O SACERDOTE E A AMIZADE SOCIAL

1. INÍCIO DE CONVERSA

Meus irmãos e amigos, tenho sede!

Este ano de 2024 fomos agraciados com o tema da Campanha da Fraternidade sobre a Amizade Social. Parece pouco, algo descartável. Mas não é. É algo muito bom e bonito.

Este tema é inspirado na Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco. E é mérito da Igreja Católica, no Brasil, transformar um tema teórico teo-sócio-pol-ecle-eco-psicológico em um tema de campanha pastoral, espiritual e celebrativa quaresmal. Melhor dizendo, em uma campanha da fraternidade de conversão. Sermos todos irmãos e irmãs, nos dias atuais, nos desafia, em todas as dimensões da vida, apenas nominalmente citadas, acima.

Utilizarei este tema “Amizade Social” como guarda-chuva para esta nossa conversa, entre nós, irmãos e amigos. Afinal, fomos todos gerados no mesmo ninho espiritual do Seminário Regional Nordeste I.

Vivemos hoje tempos complexos e difíceis, de muitos estranhamentos entre raças, povos, culturas e nações. Há hoje pelos menos 70 guerras em curso no mundo. O Papa Francisco chama de “guerras fraccionadas” ou “em pedaços”. E até entre nós há também estranhamentos. Nem mesmo num grupo de WhatsApp, “entre amigos”, escapamos de contendas e celeumas. Estes estranhamentos são atribuídos a vários fatores. Dom Edson Oriolo, bispo de Leopoldina – MG, elenca uma série de motivos para estes nossos estranhamentos: “a precariedade na formação; a solidão, movida pela ansiedade e pela depressão; o problema midiático e do mundo virtual; o poder e o dinheiro; o imediatismo religioso; a valorização exagerada do devocional; o carreirismo; problemas relacionados à sexualidade; o individualismo; o retorno ao tradicionalismo radical; e outras coisas mais”.

Eu ainda acrescentaria, nesta longa lista, por conta e risco meu, as ideologias e as polarizações político-partidárias, a indiferença, a intolerância, o racismo, a altero fobia, a aporofobia e o hiperindividualismo. Tudo, enfim, em decorrência de nossos desequilíbrios afetivos-sexuais: “carinho de jumento é coice!”.

O remédio para a amizade social é alagar os espaços da tenda de nossos corações. Ainda nos faltam a consciência prática da sinodalidade e uma maior sensibilidade ecológica. Por esta lógica, o outro é um inimigo a ser vencido, derrotado e eliminado. Há hoje entre nós uma espécie de alteração ou afetação do gene do nosso DNA, para pior. É que as redes de nossos relacionamentos sociais e sacerdotais estão todas tóxicas, afetadas, sujas e rasgadas. E ainda mais, existe uma expressão latina, do nosso vocabulário: a famigerada “invídia clericalis”.

2. A ORDEM E A ORDENAÇÃO

Das cinco perguntas, contidas no Rito de Ordenação de Presbítero, uma, em particular, gostaria de postar aqui para a nossa conversação espiritual. A quinta e última pergunta, síntese teológica das quatro primeiras perguntas forma, como que, os cinco pilares, quais pedestais, cordas e cobertura da Tenda de Deus, construída por nós e para nós. Deste momento, em diante, a imagem da Tenda (Is 54,2-3) será a metáfora que nos guiará, nesta nossa estadia, identidade e missão:
1. “Quereis unir-vos cada vez mais? Todas as cinco perguntas do Rito de ordenação sacerdotal começam com o verbo querer. Tudo é questão de querer. A nossa união ontológica a Cristo é um processo pedagógico e propedêutico, precedida por outras uniões que aqui se cristaliza e sacramentaliza, em natureza, essência e existência. É questão de querer.

2. Ao Cristo, Sumo Sacerdote? A íntima união que acontece dia da nossa ordenação é com Jesus Cristo, sumo e eterno sacerdote, como diz a Carta aos Hebreus: “Temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus (…) capaz de se compadecer de nossas fraquezas” (Hb 4,14-15). Lembrados de que o sacerdócio de Cristo é menos ritual e mais existencial. Cristo é sumo e eterno Sacerdote por sua vida doada. É questão de querer.

3. Que se entregou ao Pai por nós? A entrega de Jesus ao Pai, na cruz, foi entre preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas. E foi atendido (Hb 5,7). É questão de querer.

4. E ser com Ele consagrados a Deus? A nossa ordenação é uma espécie ou uma forma, a mais sublime, de consagração a Deus. Esta nossa consagração é a consumação da vida a Deus. Segundo o Beato, Padre Antonio Chevrier, fundador dos Padres do Prado e padroeiro do padre, “o padre é um homem de vida consumada e consumida, entre o presépio, o calvário e tabernáculo”. É questão de querer.

5. Para a salvação da humanidade?” A finalidade do nosso ministério é salvar a humanidade. Nós não salvamos. Mas a salvação poderá vir por nosso intermédio. É por isto que nosso ministério se tronas causa de salvação (Hb 5,9). É, por fim, questão de querer.

3. A CONFRATERNURA SACERDOTAL
Os relacionamentos entre nós, sacerdotes, com o bispo e com os fiéis leigos, são pérolas preciosas do Decreto Presbyterorum Ordinis (n. 8) e da Lúmen Gentium (n. 28). A união dos sacerdotes entre si é ontológico-sacramental, proveniente do sacramento da ordem. Ordenar é ser, é receber, é entrar e é participar de uma ordem e de um mandato de Jesus. O caráter colegial dos doze e a cooperação fraterna entre os sacerdotes são decorrentes da participação da mesma missão: uma íntima fraternidade sacerdotal.

Os Sacramentos, a meu ver, se dividem em dois grupos: primeiro, os que nos configuram aos atos justificativos (justo, justiça, justificativa) de Jesus: Batismo – crisma – penitência – unção dos enfermos; segundo, os que nos configuram aos de vida doada de Jesus: Eucaristia – ordem – matrimônio.

Em decorrência disto, como ministros de muitos destes sacramentos, a união entre nós, sacerdotes, não é sentimental, afetiva, sexual, psicológica ou funcional do ministério. É de ordem ontológica e sacramental. É por isto que tudo o que ocorre com um ocorre com todos. Que a dor de um é a todos de todos. Que a alegria de um é a alegria de todos. Que a vitória de um é a vitória de todos. Que o escândalo de um é o escândalo de todos. Que a morte de um é a morte de todos. Que a ressurreição de um é a ressurreição de todos. É assim por diante…!

Portanto, a ordenação e a fraternidade sacerdotais são os fundamentos teológicos da nossa amizade social. Esta fraternidade sacerdotal tem suas raízes no mandamento do amor fraterno, no qual Jesus convida os seus discípulos, de ontem e de hoje, a se amarem como ele os amou (cf. Jo 13,34-35). Nós, sacerdotes, não caminhamos sozinhos. Atuar, com habilidade e fidelidade para a amizade social, entre nós, é decorrência da obediência a Cristo, à Igreja, ao bispo, na unidade com os irmãos no presbitério. Bem como os irmãos da comunidade, buscando o crescimento diário, mediante uma formação inicial e permanente.

É missão de cada sacerdote cuidar do corpo eclesial para não amesquinhá-lo e nem deixar que alguém o amesquinhe. Entender e cuidar do mistério da comunhão da Igreja é não amesquinhá-la, não perder tempo com fofocas e picuinhas que ameaçam fechar a comunidade em si mesma e isolar os grupos. As nossas brigas, rixas, desuniões, dissensões, fofocas, puxações de sacos e de tapetes, terminam por diminuir o esplendor da beleza da fé, da unidade e da missão da Igreja. Também isto é questão de querer.

Neste sentido, nas palavras do papa Francisco “hoje o drama da Igreja é que Jesus continua a bater à porta, mas da parte de dentro, para que O deixemos sair! Muitas vezes acabamos por ser uma Igreja (…) que não deixa o Senhor sair, que O retém como “propriedade sua”, quando o Senhor veio para a missão e quer que sejamos missionários” (Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2024).

4. AS CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os impropérios ou as lamentações da amizade social entre nós, sacerdotes, foram bem sintetizadas nesta bela canção, composta pelo padre Irala, SJ: Que mais podia eu ter feito? Que mais podia eu te dar? Plantei-te como vinha nova, toda graciosa, nada havia igual. E castiguei os malfeitores que te perseguiam pra fazer-te mal. Que mais podia eu ter feito? Que mais podia eu te dar? Abri o mar na tua passagem. E da escravidão eu te levei à paz. E fiz caminho no deserto para o lugar certo, para o bem total. E esqueceste o Amor. E entregaste o Senhor. O mundo inteiro se esqueceu da luz. E pregou seu Salvador na cruz. Que mais podia eu ter feito? Que mais podia eu te dar? Eu dei o pão da nova vida e a pedra ferida a sede apagou. E fiz para o meu povo eleito, os maiores feitos como ninguém viu. Que mais podia eu ter feito? Que mais podia eu te dar? Eu dei o sol da liberdade, o sol da verdade, onde nasce o amor. E dei o pão da caridade, na fraternidade do mundo melhor. E esqueceste o Amor. E entregaste o Senhor. O mundo inteiro se esqueceu da luz. E pregou seu Salvador na cruz”.

5. A ORAÇÃO E A BÊNÇÃO
Senhor Jesus Cristo,
Sumo e Eterno Sacerdote,
autor e consumidor da nossa fé,
ao dar-nos a vida para o resgate de todos,
Dai-nos a graça para cuidarmos de nós mesmos;
Ajudai-nos a cuidar uns dos outros;
Ensinai-nos a cuidar da natureza, a nossa casa comum;

Inspirai-nos, palavras e ações, para o cuidado dos sacerdotes.
Que Nossa Senhora e São José, cuidadores de Jesus,
cuidem de nós, a fim de cuidarmos de tudo e de todos
Como cuidais de nós.
Amém!
“Que ninguém diga que não se disse nada de novo:
a disposição do material é totalmente nova”
(Pascal, Pensées, 22).

Dom Pedro Brito Guimarães,
Arcebispo de Palmas – TO
Teresina, 03/04/2024

Clique aqui para baixar o texto em PDF.: O Sacerdote e a Amizade Social (D. Pedro) (1)

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