Arquidiocese de Palmas

› 09/09/2019

“QUEIMADOS, QUEIMADOS, MAS NOSSOS”

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas

 

Dizem que “Amazônia” é a palavra mais usada recentemente. E os motivos são fáceis de serem compreendidos. É que a palavra mais próxima de “Amazônia” hoje é “queimada”.

Já estive duas vezes em Timor Leste, não como turista, mas por missão. Aquele pequeno e bonito país, situado numa ilha do Pacífico, doze horas de fuso horário, com relação ao Brasil, sempre foi objeto da cobiça por causa do petróleo, do sândalo, da cortiça e de outras riquezas naturais. Antiga Colônia de Portugal, quando se tornou independente, foi invadida pela Indonésia. Depois de 27 anos de ocupação, por pressões local e internacional, ao se retirar do Timor, pôs gasolina em helicópteros, sobrevoou campos e cidades e ateou fogo, queimando indistintamente a quase tudo. Muitas pessoas, sobretudo, as que não puderam fugir das labaredas, morreram queimadas.
Os historiadores, para deixar como memória, escreveram um livro e o deram o título de “Queimado, queimado, mas nosso”.

Pego este gancho para manifestar a minha profunda indignação pelas queimadas que estão destruindo o Cerrado e a Amazônia. As belezas e as riquezas de suas biodiversidades são transmudadas em chamas, cinzas, poeiras, carvões, fumaças e fuligens. Trata-se, pois, de um verdadeiro ecocídio.

Seria bom se esses desmatadores e tocadores de fogos nos vissem, nós e o meio ambiente, a fauna e a flora, interligados, como se fôssemos um – “eu e eu” – com todos os direitos à vida respeitados e preservados. É isto que denominamos de ecologia integral.

Queimados, queimados, mas nossos. Não porque somos donos, posseiros e dominadores, mas parceiros, cuidadores e guardiões. Foi esta a missão que solenemente recebemos do Criador, no dia da criação.

E, para finalizar, sugiro a leitura e a meditação destes preceitos ecológicos, atribuídos ao padre Cícero:
1) “Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau;
2) Não toque fogo no roçado nem na caatinga;
3) Não cace mais e deixe os bichos viverem;
4) Não crie o boi e nem o bode solto; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer;
5) Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água de chuva;
6) Não plante em serra a cima, nem faça roçado em ladeira que seja muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca sua riqueza;
7) Represe os riachos de 100 em 100 metros, ainda que seja com pedra solta;
8) Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só;
9) Aprenda tirar proveito das plantas da caatinga a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca;
10) Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer, mas se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só”.

A natureza não é suja para ser limpa e nem lixo para ser queimada. Nem lixo a gente queima. Paremos então de queimar a nossa casa comum. Está comprovado que quem respeita a natureza vive muito mais feliz. Que a sabedoria deste tipo de pessoa nos salve das nossas insanidades ecológicas.

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