Arquidiocese de Palmas

› 19/06/2020

RECOMEÇAR A PARTIR DA BRISA SUAVE

No alto dos meus 100 dias de confinamento, li com gosto, satisfação e proveito espiritual, a pequenina parábola de Elias, na gruta, aos pés do monte de Deus, o Horeb (1Rs 19,9a.11-16). Para mim esta é a parábola da humanidade, neste recomeço pós-pandemia. Faz tempo que não escuto um profeta. Me fará bem escutá-lo. Gosto muito da figura de Elias. Sua história tem muito a me ensinar. Ele é chamado: “homem de Deus” (2Rs 1,9.11). Jesus é confundido com ele (Mt 16,14). Elias passou a noite, numa gruta, noite esta cheia de revelação e de inspiração. O profeta está convicto de que o Senhor irá passar por ali. Por causa desta sua convicção, se deslocou da gruta para o cimo do monte. E de fato, Deus passou, não como ele pensou, mas como Deus é e age: “provai e vede quão suave é o Senhor” (Sl 33,9). Deus não se revelou no vendaval, no terremoto e nem no fogaréu, mas no murmúrio de uma brisa suave. E não fez discurso de aprovação ou de reprovação da atitude de Elias. Apenas lhe perguntou: – O que estás fazendo aqui, Elias?” (1Rs 19,13b). E a sua resposta foi: “Estou inflamado de zelo pelo Senhor (1Rs 19,14). Apenas esqueceu de dizer que estava fugindo, com medo, e se achando o único fiel. O Papa Francisco denomina esta atitude de Elias de autorreferencialidade.

Há aqui um achado, uma mina ou uma fonte de sabedoria bíblica para as nossas fases pós-pandêmicas. Estas previsões que Elias teve de Deus são as teografias de suas passagens pelas fases de nossas vidas. Que fases são estas? Quais são as teografias de Deus que estão passando por nossos montes, nossas grutas, nossas vidas, nossas cabeças e nossos corações? O Deus do vendaval, do temporal, do fogaréu ou o da brisa suave? Por algumas delas, neste tempo de confinamento, nós passamos ou prevemos passar, mais cedo ou mais tarde.

O mais belo desta parábola é o seu final, quando Deus indica a Elias por onde ele deveria recomeçar: “Vai, toma o teu caminho de volta, na direção do deserto de Damasco. Chegando lá, ungirás os reis da Síria e de Israel e o profeta Eliseu” (1Rs 19,15-16). Não seria esta a indicação que o Senhor, ao aparecer a nós, nos daria? Nosso recomeço seria voltar ao deserto e ungir. Esta é a nossa brisa suave. O mundo está chorando por unção. O mundo está clamando por missão. Unção é o mesmo que dom, carisma, graça, inspiração, bom fluido e missão. Elias era um ungido. Por isto, podia ungir. Em linguagem sacramental, só quem é ungido pode ungir.

Lembrei-me do Círculo Menor, durante o Sínodo para a Amazônia, no qual eu fui moderador, durante o qual foi feito o pedido para que os diáconos permanentes pudessem ministrar a Unção dos Enfermos. Neste caso especifico, o diácono não pode ungir porque no rito de sua ordenação, não é ungido. Quem não é ungido não pode ungir. Mas muitos de nós podemos e devemos. Ninguém é ungido para massagear o seu ego, mas para ungir. Somos ungidos para ungir. É como diz o Papa Francisco: “Ungimos, distribuindo-nos a nós mesmos, distribuindo a nossa vocação e o nosso coração (…) Aquele que aprende a ungir e a abençoar fica curado da mesquinhez, do abuso e da crueldade” (…) “Enquanto ungimos, somos de novo ungidos pela fé e pela afeição do nosso povo” (Missa do Crisma, 18/04/2010).

O novo coronavírus ainda não está morto. E o pior é saber que irá virar endemia. A metade da palavra “con-finado” é “finado”. Este vírus não é tão letal quanto são letaisl os vírus sociais e políticos. Só depois de muitos anos é que poderemos saber, com certeza, quais efeitos nefastos ficarão registrados nas memórias das novas gerações, adultos, jovens e crianças.

Conversando com vários amigos, perguntei a eles: por onde recomeçar? Quais seriam as condições ideais para recomeçar? Quais os parâmetros para o recomeçar: o que passou ou o que está apenas acontecendo? “O passado é uma roupa que não nos serve mais?” (Belchior).  E eles me responderam: recomeçar do essencial, entre quatro paredes, da família; recomeçar da espiritualidade; recomeçar da maturidade das relações humanas; recomeçar da solidariedade; recomeçar do deserto e da unção; recomeçar da contemplação, da reconciliação e da harmonia com a natureza; recomeçar dos mais pobres; recomeçar do analógico para o digital: a #, o .com …; recomeçar da redescoberta das nossas habilidades:

o que sei fazer? O que posso fazer? O que consigo fazer? Resumindo: recomeçar da brisa suave da unção. Esta não seria a oportunidade para compreendermos o que disse o Papa Francisco com o neologismo “primeirar” (EG 24), ou seja, tomar a iniciativa? A “gramática” para o recomeço passa necessariamente por um pacto eclesial, cujo nome é sinodalidade. Desta pandemia ninguém sairá sozinho, isolado; nem sairemos ilesos dos efeitos nocivos desta pandemia. Ou saímos juntos ou perecemos todos igualmente. Esta não seria a hora de a Igreja assumir a sua condição de tutora e de curadora? Gostei muito da expressão do Papa Francisco, na sua Mensagem para o Dia Mundial das missões 2020: “É preciso quebrar espelhos e abrir janelas”.

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