Arquidiocese de Palmas

› 09/06/2020

A FÉ POR SUPLEMENTO

No canto litúrgico, “Pange Língua”, composto por Santo Tomás de Aquino, a pedido do Papa Urbano IV, para a Festa de Corpus Christi, de 1264, na estrofe “Tantum Ergo Sacramentum” (Tão Sublime Sacramento), há uma afirmação que sempre me fez bem pensar e rezar: “Venha a fé, por suplemento, os sentidos completar”. Muitos cantos litúrgicos trazem verdades, poeticamente embutidas, quais pérolas preciosas que, às vezes, passam despercebidas. Esta é uma delas. Poucos se dão conta do que estão realmente cantando e rezando.

A solenidade de Corpus Christi nos coloca diante do grande tesouro da Igreja, a Eucaristia. Esta Festa é o prolongamento memorial-litúrgico da Quinta-Feira Santa, quando Jesus, ao celebrar a última ceia, se ajoelhou diante dos seus discípulos e lavou os seus pés. E foi exatamente o que ele cobrou e ensinou aos discípulos: “entendeis o que eu vos fiz?” (Jo 13,12b) “Também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14b)Como perdemos, ao longo do tempo, estas referências da última ceia!

As crises, sanitária e humanitária, pelas quais passamos, atingiram e afetaram muito os nossos sentidos, todos eles, sem exceção. Tanto assim que provocaram “crises de sentidos”. Estamos todos nos sentindo mal. Quais foram os sentidos mais afetados neste tempo emergencial de pandemia? E quais são os perigos e as ameaças destas afetações? Além de atingir o paladar e o olfato, a Covid-19 atingiu também a visão, a audição e o tato. Tenho dito, e repito, que esta pandemia desconsertou o mundo: mudou tudo, virou o século e antecipou o futuro. Desde os atos e hábitos, mais simples e primários, ela fechou igrejas, destruiu economias, adiou sonhos e provocou isolamentos, medos, ansiedades, depressões, doenças e mortes. E atingiu a credibilidade de pessoas e instituições. Mas também fez ressurgir o fortalecimento da solidariedade e do movimento empático do cuidado do outro.

Esta pandemia atingiu também os sentidos da fé e da vida. Alguns estão perguntando: onde está Deus nesta pandemia? O que ele está fazendo?  E por que não reage? Para alguns a fé perdeu o seu sentido e para outros a vida tomou outros rumos e outros sentidos. Como se diz agora: “o estranho se tornou o novo normal”.

Que resposta daremos a quem perdeu o sentido da fé e da vida? Difícil dar uma resposta única. Mas sem, ao menos, uma resposta também não podemos ficar. A resposta que darei é a seguinte: “Venha a fé, na Eucaristia, por suplemento, os sentidos completar”. A Eucaristia é o mistério da fé. A fé na Eucaristia supre e suplementa a falta ou a fraqueza dos sentidos. Ela completa, por suplemento, o sentido da fé. Por quê? Porque a Eucaristia, diferentemente dos outros seis Sacramentos, é Jesus. Ela é o seu Corpo, doado, e o seu Sangue, derramado, para a vida e a salvação do mundo. Seu Corpo-carne é Pão e seu Corpo-sangue é Vinho. Na Eucaristia, pão e vinho possuem significados diferentes dos que os mesmos possuem na padaria e na adega. Estamos falando do Corpo-Pão e do Sangue-Vinho eucarísticos. É Pão, mas é Jesus. É Vinho, mas é Jesus. São alimentos que não perecem porque são Jesus. E é de Jesus o insistente convite para comermos deste Pão e bebermos deste Vinho. Não há um realismo maior do que este realismo eucarístico.

É preciso que comamos o seu Corpo e que bebamos o seu Sangue. Com uma cultura como a nossa, que desprestigia o “corpo” e o “sangue”, é preciso que se diga algo mais a este respeito. O comer e o beber eucarísticos não são simplesmente mastigar-engolir, no sentido físico-biológico, mas no sentido existencial-espiritual. É por isto que a Igreja chama o ato de receber a Eucaristia de Comunhão: comungar. Na Eucaristia não simplesmente se come e bebe, mas se comunga. Comungar é bem mais do que comer e beber. Comungar é internalizar, introduzir e ingerir o estilo de vida de Jesus, as suas opções, as suas preferências, o seu dinamismo, o seu desígnio, a sua paixão-morte-ressurreição e a sua missão.

Neste ano a Festa de Corpus Christi não será celebrada como nos anos passados. No entanto, será celebrada para nos sacudir da rotina, da mediocridade e da sonolência espiritual. Será celebrada para completar o que falta aos nossos sentidos. Não haverá procissões externas, com andores enfeitados e carros alegóricos, para que haja procissões internas, nas vidas, nos sentidos, nas mentes e nos corações. Esta é uma forma de comunhão. E poderá haver, mesmo distantes, os dobramentos de joelhos, como Jesus fez com seus discípulos, no lava-pés, pois, diante dele “todo joelho se dobre e toda língua confesse: Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fl 2,10).

Por isto, resolvemos, como parte do aniversário de 24 anos da Arquidiocese de Palmas, celebrar, ininterruptamente, 24 missas, uma missa a cada hora. Este é o grande presente que iremos oferecer a todos, mesmo aos que estão em seus isolamentos sanitários. E esta será a prece que pedimos que todos façamos: “Com Jesus na Eucaristia, pelo fim da pandemia”.

E, para concluir, parafraseio o que disseram, no ano de 304, os 49 cristãos, em Abitene, uma pequena localidade, na atual Tunísia, proibidos de se reunirem no domingo: “Sine dominico non possumus”, ou seja, Sem nos reunirmos, em assembleia, para celebrar a Eucaristia, não podemos viver.

1 Comentário para “A FÉ POR SUPLEMENTO”

  1. Diacono;: Isaías Santos da cruz disse:

    Uma verdadeira inspiração, tantas vezes cantei essa música sem perceber a riqueza dos sentidos completar. É ter fé, a partir dela os sentidos se completa.

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