Arquidiocese de Palmas

› 16/02/2021

EU AMO A CAMPANHA DA FRATERNIDADE

 

O amor é a base e está na base de tudo em nossa vida. Sem amor não poderíamos nascer e nem saberíamos viver. Sem amor nada tem sentido, nada tem valor. Entre muitos dos meus amores, está a Campanha da Fraternidade. Eu amo a Campanha da Fraternidade. E “qualquer amor já é um pouquinho de saúde” (Guimarães Rosa). E “o amor é a saúde da alma” (São João da Cruz).

Meus primeiros passos vocacionais coincidiram com uma Campanha da Fraternidade. Em 1973, estudante do último ano do antigo ginásio, na cidade de Floriano, escutei e rezei, de ouvidos e de coração, os cantos da Campanha da Fraternidade daquele ano: “Nós queremos ser teu povo, Senhor, Senhor, Senhor, e queremos ser de novo testemunhas do amor. O amor liberta o coração da gente e faz o mundo caminhar alegremente”. E “o vosso coração de pedra se converterá em novo, novo coração. Tirarei do vosso peito vosso coração de pedra, no lugar colocarei novo coração de carne”. O lema desta Campanha da Fraternidade era: “O egoísmo escraviza, o amor liberta”.

Três anos mais tarde, eu estava no Seminário Menor, em Oeiras. Era o ano de 1976. Novamente a Campanha da Fraternidade embalou meus primeiros sonhos eclesiais e vocacionais. A Campanha da Fraternidade daquele ano tinha como lema: “Caminhar juntos”. E os cantos eram: “Juntos como irmãos, membros da Igreja”: “Sabe, Senhor, o que temos é tão pouco pra dar”; e “Eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação”. Como posso me esquecer destes cantos que alimentaram minha adolescência vocacional? Eles chamaram a minha atenção e ainda estão gravados no meu “HD”. Tanto assim que ainda sei de cor as letras e as melodias, sem errar e sem desafinar. Participei de vários concursos de músicas para as Campanhas da Fraternidade e ganhei com quatro canções: uma da Campanha sobre a Comunicação, duas sobre a Juventude e uma sobre o Negro.

A Campanha da Fraternidade é um patrimônio, é o maior projeto sócio-evangelizador da Igreja Católica no solo brasileiro. Não estou fazendo nenhuma teoria conspiratória. Estou falando da minha vida e testemunhando minha caminhada vocacional. De propósito, não vi e nem li as críticas à Campanha da Fraternidade/2021. Também não pretendo vê-las e nem lê-las. É que já virou moda, já é um fato recorrente, os “caçadores de doutrinas”, de plantão, detonar a Campanha da Fraternidade. Poderiam fazer mais pela Igreja se ficassem calados. Não é o caso. Às vezes, tenho a impressão de que eles querem palanques e mídias, já que não possuem altares. Tenho pena deste tipo de pessoa. Soube que os textos básicos desta polêmica são os números 67 e 68. Você sabia que o Texto Base da Campanha da Fraternidade é escrito, à luz do método ver, julgar e agir? E que estes números polemizados fazem parte do ver? E são citações de Documentos que dizem que são estas pessoas as mais atingidas pelos sistemas de violência?

Meus mestres sempre me disseram: “Texto fora do contexto, vira pretexto”.  Parece mentira ou ironia do destino, mas é verdade. No Manual que comprei, estes números não existem. Do número 59 passou-se para o número 71. Se alguém duvidar do que estou afirmando, posso provar, com foto. Talvez Deus tenha me preservado dos pecados ideológicos. Como disse o Papa Francisco: “Deus se contaminou com nossa humanidade ferida”, (por isto, é preciso), “como Jesus, ter coragem de ‘transgredir’ por amor” (Angelus, em 14/02/2021). Não é censura a omissão da dura realidade, na qual vive as pessoas nominadas nestes números? Censura é crime e fake news, além de crime, é pecado. E sabia que o ver invoca o olhar amoroso, o julgar, o olhar cuidadoso e o agir, o olhar esperançoso?

Além do mais, a Campanha da Fraternidade descreve um Gesto Concreto, no Domingo de Ramos, dia 28 de março, fruto da nossa conversão: a Coleta da Solidariedade. Quem mais são penalizados sem esta Coleta serão os pobres. São eles os primeiros beneficiados com os projetos financiados pelo Fundo Nacional de Solidariedade.

Eis aqui o desafio que se nos impõe: uma Campanha que deveria ser da Fraternidade se torna cada dia mais em campanha da inimizada e da “fraticidade”. Creio que todas estas querelas são ingredientes para a nossa conversão. Conversão é mudança de comando. “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14).

Por fim, não quero acirrar ainda mais as polêmicas. Apenas quero deixar registrado, nos anais da história, que amo a Campanha da Fraternidade. Numa Campanha como a deste ano que tem como tema central o diálogo, é duro ver e ouvir todas estas celeumas. Por isto, concluo esta minha declaração de amor à Campanha da Fraternidade, repetindo o que muitos já disseram: o diálogo é o coração desta Campanha da Fraternidade. E o que estamos assistindo, quase que passivamente, é a falta de diálogo.

Dom Pedro Brito Guimarães

Arcebispo de Palmas – TO

 

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