Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Missão na Estação Palmas

Com certeza você já ouviu a belíssima música Encontros e despedidas, música de Milton Nascimento e Fernando Brant; já era linda na voz de Milton Nascimento, mais prazeroso ainda de se ouvir, nos últimos tempos, na voz de Maria Rita, doce e angelical. Difícil o brasileiro que não tenha escutado esta canção. Ela foi tema de abertura da novela global Senhora do Destino, 2009. A composição é minha dica para quem deseja conhecer Palmas à partir do coração; conhecer a sua alma e sua gente, pois a música nos traduz bem a gama de sentimentos de muitas pessoas, que aqui chegam, partem ou ficam, se acertam ou arrebentam, fracassam ou triunfam.

Erros e acertos. Este é o nosso contexto de vida. Nele é que estamos inseridos, e como cristãos conscientes de nossa missão evangelizadora, somos chamados a procurar motivação e caminhos para corresponder aos apelos deste mês de outubro, que está findando, e nos diz a todos: “evangelizar”.

Os desafios são grandes. Propor o Evangelho, um novo modo de viver, à uma população inconstante e em vias de construir sua própria tradição, não é tarefa fácil. Há muita sede, muita água, mas o recipiente parece ser reduzido para abarcar, pouca tina para recolher. Falta aderência nas pessoas, a cola parece ser de bastão.

Acabei de ler o livro do escritor e sociólogo polonês Zigmunt Bauman, intitulado “O Amor Líquido”. Muito bom! Uma outra boa dica. Muito bem contextuado, ele trata da fragilidade dos laços humanos no contexto das relações dentro de um mundo globalizado. Segundo Bauman, tudo parece estar liquefeito, e isso é possível constatar, seja aqui no coração do serrado ou em qualquer outra parte do mundo. As relações sociais vão tomando um novo rumo e a sensação de não se poder conduzir o processo, nos torna impotentes.

Com certeza, estamos em época de formar nova identidade, novo rosto para humanidade. Ideologias, sistemas econômicos, formas de governo e esquemas religiosos, tudo isso passará.

Estamos assistindo ao que virá. Estamos bem na fronteira. Só não podemos ser expectadores passivos, gente que fica em cima do muro. Se o lugar do trabalhador é o seu campo de atuação, então o que não nos falta é mercado de trabalho. Diante do desafio temos a indicação de Jesus: “Levantai os olhos e olhai para os campos, já estão prontos para a ceifa” (Jo 4,35). É o mestre quem nos aponta, aquele a quem você e eu, chamados cristãos, entramos para o seguimento.

Jesus tinha plena consciência da missão recebida do Pai. Missão de ir ao encontro do homem e salvá-lo. Em certa ocasião, no exercício dessa mesma missão, Jesus após levar seus discípulos para uma experiência de oração, sai ao encontro da multidão e dela se compadece. O evangelista são Marcos explica o porquê dessa compaixão: “Eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,30). Lhes faltava tudo: o rumo, a direção; atenção, carinho, relacionamento fraterno; sentirem-se gente, pessoas amadas. Estavam sofrendo, e Jesus se colocou no lugar deles, sofredores, assumindo como suas, as dores que sentiam.

O nosso mundo nunca foi tão bonito e tão cheio de inventos grandiosos. Tecnologias inovadoras, informatização, comunicação e meios de transportes eficazes fazem parte do nosso dia a dia. A vida mudou e está para melhor, as distâncias diminuíram e a medicina está prolongando a vida de muita gente. Mas este mesmo mundo tão inédito e que fascina, ao mesmo tempo cria situações que seduzem, prendem e escravizam. Cada época parece trazer a sua contribuição positiva, mas também oferece os seus riscos.

Nossa missão recebida do Cristo “Ide e fazei discípulos” (Mt 28,19) é prolongamento da missão confiada pelo Pai. Nosso olhar deve, portanto, estar focado no mesmo objetivo e centro da missão de Jesus Cristo, ou seja, o amor ao próximo, participar de suas angustias e necessidades, no ter compaixão do outro.

Jesus chegou, e interessante, não se influenciou pela época, foi ele quem mudou uma época. A cada geração que se sucedeu, os cristão atravessaram o tempo. Não rejeitando as novidades e inovações, mas passando por elas sem se deixarem arrastar ou escravizar. Onde estaria está força renovadora e motivadora que atravessou os séculos? Não estaria ela na fonte de onde procedeu o mestre e de onde ele constantemente se alimentava?

Jesus não perdeu a identidade que trazia consigo. Plenamente identificado com o Pai e sua missão, viveu no mundo como estrangeiro e voltou para o seio do Pai glorificado, ou seja, tendo concluído sua missão. Assim também nós, em nosso tempo, não somos diferentes. Somos convidados a intimidade com Deus. Um Deus único, que, no Filho e através do Espírito Santo, torna-se fonte de graça renovadora para a missão. É em Cristo e com Ele que devemos manter a identidade, através da oração. Conscientes de estarmos mergulhados num mundo tribulado, nele é que devemos depositar a nossa fé (Jo 16,33).

Levar a Boa Nova às pessoas hoje é levá-las a fazer a experiência do amor de Cristo. O meu encontro com Cristo, minha experiência pessoal, a vida nova que me atingiu, a presença do Reino que nos envolveu, devem ser elementos base de todo anúncio. Não tenhamos medo dos novos paradigmas que apresente a sociedade nascente, pois o modelo de vida proposto pelo evangelho é válido para qualquer tempo que venha surgir. O Reino de Deus é feito de valores, e os sinais da presença do Reino se dão, justamente, na contradição com o espírito do mundo.

Não tenhamos medo do futuro, do incerto ou do terreno desafiador da missão. Levamos às pessoas, não a nós mesmos, mas uma outra pessoa, a pessoa de Jesus Cristo. À esta pessoa é que se deve aderir e se identificar; é à luz de sua Palavra que se deve deixar orientar e conduzir. Somos operários, somos frágeis instrumentos, mas potencializados e acompanhados por aquele que nos agraciou e enviou (2Cor 4,7).

Então vamos lá! Se a vida em Palmas pode ser comparada a uma grande estação, podemos, ainda por analogia, nos apoiar na letra da mesma canção de Milton Nascimento que em outro trecho diz “são dois lados da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo da partida” .. “a experiência porém é a do encontro”. São aqueles que chegando, ficando ou partindo, devem receber a nossa acolhida, a marca e o testemunho, a nossa experiência feita com Jesus; o que será possível somente com o anúncio transformador do Evangelho, indo ao encontro do outro.

Encontros e Despedidas: www.letras.terra.com.br/maria-rita/73647/

Pe. Marcos Tavoni

Professor de Missiologia e

Reitor do Seminário Interdiocesano

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