Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Pedro, tu me amas?

Senhor Núncio Apostólico, Senhores Arcebispos e Bispos, Autoridades civis e militares, Queridos Padres e Diáconos, Religiosos e Religiosas, Seminaristas e Vocacionadas, Prezados irmãos e irmãs, Leigos e Leigas, amados, amadas de Deus,

TENHO SEDE!

“Ponho-me a ouvir: o que o Senhor dirá? Ele vai falar de paz” (Sl 84) e de amor.

Acabamos de ouvir Jesus perguntar três vezes a Pedro: – “Pedro, tu me amas?” E Pedro responder: – “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo. E ainda Jesus entregar a ele este mandato: – Cuida do meu rebanho! Tudo o que Deus faz é por amor, com amor e no amor. Um amor que, segundo Paulo, “é paciente, é amável, não é invejoso, não é fanfarrão, não é orgulhoso, não faz coisas inconvenientes, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas alegra com a verdade. Tudo desculpa, tu crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais se acabará… O maior de tudo é o amor” (1Cor 13,4-8.13). Sem amor nada nesta vida nada tem valor. Dizia Santa Teresinha, padroeira das missões: “amar é tudo dar. É dar-se a si mesmo”. E acrescentava o grande místico São João da Cruz: “no entardecer da vida seremos julgados pelo amor”.

O amor o tema do diálogo – melhor dizendo: um diálogo de amor – entre Jesus com Pedro, na manhã da ressurreição, à beira do Lago de Tiberíades. “Pedro, tu me amas? Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Da boca de quem se ouviu três negações, ouvir agora três declarações de amor é experimentar o melhor fruto que a ressurreição produz. A tríplice confissão pagou a tríplice negação.

Pedro e Paulo são substancialmente dois “homens do Evangelho”. No espírito missionário, depois de Cristo, Paulo foi único. E no espírito do amor, depois de Jesus, Pedro também foi único. Ninguém como Pedro e Paulo nestes dois ministérios. Paulo único no serviço missionário, Pedro único no serviço do amor. Os dois únicos na missão de servir e amar. A Pedro Jesus pediu-lhe amor, a Paulo Jesus pediu-lhe serviço. Aos dois Jesus pediu-lhes missão. Amar é servir, servir é amar! Amar é missão, missão é amar!

Temos, pois, amados, amadas de Deus, hoje para a nossa meditação, longe dos olhos, mas perto dos corações, como o cenário da primeira leitura a vasta e complexa realidade das Comunidades da Região de Filipo. Não de menor peso a vasta e complexa realidade do tempo e do lugar da aparição de Jesus, na manhã da ressurreição, à beira do mar da Galileia. Recebo tudo isto como apelo, inspiração e iluminação à vasta e complexa realidade missionária dos cerrados tocantinenses, notadamente da arquidiocese de Palmas.

No início desta minha “Grande Missão” quero selá-la com a marca destas duas colunas da Igreja: Pedro e Paulo. Nestes dias em que antecederam a minha entrada aqui em Palmas, em Fátima, em Roma e nos 112 km, percorridos a pé, no Caminho de Santiago, ouvi, com muita atenção, e até ruminei este mandato de Jesus: Pedro, apascentas as minhas ovelhas que estão em Palmas. Entendi perfeitamente que a minha missão, aqui em Palmas, é a mesma de Paulo: Pedro, cuida da animação missionária das Comunidades espalhadas pela grande extensão da arquidiocese de Palmas.

Manhã é o limite entre noite e dia; litoral é limite entre mar e terra; manhã e litoral são o tempo e o lugar, típicos do homem, posto entre duas realidades contrárias, chamado a transpor o limiar das trevas à luz, da noite ao dia, da morte à vida. Neste sentido, Paulo, em outra ocasião, afirma: “Já é hora de vocês acordarem. A nossa salvação está agora mais próxima do que quando começamos a acreditar. A noite quase passou e o dia se aproxima. É preciso então deixar de lado tudo o que em nós ainda é escuro e revistamo-nos dos instrumentos da luz para viver como quem vive em pleno dia” (Rm 13, 11- 12).

Este capítulo 21, posto no fim do evangelho de João, mais do que conclusão e epílogo, é, ao mesmo tempo, prólogo, abertura e começo. No amor, começa tudo, tem origem a tudo, inclusive a nossa missão. Nossa missão começa aqui: no amor! Portanto, como a Pedro, à beira do Mar da Galileia, à beira do Rio Tocantins, inicio hoje esta Grande Missão de amorização. Deus escolhe seus discípulos missionários por amor. Missionário só exerce bem o seu ministério com amor. Só o amor justifica a missão. Tenho sede deste amor que alimenta, impulsiona, traz ardor e dá sentido à missão. Por que se é bispo? Por amor! Por que se é missionário? Por amor! Por que vir a Palmas? Por amor! Por que os senhores e as senhoras estão aqui? Por amor! O amor, amados, amadas de Deus, é a razão de estarmos aqui. Sem amor não estaríamos aqui. Somente por amor e nada mais. O amor é vital, é existencial, é contagiante, atrai… O amor é o princípio da vida e da missão. Sem amor nada tem valor! A missão sem amor é omissão. A Igreja sem amor é gueto. O bispo sem amor é carreirismo. Instituição e amor não são algo separados. Sem amor a instituição é perversão. O primado de Pedro é o primado do amor. Só quem ama Jesus é autorizado por Ele a apascentar e guiar o seu rebanho. Amor e missão: o amor é missão e a missão é amar, é amor. A missão é um caso de amor. Jesus fez Pedro entender que amar a Jesus e amar, cuidar, apascentar o rebanho são partes da mesma missão. Foi esta sede de amor que me trouxe aqui, meus irmãs e minhas irmãs! Amor a Jesus, amor à Igreja, amor à missão! Apascentar o rebanho do Senhor é um “amoris officium”, no dizer de Santo Agostinho. A ação pastoral da Igreja e, portanto, do bispo, é um ofício de amor.

Num mundo como o nosso que prima pela banalização da violência, que explora, marginaliza e martiriza os pobres, que joga no lixo a verdade e a vida, que endeusa a ganância e o egoísmo, que busca desenfreadamente o supérfluo, o poder e o dinheiro, a corrupção e a malversação do bem comum, que dizima a vida cristã, que privatiza e comercializa o sagrado e transforma a religião em comércio, o milagre em algo a ser vendido e comprado, que busca a Deus pelo dinheiro, que vive a tirania e a ditadura do relativismo, que desfruta, à exaustão, a natureza e destrói o meio ambiente, reafirmamos o primado do amor. Aos amantes de si mesmos anunciamos os amantes de Jesus.

Segundo o papa Bento XVI o amor é a carta magna de todo o serviço eclesial, de modo especial, do serviço que os bispos prestam ao povo de Deus. Amar é fazer Deus presente no mundo, é gerar Jesus no coração das pessoas, das comunidades e da sociedade. Como Santa Teresinha, encontrei e entendi, afinal, que a minha vocação nesta Igreja de Palmas e AMAR. Enquanto em são Francisco: “o amor, na cruz, não foi amado”, em Pedro, sim, o amor foi amado. Jesus não se contenta com um amor menor e igual. Mas pede sempre de nós, como de Pedro, um amor maior, mais do que o amor dos outros e aos outros.

Creio muito nas palavras de Santa Teresa de Jesus: “nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem Deus, nada lhe falta. Só Deus basta!” Tudo passa mesmo: poderes, glórias e grandezas humanas, honrarias e títulos honoríficos… Só Deus basta porque Ele é Amor. E é esta Palavra eterna que quero anunciar.

O Espírito é doador de todos os dons. E entre eles, estou eu aqui, este pequenino dom, este pequenino grão de areia, esta pedra britada. Palmas, Palmas, Igreja que acolhe, ama e forma! Palmas, Palmas, capital, catedral do Espírito Santo, me ajude a anunciar que “Deus Caritas est” – que Deus é amor!

Aqui não é um palanque político para divulgação de programa de governo. Aqui não é assembleia de pastoral para apresentar um projeto pastoral. Aqui não um centro comercial para se fazer propaganda de produtos religiosos. Aqui, sim, é uma assembléia liturgia, lugar de se fazer a memória daquele que primeiro nos amou e, por amor, se sacrificou por nós. Por isto, hoje não posso prometer outras coisas. Não as tenho. Ouro e prata não tenho. Mas o que tenho prometo e dou: o meu amor. “Meu peso é meu amor, por ele sou levado aonde quer que eu seja levado” (Santo Agostinho). Eu não possuo nem mesmo Cristo só para mim. Eu não tenho um projeto de evangelização, o meu é o projeto de Jesus. Eu não trouxe um projeto de evangelização; o meu é o projeto da Igreja. Em nome de Jesus Cristo, eu me proponho amar mais a Palavra de Deus; amar mais a Jesus Cristo; amar mais os pobres e os simples; amar mais a Igreja, em suas Comunidades Eclesiais; amar mais aos presbíteros, diáconos e vocacionados; amar mais as irmãs e os irmãos de especial consagração, das antigas e das novas Comunidades; amar mais os Movimentos, as Associações; a amar mais a missão. Em Cristo, prometo dar a minha vida por amor ao meu rebanho.

No final deste evangelho, Jesus deixou a Pedro, a mim e a nós esta grande lição: quando Pedro era jovem planejava sua vida, agora não, deve fazer a vontade de Deus. Depois de uma longa caminhada o Senhor quer Pedro de mãos estendidas para serem amarradas e crucificadas. Este é o melhor fruto que devemos colher da ressurreição de Jesus: estender nossas mãos para que Ele possa reinar sobre nós. Agora, então, é que Jesus se dirige a Pedro: SEGUE-ME! Em João, diferente dos sinóticos, Pedro é chamado no final de um longo caminho de maturação, quando é outro, transformado, de mãos estendidas, atadas, crucificadas, ressuscitadas… Este deveria ser o nosso projeto de vida: levar, nas palmas das mãos, o amor missionário.

O mesmo amor prometido e jurado por Pedro a Jesus, à beira do Mar da Galileia, e declarado por Paulo às Comunidades, é o mesmo amor que prometo, juro e declaro a Jesus Cristo e a inteira Igreja de Palmas. Por isto, me proponho e declaro publicamente a ser o bispo do amor à Missão, dos missionários e das missionárias. “Vivo a alegria de ser missionário. Recebi de Jesus esta linda missão”… “por amor e vocação!”

Por fim, prometo dar continuidade ao imenso trabalho iniciado por Dom Alberto Taveira, levado a cabo, com esmero, por estes destemidos sacerdotes, religiosos, leigos e leigas, forças vivas desta Igreja, sob a orientação de Dom Philip.

Concluo estas minhas primeiras palavras com as mesmas palavras de Paulo aos coríntios: “Eu amo vocês todos de coração” (1Cor 16,24 ). Assim seja. Amém!

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