Arquidiocese de Palmas

› 05/09/2019

A AMBIGUIDADE: OU A VIDA OU A MORTE

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas – TO

 

 

Dizem as estatísticas que o suicídio é terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil. E que a cada 45 minutos, alguém morre por suicídio no Brasil. Mesmo não me considerando especialista em suicídio, do muito que recentemente li e ouvi sobre o assunto, posso afirmar o quanto segue:

Quando você encontrar pessoas portando um lacinho de fita amarela, ou ver um banner ou outras peças publicitárias, são sinais de apoio à campanha “setembro amarelo”, de prevenção ao suicídio. Como na lei de trânsito, “amarelo” é sinal de alerta, na lei da vida, mais do que simplesmente alerta, “setembro amarelo” é uma campanha preventiva. A prevenção se faz sempre com informações de fáceis decodificações. Muitos suicídios poderiam ser evitados preventivamente se houvessem mais campanhas educativas sobre a bondade e a beleza da vida e mais tratamentos das causas que levam uma pessoa a suicidar-se. As causas mais comuns são multifatoriais: sofrimento, repressão, ódio, angústia, solidão, tristeza, drogas, estado emocional, doenças mentais e afetivas, ambiguidade ou a vida ou a morte, perda do sentido da vida e falta de habilidade para enfrentar os desafios da vida. O suicídio é um ato definitivo para um problema temporal, possível de ser resolvido por outros meios e métodos.

Dizem que não existe crime perfeito. De candidatos ao suicídio geralmente emanam sinais. Estejamos, pois, atentos à leitura desses sinais. A vida não é uma ciência exata. Já dizia Fernando Pessoa: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Não temos respostas prontas para todos os nossos problemas. Muitos permanecerão como mistérios, incógnitas e segredos. O mundo é uma grande aldeia globalizada e nós somos uns estranhos na multidão. O fato é que estamos todos sofrendo. O mundo em que vivemos é um mundo muito estranho. A sociedade em que vivemos é uma sociedade doente. E o suicídio é um componente deste mundo estranho, complexo e doente.

O suicídio atinge mais a homens do que a mulheres. Os homens escolhem mais os atos letais mais violentos. É que a cultura machista leva o homem a camuflar seus sentimentos e seus sofrimentos: “homem não pode chorar, não deve sofrer, não pode perder”, se não quiser ser considerado um fraco. É preciso desconstruir esta cultura, ressignificar a vida e redescobrir o sentido da vida. Esta ambiguidade, ou a vida ou a morte, tem que ser desfeita. É preciso falar, desabafar, abrir o coração, antes que seja tarde. Aqui entram os papeis da família, da Escola, da Igreja e da sociedade.

A Bíblia fala muito dos pecados que geram mortes (Rm 6,9.22; 1Jo 5,16-17). Faz-se necessário discernirmos quais são estes pecados hodiernos que geram a morte de tantas pessoas. É preciso morrermos a estes pecados, sem tirar a vida. A vida não nos pertence. Deus é autor da vida. Amar a vida é mesmo que amar o seu Criador.

Como prevenções, neste setembro amarelo, sugerimos duas atitudes, plausíveis e possíveis de serem realizadas. A primeira, é a sensibilidade para com a vida e a dor do outro. Não podemos continuar globalizando a indiferença. E a segunda, é a emoção, sem ser simplesmente emocional. Só aprendemos aquilo que nos emociona e nos encanta. A vida é muito dura para alguns. Faltam leveza, mística, sensibilidade, emoção e poesia à vida. Somos por demais racionais. A racionalidade é boa, mas na justa media. Gosto muito desta poesia da Banda Legião Urbana, que diz: “Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação. Serão noites inteiras, talvez por medo da escuridão. Ficaremos acordados, imaginando alguma solução pra que esse nosso egoísmo não destrua nossos corações. Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer?

Ficam estas quatro perguntas abertas e, no ar, para serem respondidas por quem souber, quiser e puder. O fato é que somos criadores de monstros que destroem as raízes, os tecidos e as redes vitais da nossa existência. Venceremos o suicídio quando formos mais próximos, mais humanos, mais solidários e mais sensíveis às dores dos outros. Quando, por fim, nos encantarmos mais pela beleza e pela riqueza da vida.

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