Arquidiocese de Palmas

› 22/05/2020

O PROTOCOLO: COMO ESTUDAR EM TEMPO DE PANDEMIA

“Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão por eles, porque eram como ovelhas sem pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6,34). Assim começa a narrativa da multiplicação dos pães e dos peixes. A uma multidão, faminta e sedenta, Jesus, primeiramente, deu de comer o pão da sabedoria. Sei muito bem o que significa estudar. O que mais fiz na minha vida foi estudar. E ainda hoje estudo. Nasci numa “Escola”. Nunca fiz curso on-line. Além de ser prazeroso, estudar é também um trabalho minucioso, empenhativo e custoso. O estudo é o trabalho diário de um seminarista. Os Seminários funcionam quase como uma espécie de “Academia”: começam quando começam as aulas e terminam quando as aulas terminam.

E agora, fechados, e os bancos dos Institutos vazios, o que fazer?

O nosso cotidiano mudou ou mudará, ainda que temporariamente. Já não vivemos mais como vivíamos há pouco mais de três meses. A pandemia desconsertou o mundo. Fala-se hoje que “o estranho é o novo normal”. O que isto significa? Como viver em um mundo estranho? E o que a atual situação nos pede para mudar ou ressignificar?

O que não deve mudar é a vontade de nos preparar, pelos estudos, para as novas oportunidades que surgirão quando ultrapassarmos as curvas deste tsumani. Tempo de pandemia não é tempo para se perder tempo. A situação em que vivemos pode parecer a melhor fase da nossa vida para deixarmos de estudar. O sofá pode parecer ser o melhor lugar da casa para estarmos ou sentarmos. Mas, é exatamente o contrário. O melhor lugar para sentarmos é no “Banco da Escola”. O estudo presencial ou on-line, ou remoto, ou virtual ou à distância, como queiramos chamar, é a chave que abre as portas que dão acesso às oportunidades do futuro. Um dia, esperamos que seja logo, haverá um depois, um pós-pandemia. E o que fazer? Estudar é investir em nós mesmos. Tudo na vida é movido por motivação. Sem motivação não se chega a lugar nenhum.

Eis, pois, dez singelas, mas valiosas, sugestões para o estudo remoto, em tempo de pandemia:

  1. Saber manusear as redes sociais. Estamos quase todos isolados, social e eclesialmente. Um dos meios que temos à nossa disposição para nos comunicar é a Internet. Confirmamos o que já sabíamos, que o Brasil tem uma péssima cobertura de redes de Internet. Além de ruim, é cara. Lembremos que os mass medias foram chamados de “novos areópagos” e de “aldeias globais”, por São João Paulo II (RM 12 e 37) e de “dom de Deus”, pelo Papa Francisco. Temos que aprender a utilizá-los para o bem, para a evangelização, inclusive, para estudar. Se há algo que podemos achar de “positivo”, nesta pandemia, é o que a fé cristã sempre nos ensinou: valorizar o tempo presente, o hoje, o cotidiano, o aqui e agora, como kairós, e não simplesmente como cronos, para lamentações e tristezas. Este tempo de pandemia é ainda tempo de Deus. É tempo para contemplarmos e lermos os sinais de Deus. Olhemos para a figueira preparada para a floração (Mt 24,32-36) e para a estéril (Mc 11,12-14), para os lírios do campo (Lc 12,27), para os pássaros do céu (Mt 6,26) e para os campos, maduros para a colheita (Jo 4,35) e não simplesmente imitemos as crianças sentadas nas praças (Lc 7,31-32). Quando eu era seminarista, aprendi a rezar a Liturgia das Horas, num Livro chamado de “Oração do Tempo Presente”. Chegou a hora de valorizarmos mais o tempo presente.
  2. Criar rotina de estudo. Significa: ter disciplina. Não é hora de deixarmos hábitos e disciplinas para depois. Não haverá campainha para tocar, nem reitor ou diretor de estudos para monitorar e tutorar os seminaristas. É hora do exercício do protagonismo. É esta exatamente a hora do discernimento vocacional. Sugiro que se aplique o método chamado de “pomodoro” (tomate) de estudos: estudar, por 20 minutos, sem distração e, em seguida, fazer uma pausa de 5 minutos (sem redes sociais ou jogos, pois, dispersam a concentração); depois mais 20 minutos de estudos e 5 de pausa; na quarta vez, faz-se uma pausa mais longa (15 a 30 minutos) e se recomeça o ciclo (para mais detalhes deste método, pesquisar no Google).
  3. Fugir dos ruídos e das distrações. Estudar em casa, quando outros membros da família estão ocupados com outros afazeres, não é tarefa fácil. É um desafio. O que fazer para não transformar a casa em “escola?” É preciso, ao menos, fazer um pacto com a família para evitar as distrações desnecessárias. Veja como a mãe prepara as refeições. A sua atenção, as suas energias e os seus pensamentos estão voltados para os seus instrumentos de trabalho: os alimentos, as panelas e o fogão. Do contrário, a comida queima. Isto exige treinamentos mental, corporal e manual. Fugir das distrações é estipular horários e prioridades. Eu quase que diariamente faço exercícios físicos na esteira. Antes de começar, estipulo quanto tempo vou ficar em exercícios. E pode doer o que doer, mantenho-me no acordado comigo mesmo. Costumo dizer que o infiel é primeiramente infiel a si próprio. Só depois é infiel a outras pessoas. Como já dissemos, estipular pausas saudáveis para respirar, oxigenar o cérebro, exercitar o corpo, beber e comer algo saudável e depois, voltar aos estudos.
  4. Apostar no intercâmbio e troca de saberes. Em tempo de estudo remoto, são três graus de corresponsabilidades: o da diocese, o do professor e o do seminarista. Por questão de brevidade, destaco, sobremaneira, a responsabilidade individual de cada seminarista. Para fazer frente ao isolamento, do qual estamos enjoados e reclamando, é louvável usar, como método, o intercâmbio ou a troca de saberes: aperfeiçoar os conhecimentos tecnológicos, aquisição de instrumentos, formar grupos de estudos, assistir a videoconferências, fazer live para compartilhar saberes e sabores. As plataformas digitais possuem e permitem muitos intercâmbios culturais complementares aos estudos seminarísticos.
  5. Criar estratégias e protocolos. A ciência indispensável para este tempo de estudo remoto ou à distância é a matemática, o instrumento fundamental é o relógio, e a virtude é a perseverança. Pensar que vai transformar a casa em uma sala de aula, como em um passe de mágica, é mera ilusão ou ficção. É preciso ajustar as expectativas com as condições objetivas, sem nivelar por baixo. Não existe milagre passar de uma educação presencial para outra on-line. Entre as duas, há um abismo que as diferenciam. O virtual nunca substitui o presencial. O virtual está numa escala inferior à do presencial. Estudaremos à distância porque no momento é o único meio possível. Este é para nós, cristãos, um tempo de êxodo e de deserto. É bom verificar e perceber como o povo de Deus passou pelo deserto, rumo à Terra Prometida e como Jesus, no deserto, venceu as tentações.
  6. Acreditar mais na ciência da educação à distância. Existem pesquisas que afirmam que quem mais se beneficia com o estudo à distância é o aluno mais dotado e mais dedicado. O menos, se beneficia menos. Dito de outra maneira: quem mais precisa se beneficia menos. Daí que, o esforço de quem tem mais dificuldade na aprendizagem é maior. O ensino remoto não substitui o presencial. Mas, é possível e tem o seu devido valor. Permita-me apenas acenar aqui o método, tão antigo e novo, de ensinar: o método da parteira, a maiêutica socrática. É preciso ajudar o seminarista a fazer o trabalho de parto e a dar à luz. Esta é a missão do educador.
  7. Estudar, à distância, é mais caro, mais demorado e mais complexo. Professores e alunos têm que se habilitarem para a arte de ensinar e de aprender, à distância, neste tempo de distanciamento. Requer criatividade e diversificação. Apostar na educação pelas redes sociais exige investimentos: aprender a utilizar as ferramentas das novas tecnologias, ter acesso à Internet de qualidade, a computador ou smartphone, a livros e a outros materiais e a muitos outros instrumentos pedagógicos e didáticos. Serão necessários investimentos, de acordo com as suas condições financeiras. Sugiro menos aulas, menos conteúdos, mais metodologias e estratégias, e mais interação com o universo e a cosmovisão dos seminaristas. Neste caso específico, o “menos é mais”.
  8. Pensar menos no conteúdo, mais na didática e mais no aluno: em todos eles. Este é literalmente um trabalho em redes. Os seminaristas não são números estatísticos, são pessoas, chamadas por Deus. Lembrar de seus nomes, de suas fisionomias e das suas dificuldades. A desigualdade educacional dos nossos seminaristas é enorme. Eles já estão fragilizados emocionalmente. O estudo à distância não deveria aumentar ainda mais estes seus graus de estresse. É preciso cuidar mais das pessoas físicas do que simplesmente das pessoas virtuais. Outra sugestão que dou aos seminaristas é não deixar matérias e leituras acumuladas, estudando o que tem que ser estudado, no horário que aquela disciplina seria lecionada presencialmente. A título de exemplo: História da Igreja é toda terça-feira pela manhã? Então este é o melhor dia e horário para se dedicar a esta Disciplina.
  9. Transformar o estudo remoto em caminhos de crescimento vocacional. A formação presbiteral se dá em um processo de intercâmbio de dimensões. A Filosofia é a fase do discipulado e a Teologia é a fase da configuração, como reza a Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis. O processo formativo não foi interrompido com a pandemia. Foi apenas redimensionado. A formação intelectual é uma dimensão da formação que deve ser mais valorizada. É uma e não é a única. Mas não é tempo para subestimar as outras dimensões da formação. As dimensões litúrgico-espiritual, humano-comunitária, pastoral-missionária não entram de férias. Lembremos aqui de duas regras clássicas: “A verdadeira Filosofia se faz de mentes abertas”. E “a Teologia autêntica se faz de joelhos dobrados”. Esta é a hora do protagonismo vocacional. Esta é a primeira, espero que seja a única grande crise, pela qual passarão muitos de nossos vocacionados. Na atual situação de distanciamento eclesial, é bom considerar o que disse Dom Rino Fisichella: “a fé precisa dos sentidos. É preciso, por mais paradoxal que pareça, ver, ouvir e tocar o cheiro do incenso”. É preciso ajudar os seminaristas a vencer, com esmero, este tempo de pandemia vendo, ouvindo, tocando e sentindo os cheiros do incenso e das ovelhas.
  10. Ir sempre para a revisão. Os estudantes – professores e seminaristas – devem estar em condições de perceber o que deu e o que não deu certo, dar e participar de aulas pelas redes sociais. E devem ter a coragem de ir à revisão, de mudar de compostura e de posicionamento. Neste ponto, gostaria de sugerir que, quando passar a pandemia, mesmo tendo o “estranho como novo normal”, valorizássemos ainda mais o ensino presencial, que está muito desprestigiado e depreciado pelo virtual. É comum ver que, enquanto o professar está no presencial, o aluno está no virtual, ou vice-versa. Creio ter chegada a hora, e é agora, para respondermos a esta pergunta que fiz, no artigo que escrevi, anteriormente, que pouca gente se deu conta: esta situação é passageira, é algo para ficar no passado, nos registros de nossos livros de memórias, ou é um fenômeno que nos assusta e nos preocupa para o futuro?

E, para finalizar, gostaria ainda de dizer que este é um tempo que exige mais leveza educacional. Nada de muitas exigências, quase impossíveis. É preciso ouvir mais os poetas. Valeria a pena ler, ao menos, as poesias, contidas na Querida Amazônia, do Papa Francisco. Quando muitos de nós apostávamos em um Documento, meramente doutrinal, o Papa nos surpreendeu com uma Carta de Amor. Lembrei-me aqui de uma antiga canção sertaneja, da dupla Duduca & Dalvan, chamada de “Espinheira”, que diz, entre outras coisas: “o mundo não acaba aqui. O mundo ainda está de pé. Enquanto Deus me der a vida, levarei comigo esperança e fé”.

“É assim que eu conheço Cristo, a força da sua Ressurreição e a comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se chego até a Ressurreição dentre os mortos” (Fl 3,1-11). Concluo, citando um provérbio, de domínio público: “o medo é o pior conselheiro”: o é nas questões práticas, o é nas questões teóricas e também o é na verdade e na liberdade dos filhos de Deus. Prossigamos, nesta odisseia, “alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração” (Rm 12,12). Tudo isto vai passar, ainda que agora seja noite.

Dom Pedro Brito Guimarães,

Arcebispo de Palmas – TO

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