Arquidiocese de Palmas

› 17/09/2020

A DESAFEIÇÃO DA EUCARISTIA, EM TEMPO DE PANDEMIA, REAL OU FICTÍCIA?

A pandemia do Coronavírus, a Covid-19, entre outras coisas, está provocando um interessante debate litúrgico, local, nacional e internacionalmente. Muitas imagens litúrgicas passaram pelos nossos visores, de bispos e padres, presidindo missas, em igrejas vazias, com os bancos enfeitados, com fotos de paroquianos, e muitos deles, em suas casas, ajoelhados, diante de smartphones, computadores e
televisores. E muitos de nós alegres por atingir mais pessoas, pelas missas virtuais, do que pelas presenciais.

Sem querer ou sem perceber, a liturgia eucarística se tornou um produto on-line. Mas a missa virtual veio para ficar? Esta foi ou é uma fase passageira ou fará parte do que convencionamos chamar de “novo normal?” A Covid-19 é o início de uma Igreja mais virtual do que presencial? Estamos entrando em uma nova fase da renovação litúrgica, no pós-Covid? Mais um desafio que nos impõe, neste tempo de
pandemia e de pós-pandemia. Há, portanto, incertezas e desafios no campo litúrgico, neste novo tempo.O vírus provoca mutações nos campos biológico, psíquico e litúrgico. A missa virtual é um banco de prova para a Igreja.

A pergunta é a seguinte: no culto virtual, como fica a participação consciente, piedosa e ativa dos fiéis, como nos pede a reforma litúrgica, promovida pelo Vaticano II (SC 48)? Eu continuo convencido de que falta nas experiências eucarísticas virtuais, ao menos, uma desta tríplice participação. A grande contribuição do Vaticano II foi entrelaçar os atos litúrgicos de quem preside a Eucaristia, com os de quem
participa dela presencialmente. O culto virtual foi o grande esforço e contou com investimentos, mas pode ter nos levado a uma Liturgia pré-conciliar e a perder a batalha, que é a participação ativa das pessoas nas ações litúrgicas.

E o que dizer sobre a desafeição da Eucaristia, em tempo de pandemia? É real ou fictícia? Talvez a palavra “desafeição” seja forte demais, pois, significa “desamor” e “desafeto”. No entanto, esta ou outra palavra deverá ser empregada para narrar o que está acontecendo com a Santa Eucaristia. Vale a pena recordar o “abandono”, mesmo que circunstancial e momentâneo, da Eucaristia presencial, por parte de
muitos fiéis. Esta percepção não é somente minha. É de muitos bispos, padres, diáconos, liturgistas, teólogos e pastoralistas, leigos e leigas. O Bispo de Leiria-Fátima, o Cardeal Antônio Marto, assim se expressou: “Constatamos a falta de enlevo, encanto, amor, atração e devoção a este sacramento, uma verdadeira desafeição e até desamor por parte de muitos cristãos que se afastam da celebração”. Segundo o Cardeal, contribui para esta desafeição “fatores de ordem social, cultural, familiar, próprios do mundo e deste tempo em mudança”.

Durante o tempo em que estávamos em restrições, recebi muitas mensagens de pessoas ávidas pela Eucaristia. Quando as restrições foram redimensionadas, os fiéis não apareceram nas igrejas, como era de se esperar. A este respeito, lembro-me de dois episódios: o primeiro, o repórter que me entrevistou, a respeito da flexibilização, queria, a todo custo, saber como seria a seleção dos fiéis nas Igreja para as missas presenciais. E o segundo, um padre me contou que no dia em que foi facultada a participação de 30% da capacidade da Igreja, ele preparou o ambiente e ficou na expectativa de ver a Igreja cheia. Sabe quantas pessoas vieram? perguntou ele. – Três pessoas. Imagine o tamanho da sua frustração. A Eucaristia é Jesus. Nasce da sua pessoa: de um corpo doado e de um sangue derramado; nasce
do seu apostolado e da sua missão; nasce do seu desejo e da sua sede. Por isto, para entender a Eucaristia é preciso antes entender quem é Jesus Cristo. A Eucaristia é “Cristofania”: fala de Cristo. De todos os Sacramentos, a Eucaristia é o único que teologicamente se pode definir assim.

Um mundo sem Eucaristia é um mundo sem luz, sem graça, sem glória, sem bússola, sem casa, sem mesa, sem pão, sem corpo, sem sangue, sem sacrifício, sem êxodo, sem páscoa, sem cruz, sem paixão, sem morte e sem ressurreição. Em uma única palavra: sem Cristo. Símbolos eucarísticos formaram uma espécie de viático, na viagem rumo à Terra Prometida. “Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual; de fato, bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava. Essa rocha era o Cristo (1Cor 10,3-4). Deus ficou furioso com aqueles que não quiseram entrar na dinâmica do Êxodo-Páscoa: “Lembra-te de todo o caminho pelo qual o Senhor, teu Deus, te conduziu, nesses quarenta anos, no deserto, para te humilhar e te pôr à prova, e para conhecer o que estava em teu coração, se obedecerias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, te fez passar fome, te deu de comer o maná, que nem tu, nem teus pais conheciam, para te mostrar que não só de pão vive o homem, mas de tudo o que sai da boca do Senhor” (Dt 8,2-3). A Eucaristia saiu da boca de Jesus: “Eu sou o pão” (Jo 6,35.51), “Isto é o meu corpo” (Mc 14,22). Não parecem que estas palavras foram direcionadas a nós, neste tempo de pandemia? Não aprendemos as lições de Deus neste nosso êxodo? Dizem que não se sai ileso de uma crise: ou se sai melhor ou pior.

Nos próximos dias, no 27º Domingo do Tempo Comum, iremos rezar esta Oração: “Possamos, ó Deus Onipotente, saciar-nos do pão celeste e inebriar-nos do vinho sagrado, para que sejamos transformados naquele que agora recebemos”. “Saciar” é fácil de ser entendido. O difícil é entender o que significa “inebriar”. Sabe qual é a tradução, não litúrgica, mas laica, da palavra “inebriado”? – “Embriagado”. Como é feio pedir para ficarmos embriagados, a Igreja nos pede que fiquemos inebriados. Mas o sentido é o mesmo, embora a palavra seja outra.

Está na minha mente e no meu coração, enquanto eu escrevo estas linhas, a narrativa simples, bela, inspiradora, que nunca deixa de nos comover e nos maravilhar, do episódio dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35). Esta narrativa é um testemunho notável da fé eucarística da comunidade apostólica. Eles voltaram para a comunidade depois que seus corações arderam e seus olhos se abriram ao partir do pão. Não podendo me aprofundar nesta cena bíblica, fica aqui apenas este registro. Está também na minha mente e no meu coração a fantástica história dos mártires da Abitínia (atual Tunísia), no ano 304, que durante a perseguição do imperador Diocleciano, sabendo que era proibido celebrar a Eucaristia, responderam: “Não podemos viver sem o Domingo”. Traduzindo com minhas palavras: “não podemos viver sem a Eucaristia!”

As ausências de muitos nas Igrejas é o grande desafio pastoral, neste tempo de pandemia. São por medo ou por desafeição à Eucaristia? O que e como fazer para tocar os corações e trazê-los de volta à Igreja, para as celebrações eucarísticas presenciais? Já formatei as três primeiras emergências: – “Onde os pobres irão dormir”, “Onde as crianças irão estudar”, Onde os fiéis irão rezar” -, agora formulo uma
nova emergência: a emergência eucarística: voltem alegremente à Eucaristia! Por isto, faço meu o apelo do Papa Francisco, por meio da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (Prot. nº 432/20): Irmãos e irmãs, “voltem com alegria à Eucaristia, real, não virtual, com o coração purificado, com um renovado maravilhamento, com um desejo acrescido de encontrar o Senhor, de estar com ele, de o receber para levá-lo aos irmãos com o testemunho de uma vida plena de fé, amor e esperança. Não podemos viver sem a Palavra do Senhor, sem a participação no sacrifício da cruz, sem o banquete da Eucaristia, sem a casa do Senhor, sem o dia do Senhor”.

Nesta pandemia e em outros momentos da vida, a Igreja foi a que mais cuidou da vida. Muitos que fizeram menos, abriram antes e mais as suas portas, às vezes, sem os devidos cuidados sanitários, e estão aglomerados. Por tudo isto, pedimos a todos: voltem às suas Igrejas! Prometemos assegurar a todos: espaços litúrgicos santos, com as normas higiênicas, os distanciamentos, a não aglomeração, evidentemente, com as exigências de usos de máscaras faciais. Vamos acabar com a desafeição da Eucaristia, em tempo de pandemia, alegremente, participando dela presencial, consciente e ativamente?

 

Dom Pedro Brito Guimarães

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