Arquidiocese de Palmas

Artigos › 07/10/2022

O GRANDE SINAL DO CÉU NA TERRA

Um dia, como qualquer outro dia, da Ilha de Patmos, João, o místico, o carismático, o vidente e o apocalíptico, viu e nos fez ver “o grande sinal que apareceu no céu” (Ap 12,1). O sinal está codificado. Mas é preciso e possível decodificá-lo. Que sinal é este? Como vê-lo, como decodificá-lo e como interpretá-lo?

            Esta visão de João sempre me motivou a contemplar o céu, talvez por eu gostar muito de sinais, do céu e de desta mulher que nos acostumamos chamá-la de Maria. O cenário deste sinal é um gigantesco painel no céu; e a atriz-protagonista é uma mulher. O que há de mais tremendo e mais fascinante na terra é o céu. Olhar para o céu é santificar a terra, porque o céu é o esplendor da glória divina. E é da terra que se contempla o céu. A visão que, da terra, temos do céu é esplêndida e magnífica.

            O céu é, de fato, o grande sinal de Deus para os terráqueos. O céu nos atrai. Eu pessoalmente gosto muito da terra. É a minha casa, o lugar onde eu nasci e vivo. Mas nada se compara ao céu. O céu exerce sobre mim uma atração indescritível. Geralmente não encontro palavras para descrevê-lo. Quero estar por muito tempo aqui na terra. Mas minha pátria é o céu (Fl 3,20). “Sou cidadão do infinito” (Padre Zezinho). O céu será a minha próxima e permanente morada.

             Às vezes, materializamos e exteriorizamos demais os textos bíblicos, e porque não dizer, a revelação de Deus. Nem o céu e nem também a mulher podem ser simplesmente materializados e externalizados. Também não é para serem espiritualizados demais. Um bom exemplo do que estou afirmando é este sinal no céu. É de fato um sinal no céu ou é na terra? Nos dois certamente. Há nos dois sinais um alto grau de espiritualidade e de eclesialidade.

            João viu no céu uma mulher grávida, vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1). Viu também um dragão querendo devorar a mulher, o nascituro e a terra. A terra veio em socorro da mulher e do menino. A terra também tem esta missão de vir em nosso socorro quando estamos em perigo de sermos devorados. O céu cuida da terra e a terra cuida do céu. O Menino é o salvador de todos. Valeria a pena dar nome a este dragão devorador de mulher grávida.

            A tradição cristã sempre viu Maria como esta mulher da visão de João. Este é o Evangelho da Infância de Jesus que João deixou de narrar no seu Evangelho e narra aqui. Este texto também é Evangelho, é Boa-Notícia da infância espiritual e eclesial. De todo modo, Maria é o grande sinal de Deus aqui na terra. Na visita Ad Limina Apostolorum que fizemos, nós, bispos dos Regionais Norte 2 e 3, na conversa de três horas, como nos bons bate-papos, entre velhos amigos, o Papa Francisco nos fez ver o sinal da tradição mariana para fundamentar hoje os ministérios leigos. Segundo ele, a tradição apostólica que fundamenta os ministérios ordenados já está cristalizada e sacramentada. Não há muito o que dizer e nem muita margem para mudá-la.

            No entanto, o mesmo não se pode dizer da tradição mariana. Ainda está incipiente e iniciante. Precisamos de mais estudos. Ele nos autorizou a estudar mais esta tradição. Um convite para as Academias e para as novas gerações de teólogos e de teólogas. Ela será a tradição capaz de fundamentar os ministérios leigos na Igreja, nos dias atuais. Maria não é homem e não foi ordenada. No entanto, recebeu uma missão divina, de igual dignidade à missão apostólica. E até mais e maior.

            A Igreja precisa ler e reinterpretar este sinal mariano para os dias atuais. O ciclo lunar está sempre ligado à semente, à semeadura e à germinação das plantas. E o ciclo solar está sempre ligado ao crescimento, à floração e ao amadurecimento dos frutos. Os ministérios na Igreja também possuem esta valência cósmica e ecológica. À luz desta intuição do Papa Francisco, para mim, este é o grande sinal do céu na terra. É o sinal da nossa Igreja sinodal e ministerial, coroada pelos ministérios apostólicos, ordenados; ladeada e vestida com o sol e com a lua dos ministérios não-ordenados, dos leigos, sobretudo, das mulheres.

            Este é o grande sinal do céu que aparece na terra que precisa ser decodificado!

 

Dom Pedro Brito Guimarães

Arcebispo de Palmas

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