Arquidiocese de Palmas

› 01/02/2021

A ÁGUA NO VINHO

Diz o ditado popular: “Onde há uma garrafa de vinho, há uma jarra de água”. Há na vida de cada dia algumas combinações perfeitas: arroz com feijão, café com leite, goiabada com queijo, sombra e água fresca, corpo e roupa, água e vinho, Covid-19 e vacina (deixo aqui este espaço vazio para você preenchê-lo) …… Nem todas as misturas combinam e dão certo. Por exemplo, água e óleo. Há também na vida de cada um de nós coisas que combinam e coisas que não combinam. Quem de nós nunca ouviu alguém dizer: “isto combina com você” ou “isto não combina com você?”. Com quem você combina ou não combina? Com quem você se mistura ou não se mistura?

Água e vinho se combinem e se misturam e formam uma das espécies eucarísticas: o vinho, com uma gotinha de água, se transformam no Sangue de Jesus. Você sabe por que se mistura água no cálice com vinho? É para deixar o vinho mais fraco? É para alterar o seu sabor? É para limpar o peritônio do sacerdote? É porque o sacerdote gosta de água? É porque tem sede? A água no vinho é um rito, simples, até corriqueiro, mas que tem um grande significado. Segundo a rubrica, em silêncio litúrgico, o sacerdote ou o diácono, ao misturar a água no vinho diz, em voz baixa: “Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade”. Jesus se dignou assumiu a nossa humanidade. Mas que tipo de humanidade ele assumiu? Uma humanidade doente, desunida e “dividida em contínua discórdia” (Oração Eucarística VIII, sobre a Reconciliação II).

Este rito litúrgico nos remete a muitos outros ritos da vida. Não pode ser um ato meramente ritualístico. Tem que ser um rito vital. Diante das desarmonias e das adversidades da vida, Jesus, o Santo de Deus, disse ao mar revolto: “Silêncio! Cala-te!” (Mc 4,39). E ao espírito mau: “Cala-te e sai dele!” (Mc 1,25). Então, o mar se acalmou e o espírito mau saiu daquele homem.

E o que dirá aos nossos mares e aos nossos espíritos maus, nos nossos dias? Os mares de nossas vidas estão bravios. Que Jesus nos acalme. E os espíritos maus estão em muitos de nós, nas nossas sinagogas. Que Jesus nos cure. Porque “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14 – Campanha da Fraternidade 2021). A humanidade está dividida e separada, como a água e o óleo. E precisa se unir como a água e o vinho. Esta é a verdadeira pandemia que adoece os nossos tecidos e os nossos liames sociais e eclesiais. Precisamos vencê-la. Como? Com Jesus no comando. É isto que chamamos de conversão: conversão é mudança de comando. Quem manda na nossa vida é Jesus ou é o espírito mau? Jesus, quando deu as últimas recomendações aos discípulos, disse que na missão devemos expulsar os demônios, pegar em serpentes e beber venenos e curar os doentes (Mc 16,17-18). Este é o caminho da missão, sobre o qual todos nós haveremos de passar e de percorrer. Não há missão que não enfrente estes desafios. Eles fazem parte dos caminhos da missão. Em toda missão há sempre um abandonado, à beira da estrada.

O momento atual não é fácil. “No contexto atual, há urgente necessidade de missionários de esperança que, ungidos pelo Senhor, sejam capazes de lembrar profeticamente que ninguém se salva sozinho”. “Tudo, em Cristo, nos lembra que o mundo em que vivemos e a sua necessidade de redenção não lhe são estranhos e também nos chama a sentirmo-nos parte ativa desta missão: Ide às saídas dos caminhos e convidai todos quantos encontrardes (cf. Mt 22, 9). Ninguém é estranho, ninguém pode sentir-se estranho ou afastado deste amor de compaixão” (Mensagem de sua santidade, o Papa Francisco, para o Dia Mundial das Missões de 2021). Nossa missão é ver e ouvir o que a Igreja nos diz, através do Santo Padre, o Papa, e não apenas selecionar aquilo que nos interessa.

Voltemos ao simbolismo da água e do vinho. São Cipriano de Cartago dizia: “Se houver apenas água, sem vinho, nós estamos sozinhos, sem Cristo. E se houvesse só vinho sem água estaria Cristo sozinho sem nós”. Somos um país miscigenado e desigual. Somos um “Brasil inevitável” (Mércio Gomes – nota de rodapé: “vale a pena lê-lo”). Por isto mesmo, chega de briga! Chega de ódio! Chega de polarização! Chega de ideologização! Que venha a vacina! Água no vinho…! Afinal, somos todos irmãos!

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