Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Pentecostes Barulhento

Pentecostes chegou! Interessante que chega fazendo muito barulho. Um barulho? Sim! Terremoto, abalo sísmico, desestabilização, sensação de impotência. Fenômeno este que necessariamente faz buscar uma saída, abrigo, segurança e respostas.

Muitas vezes imaginamos o Espírito Santo agindo apenas na suavidade. É verdade, ele age de maneira sutil e afável. Mas essa brisa e suavidade, preferidas, é uma sensação que se dá não de imediato, ela vem como um final do dia, como a satisfação do dever cumprido, como a consciência, que está em paz depois de uma boa obra realizada, é o descanso para a alma.

Mas é então necessário estar atento a esse Barulho produzido pelo Espírito. Ver o que se está sucedendo, buscar um caminho de retorno à paz e à serenidade perdidas.

De onde vem tanto barulho? Do céu! Justamente, provocado pelo céu! E foi isso que atraiu uma multidão. E por isso podemos deduzir que o barulho se faz necessário, para nos atrair, chamar à atenção para algo está acontecendo e que não podemos ser indiferentes.

O que encontraram as pessoas que saíram a procura da origem do barulho? Lá chegaram e estavam os discípulos pregando, e aperceberam-se de um fenômeno importantíssimo: cada uma ouvia e entendia em sua própria língua o que eles pregavam. Uma espécie de tradução simultânea, que ocorre quando um fala e outros traduzem em cabines de rádios, pois dominam a linguagem do locutor, e a transmitem àqueles que sintonizam na freqüência exata. E o que ouviam dessa tradução? Ouviam as maravilhas de Deus. O Espírito Santo, transmitido por Jesus, traduz tudo o que vem do Pai e não temos a clareza. Ele é essa voz a falar aos ouvidos do nosso coração.

O fenômeno de Pentecostes, o grande barulho, se dá. Jesus acabara de aparecer e é Ele quem entrega aos seus apóstolos o Espírito Santo. E de que modo Jesus se apresenta a eles? Chega atravessando as paredes, indo ao encontro de seus discípulos que estavam trancados e com medo, sem pedir licença, ele entra.

Eis como entender a ação do Espírito em nós. Os discípulos estavam com medo. Medo de serem mortos, com medo da morte. Trancados, fechados, impossibilitados de saírem, impotentes, deprimidos. Eis aí nesse fato a imagem do homem a qual Jesus já nos havia apontado: “Sem mim nada podeis fazer”. Nesse contexto de pavor, insegurança e sem saída que aparece o Kyrios, “O Senhor”, vencedor da morte! Está vivo, ressuscitado! Ele chega atravessando as paredes, rompendo obstáculos. E porquê pode atravessar as paredes? Por que a morte já não tem poder sobre ele. Ele está repleto da vida, do Espírito vivificante. Jesus agora vive numa outra dimensão! Seu corpo se reveste da glória da ressurreição . Ele chega e exibe ao discípulos suas chagas, seu lado aberto, como quem traz consigo um troféu, prova de sua vitória; como quem diz “Eu venci! A morte já não existe mais”.

Que maravilha! Jesus lhes deseja a paz! A paz que o medo havia roubado é devolvida. Entrega a eles o Espírito Santo. Espírito, para perdoar os pecados, fortalecer a fé, animá-los, encorajá-los, fazê-los esperançosos.

Quanta consolação! Eis para que está em primeiro lugar este espírito: para o perdão! Para quem errou, para quem é fraco, para o pobre, para aquele que se reconhece um pecador. O Espírito Santo é para quem, à semelhança dos apóstolos, percebe-se necessitado dessa força do alto, pois que o mundo ao nosso redor provoca em nosso coração muitos medos. Também nós estamos sujeitos à muitos medos, podemos nos encontrar trancados, construindo barreiras para nos defender, muros de separação, prisões; podemos nos fechar ao outro, e até mesmo definhar na depressão. É preciso, então, a humildade, reconhecer-se pequeno. É preciso perseverar na constância das palavras do Senhor; numa vida de maior recolhimento interior, ter a atitude orante de quem clama: “Senhor, sem ti nada posso fazer. Dá-me o teu santo Espírito!”.

Como saem, então, os discípulos do Cenáculo? Saem feitos super-homens? Uma redoma, ou uma espécie de campo de força magnética os protegia? Evidente que não, pois se assim fosse não teriam sofrido o martírio. A força não reside aí, numa couraça protetora. Reside sim, no fato de Jesus ter vencido a morte. O medo controlador da morte foi vencido. Eles agora, também, à semelhança do Mestre, não temem morrer. Tornaram-se homens livres para entregar a própria vida. Eis a força do Espírito Santo! Ele nos dá a certeza da vida eterna.

É importante verificar, neste contexto de pentecostes, que as chamas de fogo em forma de línguas, sobre os apóstolos, também nos fazem refletir na missão do Espírito Santo. Ele nos foi dado como um dom, dom para a comunicação. Ele nos potencia para essa missão. Não podemos, então, de maneira alguma, como cristãos, nos permitir em ficar no fechamento, mas ao contrário, devemos nos deixar mover, impulsionar à abertura em todos os nossos relacionamentos, devemos passar ao outro. O Espírito Santo confere aos Apóstolos e à toda Igreja a missão universal do anúncio do Evangelho, a missão de levar a Boa Nova do amor de Deus a todos os homens.

Neste tempo de pentecostes procuremos meditar com um pouquinho mais de profundidade sobre a ação do Espírito Santo. Peçamos Dele os seus dons: o dom da Comunicação, para que tenhamos abertura e dilatação do coração em toda forma de relacionamento. Peçamos o dom da Sabedoria para ver tudo como Deus quer. O Entendimento, para compreender melhor os mistérios de Deus na vivência da nossa fé. A Sabedoria, indispensável para discernir o que está escondido nas entrelinhas, no vendaval, no barulho dos acontecimentos do dia à dia. O Conselho que vem do alto, para poder seguir no caminho com toda prudência. A Fortaleza para sermos firmes nas provações e no testemunho de cristãos; Ciência para reconhecermos Deus em tudo aquilo que ele criou. Enfim, peçamos ao Espírito Santo a ternura da Piedade e o santo Temor, para tremer diante do pecado e em tudo corresponder ao imenso amor de Deus, por nós. Que o Espírito Santo de Deus renove os nossos corações, renove toda a face da terra.

Padre Marcos Tavoni

Reitor do Seminário Interdiocesano

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