Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

O celibato sacerdotal, só por amor

Quando eu tinha em minhas mãos a responsabilidade de formar presbíteros celibatários, em uma sociedade que o sexo se tornou um banal produto de consumo; e quando tinha também entre as minhas mãos as preocupações elaboradas pela OSIB, que pede, antes de tudo, que tenhamos cuidado com a dimensão humano-afetivo-sexual dos candidatos ao presbiterado, esbocei este simples artigo que, agora coloco ä disposição de quem quer verificar as batidas do coração indivisível pelo celibato sacerdotal.

Segundo diz a nota, constata-se sempre mais o aumento de casos públicos de desequilíbrios nesta área. Falando especificamente sobre o celibato, diz textualmente: “e por falar em celibato, sentimos que é preciso, o quanto antes, uma melhor verificação da vocação celibatária. Se a Igreja latina insiste em manter a disciplina do celibato, inclusive com razões teológicas e pastorais bem fundamentadas, ela precisa também ter a coragem de assumir as conseqüências de tal decisão. E uma das conseqüências é que há pessoas que têm vocação para o ministério ordenado, mas não foram chamadas por Deus para vocação celibatária. Assim sendo, os Bispos precisam ter a coragem da coerência, não admitindo nos seminários pessoas que não são vocacionadas para o celibato. Toda decisão tem o seu preço. Se se insiste na manutenção do celibato para o clero diocesano, então não se pode continuar fazendo “vista grossa” para os casos explícitos de falta de vocação celibatária, uma vez que isso gera conflitos, sofrimentos tanto para os que são ordenados nestas condições como também para o povo de Deus” .

Não é minha intenção aqui comentar tais afirmações nem refutá-las simplesmente. Quero apenas mostrar que a problemática levantada pela OSIB procede; é sinal de que a questão do celibato é preocupante e está pedindo resposta. E cabem aos bispos e a nós formadores, encontrar pistas concretas para a sua solução. Tendo como pano de fundo e fonte de inspiração o que foi levantado pela OSIB, me senti-me motivado a compartilhar com vocês minha experiência de celibatário e de formador, e a dar algumas orientações sobre esta questão tão central em nossa vida. Apesar de muitas teorias sustentarem que a juventude é carente e tem necessidade de manter relações sexuais, vejo, por outro lado, que é nesta faixa etária que o jovem tem todas as condições indispensáveis para fazer, assumir e viver opção celibatária. Como assim? Além de partir do pressuposto de que o celibato está fundamentado na fé do seguimento radical de Jesus, e de ser uma norma disciplinar da Igreja Católica, de rito latino, conversando com vocês senti a necessidade de encontrar além destas, outras razões, condições ou qualidades essenciais para quem quer viver, de forma evangélica, a sua opção celibatária. A partir da minha experiência, elenco, a seguir, seis valores como sendo seis palitinhos de fósforos a iluminar a grandiosidade e, por vezes, a obscuridade do celibato na Igreja, mesmo admitindo que possam existir outros mais consistentes do que estes:

1. Heroísmo. Quem quer viver o celibato tem que ser um herói, um vencedor de suas próprias carências e das carências alheias. Ser presbítero em si mesmo já é um ato de bravura e sendo então celibatário este ato de heroísmo é levando ao extremo. Uma pessoa fragilizada, dependente, dominada, negativista, com tendência ao derrotismo, dificilmente consegue viver o celibato na sua integralidade. O celibato é uma vocação e como qualquer vocação, tem um preço a ser pago, uma batalha a ser vencida e exigências específicas. Uma delas é ter atitudes heróicas. O herói é potencialmente um candidato ao martírio e o celibatário também. Ele perde genitalmente, mas ganha afetivamente. A isto se aplica bem o princípio que, segundo São Francisco, “é morrendo que se vive para a vida terna”. A este respeito também Jesus dirá: “quem quiser ganhar a sua vida vai perdê-la…”

2. Idealismo. Quem quer viver o celibato tem que ser uma pessoa que tenha ideal, projeto e programa de vida. Quem vive no espontaneismo, da improvisação, da dependência do momento ou da circunstância e sem uma proposta real de vida, dificilmente conseguirá progredir na vivência do celibato. Até porque o celibato é comumente colocado pela igreja como uma opção pelo reino . A vida celibatária é um sinal da antecipação da vida em plenitude dos bem-aventurados. O celibatário é um sinal escatológico da vida eterna que já começa aqui na terra. O idealismo de que estou me referindo pode parecer utópico demais, no entanto, é este o ideal do evangelho e do seguimento de Jesus. Por outro lado, quem vive demais da aparência ou idealiza demais sua vida também não está agindo corretamente.

3. Espírito de doação. Egoísmo não rima com celibato. Pessoa centralizadora, concentradora, interesseira, dependente, possessiva, egocêntrica, narcisista e carente de atenção e de afeto, é candidato ao fracasso na vivência do celibato. Viver o celibato requer atitudes coerentes com este estado de vida: mais oblatividade, mais kenosis e mais autodoação. O celibatário convive com um grande mistério: se por um lado, ele dá tudo o que tem todos, por outro lado, precisa de todo mundo, e ainda, não pode dar-se a uma única pessoa. É curioso, mas o coração do celibatário é um “coração sem partilha ”. Que é isso? Significa dizer que seu coração é indiviso, doado e partilhado para todos e não de uma única pessoa. Ademais, a única coisa que atinge realmente o presbítero em sua própria carne é o celibato. São Paulo o considerava um espinho na carne. Do mesmo modo como Jesus na última ceia deu seu corpo e derramou seu sangue para salvar a humanidade, o presbítero doa a sua vida vivendo o celibato. O sacerdote, segundo padre Chevrier, “é um homem consumido” pela doação que faz de sua vida e pelo serviço que presta a Deus e ao povo. Daí, quem pensa muito em si, quem gosta mais de receber do que de dar, dificilmente vive o celibato. Cito como exemplo a masturbação. Os escravos desta prática são os mais excêntricos e egocêntricos. A masturbação atinge mais as pessoas que vivem a ansiedade e a sensação de perda.

4. Espírito de pobreza . A vida de um celibatário é muito próxima da vida de um pobre. O celibatário é um pobre e um solidário com os pobres: doentes terminais, mutilados, loucos, presos, inválidos, crianças, velhos, viúvos, abandonados e excluídos. Nossa vocação é viver a pobreza por amor a Cristo, nascido num presépio, e a todos os que têm fome de amor, de justiça e de liberdade aos quais fomos enviados. O presbítero celibatário, na linha da continência e da castidade, se assemelha muito a estes e a tantos outros pobres que, por força da natureza ou das condições sociais, são privados do prazer sexual. E o presbítero, pleno desta possibilidade, se solidariza com eles tornando-se um deles na vivência do celibato. Quem só pensa no poder e no prazer, no ter e na riqueza, no ser e na beleza, ainda não aprendeu uma das primeiras lições da vida celibatária que é a de dar mais do que receber. O ritmo da vida do presbítero celibatário é inversamente contrário ao da vida de muitas pessoas: ao invés de querer tudo para si, deve ter a coragem de dar tudo de si aos outros: “o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,50). Por isso, meus irmãos, o “enriquecimento ilícito”, o narcisismo e o ensimesmamento não condizem com o espírito do celibato.

5. Vida saudável. Hoje se fala muito na saúde do presbítero . O celibato é um estilo de vida saudável, embora a mídia teime em afirmar o contrário. Um ritmo de vida que leva ao estresse, e à ansiedade, pode fazer com que o presbítero não tenha uma vida saudável: comer demais, beber muito, fumar, dormir ou repousar pouco, são ingredientes nocivos à saúde e prejudiciais à vida de continência e de castidade, pois funcionam com estimulante do apetite sexual. Quem, ao contrário, cuida bem de sua saúde física, psíquica, mental e espiritual, quem leva uma vida saudável, quem faz abstinência no comer e no beber, que faz exercícios físicos e higiene mental, quem diversifica suas atividades tem um companheiro e forte aliado à sua opção celibatária. Uma das piores doenças é a intoxicação e um dos melhores remédios é a desintoxicação. Pessoa doente, ansiosa, emotiva, carente de tudo, até de auto-afirmação, tem mais dificuldade de viver o celibato. A doença física, psíquica ou psicossomática, além de ser um entrave ao exercício do ministério presbiteral, dificulta a vida celibatária. O presbítero é o chão de Deus onde o povo pode pisar. E se este chão não for firme e sadio, o povo pode escorregar e cair por nossa culpa.

6. Tudo, enfim, por amor, com amor e somente no amor . Creio não existir outra forma melhor de pensar o celibato senão na perspectiva do amor. A escolha da vida celibatária deve ser feita por amor, deve ser vivida com amor e, até o fim, no amor. “Quando a gente ama claro que a gente cuida”. Assim acontece com o amor do celibatário. É um amor exigente, que exige cuidado. “Quem ama Deus ama tudo que vem dele” . Quem não ama dificilmente consegue entender a exigência do celibato. Qualquer outra forma de querer viver o celibato pode ser sinal de egoísmo. O presbítero, segundo Cura D’Ars, “é o amor do Coração de Jesus. Quando vides o padre, pensai em Nosso Senhor Jesus Cristo” .

Para concluir minha exposição de motivos para a vivência do celibato, a somatória destes elementos – atitude heróica, ideal de vida, espírito de doação e de pobreza e vida saudável, juntando-se ao ato de fé no seguimento radical de Jesus e de obediência a uma norma eclesial, tudo enfim, por amor, com amor e no amor -, contribui decisivamente para a vivência do celibato. Agora, quem na realidade possui em dobro todos estes valores? A juventude. O jovem tem atitudes heróicas, é cheio de ideal, tem espírito de doação e de pobreza, tem vida saudável e o coração de amor. Por isso, minha experiência é a de que a idade ideal para uma opção celibatária é quando se tem todos estes elementos a seu favor. Chegará o dia em que eles desaparecerão ou perderão sua força e é neste momento que entra a voz da experiência da vida doada e a força da maturidade afetiva. Quando chegar este momento, sairá vencedor aquele que tiver feito uma opção pelo celibato no momento em que tinha a seu favor os valores acima elencados. Pensar o celibato só como disciplina é suicídio. Ao contrário, pensá-lo na perspectiva do amor é viver em plenitude o seguimento radical de Jesus. Portanto, é ético ser celibatário. O que é antiético é viver a duplicidade de vida. Amém!

• DEBATE: 1. O que você achou da colocação feita? 2. Está ao menos no rumo do que se entende por celibato? 3. O que você acha que está faltando ou que está sobrando? 4. O que é preciso fazer mesmo para viver e ser feliz no celibato?

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