Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

OS CINCO SILÊNCIOS DE JOSÉ

“Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo” (Mt 1,16). O nome “José”, traduzido, livremente, significa “o acréscimo de Deus”. Deus acrescenta algo mais ao que já foi dito, pedido, prometido e anunciado à Maria, no dia da anunciação. O nome “José” era muito conhecido na terra de Jesus, como é aqui no Brasil. Ao menos dois “Josés” se destacaram na história da salvação: José do Egito, filho de Jacó, vendido como escravo, pelos seus irmãos, que salvou Israel da fome; e José, também filho de Jacó, esposo Maria, mãe de Jesus que também salvou Jesus da morte, quando criança.

Quando presenciamos o tumulto nas ruas, a barulheira e a poluição sonora e visual das manifestações, neste frágil, precário e instável barco à deriva, chamado Brasil, aqui nos encontramos, em obsequioso e reverente silêncio, para celebrar a festa do nosso padroeiro, São José que, neste ano, coincide com os 25 anos de criação da paróquia São José, a “Igreja Matriz de Palmas”. Neste contexto, escolhi para nossa meditação, iluminado pela solene liturgia da Palavra, especialmente pelo Evangelho de hoje, “os cinco silêncios de José”. Dizem que só o silêncio é grande. E tudo o resto é fraqueza e pequenez. É o silêncio que faz os homens sábios e os cristãos puros e fecundos. Mas,“no Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio” (Nelson Rodrigues). Há silêncio que não é ausência de comunicação e nem indiferença, mas plenitude, quando é ativo, fecundo, comunicativo, mistério e revelação, como foram os cinco silêncios de José. A moldura do retrato de São José, desenhado pelo Evangelho de hoje, é formada por cinco silêncios:

Primeiro, o silêncio de uma noite de repouso. Num quarto de dormir, em Nazaré, José desvendo o mistério escondido no coração da sua esposa: “José, seu marido, era justo, e não querendo denunciá-la, resolveu abandoná-la em segredo” (Mt 1,19), ou seja, em silêncio. É no silêncio que este homem bom, justo e de fé decide não abandonar Maria para não lhe causar constrangimentos e danos morais. Será que sabemos silenciar para salvar vidas, proteger pessoas, defender causas? Segundo, o silêncio da reflexão: “enquanto pensava nisso…” (Mt 1,20). Esta o fez adquirir a iluminação que precisava para curar as feridas interiores da alma e compreender a vontade Deus de Deus a seu respeito. Deus se revela a José enquanto pensa, reflete e reza. Maria, sua esposa, também guardava todas essas coisas em seu coração (cf. Lc 2,19.51). Será que somos capazes de pensar, refletir e, silenciosamente, rezar, para entender, antes de agir, não levados pela emoção e sentimentos de revolta e de vingança? Terceiro, o silêncio do sono da noite. Por meio do Anjo Deus se revela a José, o consagra e o capacita para a missão de tutor de Jesus: “apareceu em sonho o anjo e lhe disse: José não tenha medo de receber Maria com sua esposa” (Mt 1,20b). O sono na bíblia, diferente da nossa compreensão, tem valor e estado de revelação. Deus se revela no sono e, através dele, se comunica com as suas criaturas. Será que ainda sabemos sonhar e interpretar os sonhos reveladores de Deus ou perdemos a capacidade de sonhar? Quarto, o silêncio, no qual assume o compromisso de dar nome a Jesus: “Maria dará à luz a Jesus e tu lhe darás o nome de Jesus” (Mt 1,21). Dar nome ao filho era a função jurídica do pai. A mãe dava à luz; o pai dava o nome. Assim os dois participavam, em pé de igualdade, da maternidade e da paternidade do seu filho. Além disto, o nome para o semita, diferente dos nossos, é o destino e a missão da pessoa. Aqui se revela a eloquência e a fecundidade do sonho de José: “Jesus = Yeshuá = Deus nos salva dos nossos pecados”. José, o primeiro a ser chamado a dar nome a Jesus, se torna o apóstolo do evangelho. A função do missionário é dar, gravar o nome a Jesus no coração da humanidade. “Ao nome de Jesus todo joelho se dobra no céu, na terra e no inferno, e toda língua proclama: Jesus é o Senhor para a glória de Deus Pai” (Fl 2,10-11). José é, portanto, o primeiro anunciador, comunicador e evangelizador do santo nome de Jesus. Será que estamos dando ou tirando a oportunidade de quem ainda não crê suficientemente receber de presente o nome de Jesus? Quinto, o silêncio que acolhe a revelação: “José, quando acordou do sono, fez como o anjo o havia mandado” (Mt 1,24). Maria, sua esposa, também disse: “façam tudo o que ele disser” (Jo 2,5). Será que somos dóceis ao Anjo e ao Espírito quando nos falam e nos orientam nos caminhos da vida? Ou não lhes estamos dando ouvidos? 

Quais destes silêncios eu pratico ou tenho dificuldade de praticar? Diz o guardião de Nazaré, Frei Bruno: “José, homem bom, justo e de fé, ainda hoje se coloca atrás das cortinas para dar espaço ao seu Filho adotivo, o Senhor Jesus. Queremos, com Maria e com todos na Igreja elevar um hino de louvor a Deus, Pai da misericórdia, pelo dom precioso de São José, o santo do silêncio, da discrição, da cooperação ativa ao mistério da salvação. Ele que nutriu o Filho de Deus, como nos diz o papa Francisco: “José o fez crescer, se preocupando que não o faltasse o necessário para um são desenvolvimento, não devemos esquecer que a custódia preocupada da vida do Menino comportou a fuga para o Egito, a dura experiência de viver como refugiados. José foi um refugiado com Maria e Jesus para se salvarem das ameaças de Herodes. E depois, retornados à pátria se restabeleceram em Nazaré, e se deu um longo período da vida de Jesus com a sua família. E naqueles anos José ensinou a Jesus também o trabalho, e Jesus aprendeu a ser carpinteiro como seu pai, São José, assim José alimentou e ensinou Jesus”.

            Silenciar, ouvir Deus e agir foi o que fez São José, eis a nossa missão. São José inclinou-se ao projeto de Deus, sem recriminar, lamentar e fugir. Serviu, em silêncio, ao Verbo, revelado a ele, em sonho, pelo Anjo, e na cotidianidade e na vida ordinária, vivida em Nazaré, com Jesus e com Maria. Faltam-me palavras para descrever a intimidade de José com Jesus e com Maria, no nascimento, na adolescência, na vida adulta, na paixão, na morte e ressurreição, E, para concluir, ouçamos o que disse o papa Francisco: “Eu gosto muito de São José porque é um homem forte e de silêncio. No meu escritório, eu tenho uma imagem de São José dormindo, e dormindo, ele cuida da Igreja. Quando eu tenho um problema ou uma dificuldade, e o escrevo em um papelzinho e o coloco embaixo de São José, para que ele sonhe sobre isso. Isso significa: para que ele reze por este problema”. Que linda devoção! Imitemo-na! Aos mais jovens ele diz: “queridos jovens, aprendam de São José que teve momentos difíceis, mas não perdeu a confiança, e soube superá-los”.  

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