Arquidiocese de Palmas

› 01/12/2020

É TEMPO DE UM NOVO ISAIAS

Caros amigos, tenho sede!

“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu;
enviou-me para dar a boa-nova aos humildes,
curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos
e a liberdade para os que estão presos;
para proclamar o tempo da graça do Senhor” (Is 61,1-2)

Advento: tempo de um novo Isaias! Com base nas palavras da teóloga, Maria Clara Bingemer, em palestra, proferida aos bispos do Brasil, em reunião na modalidade virtual, no dia 25/11/2020. Ela, com seu olhar de mulher e de águia, e eu com minha caneta e meu caderno, um olho na tela e outro na agenda da minha memória, sintetizo, com meus acréscimos, metade e metade, seis pontos que gostaria de compartilhar e condividir, internamente, com vocês. “Que ninguém diga que e não disse nada de novo. A disposição do material é totalmente nova” (B. Pascal, Pensée 22). Um bom exercício para quem quer terminar bem este ano, com os olhos no ano vindouro:

  1. É tempo de retomar o luto com olhar pascal. Transformar a dor, o sofrimento e o luto relacional de muitos que adoeceram, continuam doentes, corporal ou mentalmente, e dos que morreram em páscoa. Escutar as vítimas desta pandemia, como agentes consoladores do Espírito Santo. Consolar a dor. Ser guardiões da esperança. Golpear a esperança do povo. O povo pode perder a esperança nos seus agentes, pastores e guias. Não deixar que roubem a esperança do povo. Alimentar esta esperança pascal. Advento: tempo de um novo Isaias, com o olhar pascal!
  2. Parceria mais estreita com a ciência. Estamos vivendo uma onda de obscurantismo e negativismo. A ciência nunca esteve na berlinda como está. Os impactos sanitários, ecológicos podem ser mingados pela ciência. A ciência, além de científica, é um dos dons do Espírito Santo. A ciência é um ator, de linha de frente, no enfrentamento das doenças do nosso tempo. Ao lado das doenças provenientes da pandemia, há o aumento de doenças mentais, de estresse, depressão, automutilação e suicídio, homicídio e feminicídio. A ciência é uma interlocutora para todas essas vozes dissonantes. O Espírito Santo não toma as ferramentas para curar os doentes. Ele age pelas mãos dos cientistas. Falar de Deus hoje implica dialogar com a ciência: Fedei et Ratio. É preciso ver a ciência na vida e não na ameaça à vida. Advento: tempo de um novo Isaias, com o olhar na ciência!
  3. Abrir mais espaços à beleza. A palavra beleza remonta sua gênese ao sânscrito: BET EL ZA (o lugar em que Deus brilha). Voltar às expressões para reencantar os corações despedaçados. Que as artes encontrem espaços nesta retomada pastoral. Abrir espaço ao lúdico, ao jogo, ao brinquedo e muitas outras formas de expressões culturais. Jesus foi um verdadeiro Teopoeta. Fala com Deus e com o povo por meio de poesias. Suas parábolas são ressonâncias de suas teopoéticas. A origem deste seu saber era reconhecida e questionada por seus ouvintes. Eles ficavam encantados com as palavras, cheias de graças, que saiam de sua boca (Lc 4,22), pois, eram ensinamentos novos e com autoridade (Mc 1,27), diferentemente dos escribas e mestres da lei (Mt 7,29). Até o Pai Nosso é uma oração, em forma de poesia. O Papa Francisco embeleza suas obras com poemas daqueles que ele denomina de “poetas populares, contemplativos e profetas” (Querida Amazônia, 46). Fiódor Dostoiévski disse que “a beleza salvará o mundo!” Hans Urs Von Balthasar perguntou: quem é o homem mais belo mundo? E respondeu: “o homem mais belo do mundo é Crucificado”. Santo Tomás de Aquino: “A beleza assemelha-se com aquilo que é próprio do Filho”. “Tu és o mais belo entre os homens” (Sl 44,3). “Cada beleza no mundo é uma figura da Encarnação. Não existe e não pode existir nada mais belo e perfeito que o Cristo” (Dostoiévski). Advento: tempo de um novo Isaias, com o olhar na beleza!
  4. Redescobrir mais os espaços domésticos. A nova configuração do tempo, neste tempo de pandemia, foi a casa: “a igreja na casa”. O vírus, invisível, de poucos milímetros, pós o mundo de joelhos. E nos trouxe de volta para casa. A casa se tornou as fronteiras geográficas e existenciais da igreja-templo. Antes de ser tempo, a igreja era casa. É preciso valorizar mais os espaços domésticos: morar, viver, comer, lavar roupas, celebrar, sofrer, morrer etc. O Natal é uma festa eminentemente familiar. E uma criança nos servirá de sinal. E este ano será ainda mais uma festa familiar, sem muitos convidados e sem aglomeração. Advento: tempo de um novo Isaias, com o olhar uma família!
  5. “O cuidado da terra, da casa comum”. “Somos terra”, “somos pó”, “somos poeira!” Somos filhos e filhas da terra. A terra é a nossa primeira morada. Faz-se urgente a consciência e conversão ecológicas. Temos responsabilidades com o desequilíbrio ecológico. O vírus da convi-19 é efeito do desequilíbrio ecológico. “O Senhor, que primeiro cuida de nós, e ensina-nos a cuidar de nossos irmãos e irmãs e do ambiente que Ele nos dá como presente a cada dia. Esta é a primeira ecologia que precisamos” (QA 41). A terra não foi feita somente para os seres humanos. O cuidado dos seres humanos inclui o cuidado de todas as outras criaturas de Deus, nas suas biodiversidades, são queridos e amados pelo Papa Francisco. A vida é um outro nome de Deus. Advento: tempo de um novo Isaias, com o olhar na casa comum!
  6. Retomar a opção preferencial pelos pobres. Esta é a bússola da Fratelli Tutti: a fraternidade e a amizade social. É um projeto de humanidade. Com atenção aos descartáveis. Não por ideologia, mas pelo Evangelho. A parábola do bom samaritano muito nos pode ensinar a este respeito. No caminho de qualquer missão, há um homem à beira da estrada, caído e ferido, a espera de quem o cuide. Cada cidadão é um estrangeiro. Esta é uma pauta importante para uma pastoral, uma missão e uma igreja, pós-coronavírus. Por onde começar? “Quando se trata de recomeçar, sempre há de ser a partir dos últimos” (Fratelli Tutti, 235, e ainda 78).

    Por tudo isto, “é tempo de um novo Isaias, que, atento aos rumos da vida, indique um caminho novo e a libertação para todo o meu povo!” (Luizinho). Advento: tempo de um novo Isaias, com o olhar nos pobres da terra!

Dom Pedro Brito Guimarães

Arcebispo de Palmas – TO

Palmas, 30/11/2020

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