Dom Pedro Brito Guimarães

Arcebispo de Palmas

 

Mais uma vez as eleições batem às nossas portas. Desta feita trazendo na bagagem muitas incertezas, divergências, polarizações, provocações, juridicializações, descrenças, desconfianças etc. É que, no Brasil, atravessamos mares bravios, desertos arenosos e tempos complexos. Pelo ódio, o País está dividido ao meio. A corrupção é outro agravante nestas eleições. Elas que deveriam servir de laboratório de diálogo para a reconciliação dos adversários, estão servindo de plataformas para reforçar ainda mais o que há de pior na sociedade: o ódio, a rixa, a dissensão, a briga, a acusação, a mentira, o radicalismo, a polarização e a fake news. “Onde há injustiça e rivalidade aí estão as desordens e toda espécie de obras más. De onde vem as guerras? De onde vem as brigas entre vós?” (Tg 3,16.4,1)

Apesar de tudo, ou talvez por tudo isto, estas eleições precisam ser levadas a sério. A Política é uma ciência, cujos objetos são o bem comum, a vida e a defesa de suas biodiversidades e multiculturalidades. É esta ciência que trava ou destrava o desenvolvimento, a sustentabilidade, com todas as suas seguridades. A Política é a ciência que produz e distribui a comida, a água, o emprego, o salário, a moradia, a educação, a saúde, a segurança, o transporte e a qualidade de vida.

Por isto, é preciso votar em candidatos confiáveis, que defendam a vida, desde o nascituro até a morte natural; que defendam o meio ambiente, a nossa casa comum; que acabem com violência e promovam as culturas do encontro e da paz.

O milagre da democracia é a escolha de um para governar a todos. E só a sabedoria do eleitor é capaz de realizar este milagre. Não sei se estamos suficientemente esclarecidos para um dos exercícios máximos da democracia: o voto livre, consciente e soberano. Parece que ainda falta alguma coisa. A conta entre as informações que recebemos e a responsabilidade que comporta o voto, parece não fechar. Há mais dúvida do que certeza, mais perguntas do que respostas, mais ideologia do que democracia. Tudo demasiadamente desproporcional. Não é por acaso que, segundo pesquisa, o brasileiro é um dos povos mais alienado e que menos conhece a sua realidade. E quando diz conhecer, precisa  ser questionado. Em tempos complexos como este nosso, requer eleitores extraordinários e votos extraordinários. Que não nos falte e nem deixemos que nos roubem a esperança (Papa Francisco, Evangelii Gaudium 86).

Portanto, vota bem quem vota com os dedos inspirados nos critérios do bem comum e nos valores do Evangelho. O papa Francisco, na Evangelii Gaudium, ensina que “uma fé autêntica - que nunca é cômoda e individualista - comporta sempre um desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela” (183).

Diante do afirmado pelo papa, ouso apresentar a quem, naturalmente, quiser, dez jogos de critérios para se votar bem nestas eleições: 1. Não vote com dúvida, vote com certeza; 2. Não vote com medo, vote com esperança; 3. Não vote para protestar, continuar ou atrasar, vote para avançar e transformar; 4. Não vote com raiva, vote com alegria; 5. Não vote para o seu bem, vote para o bem de outrem; 6. Não vote para o ontem, vote para o amanhã; 7. Não vote descuidado, vote com cuidado; 8. Não vote displicente, vote consciente; 9. Mas, um voto pelo sim e nunca pelo não; 10. E um voto pela vida e pela paz e não pela guerra e pela morte.

De resto, seus candidatos poderão não ser caridosos e nem santos, mas a política é fonte, caminho e possibi lidade de caridade e de santidade.