Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

O mundo vai acabar?

Será? Eita expressão perseverante! Ela atravessa os séculos! De tempos em tempos tem alguém se perguntando e questionando: “O mundo vai acabar?” Vejamos se vai!

Servindo-se de uma linguagem, bem atual, consumista, podemos partir da afirmação de que todo produto vem com o seu prazo de validade estampado no rótulo. De certo também, o planeta tem o seu tempo de duração. A matéria, já está mais que comprovado, cientificamente, é finita. Só não encontraremos, logicamente, por aí, a etiqueta com a data e a hora, e nem os selos e carimbos do Ministério encarregado do assunto; ou seja, não sabemos, realmente, nem o dia e nem o momento exatos do fim.

Para os que crêem: tranquilos! Jesus deixou o seu recado dizendo, que quanto ao dia e a hora, não deve haver preocupação exacerbada e que isso é assunto que compete somente ao Pai (Mt 24, 36).

Entre tantas interpretações que poderíamos levantar sobre a observação de Jesus, parece haver uma que seria bem óbvia e talvez a mais provável. Jesus está chamando a atenção dos seus discípulos, como quem diz: “Acho que, no momento, tem coisas mais importantes para se fazer e para se preocupar do que ficar elucubrando hipóteses sem nenhuma utilidade”.

Não quero, com esse pensamento, de forma alguma, menosprezar o trabalho e esforço pela luta e conservação do planeta. Sou um dos primeiros a defender a bandeira da ecologia e do desenvolvimento sustentável. Quero, com esse artigo, alertar a todos, quanto aos profetas apocalípticos do momento, verdadeiros “terroristas” de plantão! Gente escrupulosa que caminha no medo e por isso incutem, transferem para os outros os seus próprios medos. São pessoas que não entenderam o plano de Deus, como plano de amor de um Deus que é Pai. Têm uma visão de um deus juiz, carrasco, e que veio primeiro para condenar os maus e depois salvar os “bonzinhos”. São religiosos sem experiência de fé, fundamentalistas, completos ignorantes em relação às Sagradas Escrituras, e que pensam converter o mundo impondo o assombro do inferno.

Apareceu, rodando em Palmas, e Brasil afora, um panfleto aterrorizador destes de meter medo até no Capeta. O tal escrito é assumido por um grupo que se auto-denomina “católicos em defesa da fé”. Imaginem! Sem nome pessoal e sem assinatura. Que tipo de pessoas seriam essas que, dizendo querer ajudar, se escondem? A única pista que nos dão é ser um grupo do interior de Santa Catarina – se é que seja verdade – para a infelicidade daquela gente.

Esse tipo de abordagem, com ideias infundadas, levou a Igreja a combater, em seu próprio meio, tal mentalidade. Não é raro encontrarmos, não só na Igreja católica, os chamados grupos de fanáticos fundamentalistas, como no seio de muitas outras religiões tradicionais. Isso sem contar a seitas que proliferam dia a dia e que são especializadas no assunto, quando se trata do fim do mundo. Em alguns casos, prevendo-se a eminência do fim, o absurdo chega a tal ponto, que o desespero antecipa tal fim, promovendo-se o suicídio, individual ou coletivo.

Ao longo da história, o que podemos constatar, ainda, é que sempre houve quem explorasse o tema para tirar proveito. Hoje, acompanhamos por aí, um verdadeiro cortejo de interesses políticos, religiosos e econômicos que estão por de trás dessa história. Observe-se, por exemplo, a indústria cinematográfica. O cinema vem lucrando cifras astronômicas, bilheterias recordes, com a exibição de filmes desse gênero. Vídeos catastróficos, antes censurados, agora são espalhados, comercializados por todos os cantos, excitando e procurando satisfazer os instintos mais sádicos do público, visando unicamente o lucro, sem nenhum escrúpulo, moral e psicológico de seus efeitos.

A Igreja sempre esteve muito atenta a essa corrente que chega, principalmente, entorno do final dos séculos. Passou a identificar esta forma de pensamento, como uma deficiência da fé, como uma heresia, e a denominou “Milenarismo” (Concílio de Éfeso, 431). Segundo ela nos ensina, o Milenarismo tem suas raízes na interpretação equivocada da Sagrada Escritura, mais precisamente do Livro do Apocalipse, em seu Capítulo 20. Trata-se da crença em um reino de bem-aventurança de 1.000 anos. Daí onde deriva-se o nome Milenarismo. É a interpretação da Bíblia mais desconexa possível da tradição e do magistério da Igreja.

Por isso estejamos atentos a essa forma de persuasão. Ajudemos a combater certos pensamentos que só incutem o desespero e no fundo, subestimam a inteligência humana. Passemos a nos preocupar, como sugeriu Jesus a seus discípulos, com coisas mais importantes, por exemplo, de que o Senhor nos surpreenda, quando voltar, trabalhando por um mundo melhor.

Que bom seria se esse folheto ao qual me refiro, não fosse um retrato distorcido da vinda do Senhor e sim um panfleto, por exemplo, de uma grande campanha de solidariedade tendo em vista a caridade. Poderia, ainda, ser um manifesto em favor da vida do planeta, das águas, das matas; contra a miséria e da fome. Pensemos, quanto bem não faria para a comunidade humana uma abordagem mais otimista da vida. Por isso irmãos, nada de alarmes. O importante é que façamos a nossa parte, cumpramos nossa missão. Sobre o dia e a hora, deixemos que Deus, Senhor da vida e da história, se ocupe disso.

Pe. Marcos Tavoni

Professor de Teologia Fundamental e

Reitor do Seminário Interdiocesano de Palmas

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