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epois de seis anos, como arcebispo de Palmas, creio ter chegada a hora de dizer, sem medo de errar, que estou aqui cumprindo a minha missão. Não é muita petulância minha afirmar isto? Não! Porque viver é cumprir uma missão. A vida é missão. Sem missão não há vida e sem vida não há missão. Eu aqui me proponho viver para cumprir a minha missão, no dia-a-dia, de missão em missão, de esperança em esperança. A missão que se cumpre com a vida não é uma missão qualquer. Aliás, a vida não é “uma missão”, para não confundir, nem competir e nem fazer concorrência com outras tantas missões. A vida é a missão por excelência e por antonomásia. Quem, portanto, vive bem, cumpre bem a sua missão. Ultimamente, tenho rezado, todos os dias, assim: “Deus, me ajude a cumprir bem a minha missão”. E tenho sido atendido, graças a Deus.

A missão foi, é e será sempre o coração da Igreja, o seu maior desafio, a sua maior preocupação e a sua maior fonte de renovação. Na Igreja, em matéria de desafio, nada se compara ou se iguala à missão. Para quem se queixa, reclama, desabafa e critica a missão, repito, quase como um refrão: o maior desafio que a Igreja enfretou, enfrenta e enfrentará é a missão. No dia em que ela resolver ou renunciar a agenda missionária, nada mais lhe restará a fazer aqui na terra.

Qual é mesma a missão do bispo? É a mesma missão de Jesus e da Igreja, capitaneada pelo papa Francisco: “missão é curar as feridas do nosso tempo”. Quando perguntado sobre a sua messianidade, Jesus respondeu: “ide contar a João o que estás ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,4-5). Este Projeto de Salvação, inaugurado por Jesus, na Sinagoga de Nazaré (Lc 4,16ss), é uma verdadeira recriação, pois, faz uma transformação radical: superadas as incapacidades humanas, faz as pessoas curadas entrarem em nova vida, não somente em nível humano, mas também em nível espiritual: a recriação dos filhos e das filhas de Deus.

A missão é cruz e a cruz é missão. Jesus não amenizou e nem idealizou a missão. Eu também não tenho este direito. Ele a encarnou e se consagrou radicalmente à missão recebida do Pai: construir o Reino aqui na terra. Ele disse que seria desprezado, torturado, cuspido, preso, crucificado, morto e sepultado por causa da missão. Disse também que seus discípulos enfrentariam os mesmos sofrimentos que Ele enfrentou por causa da missão. E, por fim, disse que o Reino sofreria violência por causa da missão. Perseguiram a Ele, perseguirão também a nós por causa da missão.

A missão é sede e a sede é missão. Esta é a perene missão do bispo: curar as feridas. Talvez, a olhos nus, não consigamos ver e ouvir obras como estas, realizadas na e por minha missão. Quantificar as obras de misericórdia que realizei, deste o dia em que aqui pisei, nesta terra de missão, há seis anos, não se constitui tarefa fácil. Mas esta é a minha missão: curar as feridas dos corações. Eu a convencionei denominar de “sede’. Minha missão é ter sede e a sede é a minha missão. A sede, na cruz, fez Jesus reclinar a cabeça e proclamar o seu último, eterno e solene amém: “tudo está consumado” (Jo 19,30). Quem cumpre a sua missão, se consome; e, ao se consumir, realiza a sua missão. A missão do bispo, confiante na misericórdia divina, é instalar o seu “hospital de campanha” e se debruçar sobre as feridas dos corpos e das almas dos homens e das mulheres do nosso tempo, para curá-las. Quem assim não age e não faz, não cumpre bem a sua missão. Para realizar esta a missão, estou me propondo: habitar em tendas, perfurar poços e construir altares.

 A missão cura. Quem cura, se cura. Sou, portanto, um curado e um curador na e pela missão. Finalizo, portanto, pedindo a Deus que me ajude a cumprir bem esta minha missão. Amém!