iniciamos as atividades formativas do nosso Seminário Maior Interdiocesano “Divino Espírito Santo”. Peçamos a Ele todos os dons, todas as luzes, todas as graças de necessitamos para bem viver este ano de formação que ora se inicia. Como professores e estudantes de Filosofia e de Teologia, deveríamos, sem esquecer do mundo criado, entrar de cheio no “mundo da Sofia”: mergulhar, de cabeça erguida, na sabedoria humana, pela Filosofia, e de joelho, na sabedoria divina, pela Teologia. Sejamos, pois, amigos destas duas formas de sabedorias. Lembrados de que a palavra “seminário” é tomada emprestada da própria natureza. Significa “semeadura”, “canteiro semeado”, lugar onde a Igreja cultiva as sementes das vocações. E ainda mais, a palavra cultura vem de cultivo, de cultos, de cultura. O seminário é, lugar do cultivo da cultura. Assim como devemos nos reconciliar com a natureza, devemos também nos reconciliar com os livros e sua cultura, pois, tem gente divorciada com eles.

Santo Agostinho dizia que o primeiro livro que Deus escreveu foi a natureza. E só escreveu o segundo livro, a bíblia, quando o homem não conseguiu mais ler o primeiro livro. São Francisco era um fascinado pelas obras da natureza e as chamava de: irmão sol, irmã lua, irmã noite, irmão lobo, irmão passarinho… Por isto é o patrono da ecologia. Teillard Chardin ficava, horas a fio no deserto, contemplando a beleza e a grande do universo. Com isto escreveu obras memoráveis sobre a “Eucaristia”, segundo ele, “rezada no altar do mundo”. Dizia, olhando para o universo: “a eucaristia é maior…” Santo Inácio de Loyola, que não era um santo tão sentimental assim, se comovia diante de uma florzinha, pensando no Criador. O santo, o pastor, o filósofo, o teólogo, o exegeta, o liturgo, o místico e missionário, todos, cada um ao seu modo, devem fazer dos seres criados, a arte do seu saber. O que impede de fazer o professor e estudante de Teologia e de Filosofia?

Apesar de toda esta agressão, fundamentalmente a natureza permanece boa. Na celebração da missa nos apoiamos nas obras de Deus para o sacrifício. O pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano, daqui a pouco serão apresentados e transformados no Corpo e no Sangue de Jesus.

Meus queridos professores e estudantes, durante os cursos de Filosofia e de Teologia certamente desfilarão várias matérias que tem como objetivos os seres criados. O meu desejo, caros irmãos e irmãs, é que o Senhor nos ajude a termos um olhar contemplativo para com a natureza ferida e um olhar de compaixão para com a humanidade doente.

Que Santa Filomena, interceda junto a Deus, para tenhamos todos olhares de filósofos, de antropólogos e de sociológico, e coração de teólogos e de liturgos. Que o Senhor nos façam dissípulos missionários de Jesus, e como Jesus desvendarmos os segredos do universo e da vida humana. Desejo, por fim, que os nossos estudos contribuam para a melhoria da qualidade da vida das pessoas e do planeta. Amém!

+ Dom Pedro Brito Guimarães

Arcebispo de Palmas

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