Arquidiocese de Palmas

› 20/04/2020

O BOM PASTOR E OS SEMINARISTAS

 

Dom Pedro Brito Guimarães,

Arcebispo de Palmas – TO

 

Caros seminaristas, tenho sede!

 

Ontem, bem cedinho, depois de muitos dias, talvez por causa da Semana Santa e do isolamento sócioeclesial, decorrente do covid-19, um parceiro meu, de belas canções, padre Wallison Rodrigues, mandou-me uma mensagem no WhatsApp. Inicialmente, falou-me de um trabalho que estamos fazendo juntos. Em seguida, falou-me da estranheza da Semana Santa, de portas fechadas e sem povo, da falta de calor, de sabor e de luminosidade… E, enfim, no áudio seguinte, depois de um breve respiro ou suspiro, disse-me, mais ou menos, assim: “Eu estava pensando, entre uma coisa e outra, a gente poderia pensar em um canto para os nossos seminaristas (…) Ninguém tem vocação para ser seminarista. Um hino vocacional que abraçasse aquelas etapas da vida daqueles rapazes…” Foi a gota d’água que faltava para aflorar e despertar em mim aquela velha veia poética, um pouco adormecida, por conta também do isolamento que estamos vivendo.

Em seguida, fui celebrar a missa no nosso Seminário Propedêutico, onde residem atualmente sete seminaristas que, com êxito e galhardia, atravessaram este tempo de confinamento. Pensei em todos os outros seminaristas que interromperam o tempo de formação e estão isolados, como eu, mas sem a maturidade e a experiência de vida, suficientes para entender o que está se passando no mundo.

Pensei no jovem Samuel. E pensei até no jovem Davi, com a funda apontada para Golias. Uma baladeira na minha mão, pode não fazer nenhuma diferença, mas na sua mão, abateu o gigante. Tive, finalmente, diante dos meus olhos – não sei o porquê -, o famoso conto de Hermann Hesse, “Sonho de uma Flauta”, e o Salmo do Bom Pastor (Sl 22), em cujo cabeçalho está escrito: “O Cordeiro será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida” (Ap 7,17). Aparentemente, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas, na mão de um sedento poeta (que não é o meu caso), tudo tem muito a ver.

Pensei em compor este canto para os seminaristas confinados. Ainda não terminei. E, pelo andar da carruagem, acho que vai demorar ainda um pouco de tempo. Nem me arrisco a dizer mais nada do que isto…

Antes, porém, queria dizer a todos os seminaristas do mundo (ousadia demais!) que esta certamente deverá ser uma das primeiras batalhas a ser vencida. Depois virão outras. Batalhas estas que não serão vencidas com retóricas e ideologias, nem com a “força de cavalo” e nem com voluntarismo. O discernimento será uma arma poderosa a nosso favor. E talvez nem somente com orações, caso não tivermos outras atitudes: “este tipo de demônio não se expulsa a não ser com oração e jejum” (Mc 9,29).

Este tempo não é um tempo ocioso. Aliás, há um padre da Igreja que afirmou que um pouco de ócio faz até bem a gente. Antes de mais nada, começo meus aconselhamentos a vocês, seminaristas, recordando a trilogia, da qual gosto muito, que se tornou dois livros do meu amigo, padre Wellistony Carvalho Viana, Diretor Espiritual do Pontifício Colégio Brasileiro, em Roma. A primeira é do escritor latino, Plínio, o Velho: “nem um dia sem palavras” (nulla dies sine linea). E, inspirado nela, o autor elaborou mais duas fases lapidares: “nenhum dia sem oração-meditação pessoal” (nulla dies sine meditatione) e “nenhum dia sem um gesto de caridade” (nulla dies sine caritate). Palavra-meditação)oração)-caridade, um santo remédio, para curar as nossas feridas, em tempo de pandemia. A primeira, ajuda a alongar o cérebro; a segunda ajuda à prática da oração mental; e a terceira ajuda à prática do amor social. Boas leituras, momentos fortes de oração e quaisquer trabalhos voluntários. Ofereçam o que vocês têm de melhor ou sabem fazer às suas Igrejas. Perguntem: em que podemos ajudar? Vocês sabem usar as redes sociais mais do que nós? Nos ensinem! Sabem rezar melhor e mais do que nós? Rezem com e por nós! Têm suficiente tempo para leituras? Leiam os nossos escritos! Gostam de visualizar e de postar matérias nas redes sociais? Vejam aquelas mais edificantes e formativas! Receberam tarefas dos professores, dos formadores e dos bispos? Cumpram-nas fielmente! Amam a missão? Ajoelhem-se! Gostam de palavras cruzadas? Joguem-nas! É um bom passatempo, além de cultural. E não se esqueçam de exercícios físicos para descongestionar o corpo e descansar a mente. Dizia um amigo meu: “tenha medo de crítica de mente cansada”. Por fim, não deixem cair os sistemas imunológicos. Quaisquer doenças podem ser fatais.

Nestes tempos difíceis, é importante lembrar que Deus nunca permite um mal sem poder tirar dele um bem maior. Qual será o bem que podemos tirar desta pandemia? Pensem nisto, em níveis pessoal e planetário. Como seria belo se a humanidade aprendesse que estamos num mesmo jardim, somos uma mesma família, uma mesma espécie ameaçada por um ínfimo inimigo comum. Sim, nós não somos o inimigo, nem o migrante, nem o sírio, nem o palestino, nem o judeu, nem o ateu, nem o muçulmano, nem o negro, o índio e o branco, nem o partido de direita ou aquele de esquerda. Estamos todos no mesmo barco, chamado Planeta Terra e pertencemos à mesma raça humana. E como tudo isto vale também para o nosso querido Brasil! Nesse tempo, seria bom pensar sobre o que nos une e não alimentar aquilo que nos divide. Se vamos aprender esta lição ou não, vai depender de cada e de todos. Uma coisa é certa: nós, como Igreja, temos um papel fundamental para ajudar nosso povo a encontrar o caminho da unidade, que começa sempre por nós mesmos. Quem, senão o Pastor do rebanho, poderá reunir suas ovelhas num mesmo aprisco? Lembrem-se, pois: vocês serão os futuros pastores deste povo disperso!

É oportuno também aqui registrar a frase, retirada da canção “Amor de Índio”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos: “abelha fazendo mel vale o tempo que não voou”. Vamos então produzir bons méis nos nossos confinamentos para adoçar e salvar vida, pois, mais vale um seminarista, qual abelha fazendo mel, do que mil agitados e estressados.

Aproveito a oportunidade para recordar que quando o Papa Francisco disse que “tudo está interligado” (LS 16), para o bem e para o mal, muitos retorceram os pescoços e menearam as cabeças. O que está acontecendo com a nossa casa comum? Mexeu com um, mexeu com todos. Não está na hora de a Ecologia Integral fazer parte do currículo dos estudos seminarísticos?

E, por fim, não tenham medo da solidão e do silêncio. A solidão e o silêncio, se verdadeiros, fazem muito mais bem do que mal. Não esqueçam que amamos vocês, de coração de todo o coração. E que a Igreja caminhará com os pés de vocês, num futuro muito breve.

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