Arquidiocese de Palmas

Artigos › 19/02/2019

Semana Santa em Palmas, aos pés da Cruz

“Nós anunciamos a Cristo crucificado, que para os judeus, é escândalo, para os pagãos, é loucura, mas nós é poder e sabedoria de Deus” (1Cor 1, 23).

A concepção de tempo, contado e medido em semana, é muito mais habitual do que imaginamos. Como uma forma de demarcar o espaço da cosmovisão, muitas coisas são contadas ao largo de uma semana: Semana da pátria, da água, da moda, do trânsito, da família, do aleitamento materno, da cidadania, do meio ambiente… O narrador do livro da criação conta que Deus criou o mundo em sete dias, dia após dia (Gn 1,1-2,3). João, o evangelista, parafraseando o Gênesis, conta que Jesus recriou o mundo através de sinais também em uma semana (Jo 1,1-2,12). Um poeta cantarolou à sua amada: “a semana inteira fiquei esperando pra ti ver sorrido, para ti ver cantando…”

A Semana Santa não foge a esta lógica e regra. Um único mistério, o Mistério Pascal – a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus – distribuído num período que equivale a uma semana que, mais tarde, convencionou-se chamá-la de Semana Santa. E de fato é uma Semana Santa porque nela se celebra os mistérios da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus. Cada dia desta Semana comemora-se um passo de Jesus rumo ao Calvário.

Durante a quaresma desenvolvendo o projeto pastoral denominado de “Estações Quaresmais”, com o tema: “Palmas (Lajeado, Tocantínia, Rio Sono, Lizarda, Santa Teresa, Aparecida do Rio Negro, Lagoa, Novo Acordo, São Félix, Mateiro) aos pés da cruz”. Meu sonho é ver todos aos pés da cruz, atraídos por Jesus. Segundo o Documento de Aparecida “a Igreja cresce, não por proselitismo, mas por atração: como Cristo atrai tudo para si com a força do seu amor” (DAp 159). Foi o próprio Jesus quem afirmou: “quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32).

Para ilustrar bem o que iremos dizer me servirei desta historinha: “Conta-se que num mosteiro, certo dia chegou à porta um homem pobre que recebia dos monges ajudas freqüentes. Trazia um lindo cacho de uvas que ele havia colhido de sua pequena plantação e desejava oferecê-lo ao porteiro, pela amabilidade com que o recebia. O monge o recebeu com alegria, admirado pela beleza das uvas. Ao se distanciar o doador, pensou o monge porteiro: vou dar este lindo cacho de uvas ao Abade. Ele o merece mais do que eu. O Abade o recebe maravilhado. Partindo o porteiro, o Abade ofereceu as uvas ao monge mais velho e doente. Ao se distanciar o Abade, o doente as dá ao monge enfermeiro, como prova de gratidão pela sua caridade. Mas ao sair do quarto, o enfermeiro presenteia o monge cozinheiro, agradecido pelos humildes serviços. O cozinheiro, já quase ao fim do dia, toma cuidadosamente as uvas e as dá ao monge mais jovem para que não se desanimasse diante das dificuldades. Este, com os olhos brilhantes de admiração, toma as usas e as oferece ao monge porteiro que o recebeu com tanta bondade. O porteiro recebe novamente as uvas, certo agora de que vivia verdadeiramente num lugar de Deus, onde reinava exclusivamente a lei o amor e todo sinal de egoísmo havia já desaparecido…”

A vivência da Semana Santa se parece muito com esta historinha. Preparada, com esmero, ao longo de quarenta dias, quebrando o nosso orgulho, libertando-nos do egoísmo e das paixões desordenadas, esta Semana é aberta com uma celebração litúrgica que contém, em si, todo o Mistério Pascal, o domingo da paixão, e termina com a celebração da ressurreição de Jesus Cristo, no domingo de páscoa. O primeiro dia desta Santa Semana comemora-se a entrada triunfal em Jerusalém. A multidão O acolheu com gritos de hosana e ramos de oliveira. Uma acolhida digna de um Rei, que de fato o é. Este domingo, que é a porta de entrada da Semana Santa, é chamado de domingo de Ramos. Neste dia faz-se a coleta da solidariedade. Na segunda-feira, segundo dia desta Semana Santa, recorda-se os primeiros passos de Jesus em Jerusalém rumo ao Calvário. Neste dia a Igreja sugere começar a preparação imediata da páscoa com uma caminhada, rumo às pesadas paixões e aos duros calvários nos quais vive a comunidade: visita aos doentes, aos presos, aos pobres, aos sofredores que contemplam em seus próprios corpos a paixão de Jesus. Na terça-feira, terceiro dia desta caminhada rumo ao Calvário, a comunidade cristã é convidada a caminhar recordando as dores de Maria, ao ver seu Filho se dirigindo para a morte. Em sintonia com as dores de parto da natureza, neste dia a comunidade pode programar uma celebração das sete dores da natureza como, de resto, foram as sete dores de Maria. Durante o dia pode-se programar visita, confissão e missa, com unção dos doentes. No quarto dia, quarta-feira, é o dia em que praticamente se encerra o tempo da quaresma, em preparação para a Páscoa, pois, no dia seguinte, inicia-se o Tríduo Pascal. Tradicionalmente este dia comemora-se o encontro de Jesus com sua mãe. E por causa da proximidade com a paixão, celebra-se neste dia o Ofício das Trevas, lembrados que o mundo encaminha-se paulatinamente para a maior treva que a humanidade já viveu, a morte de Jesus (Mt 27,45; Mc 15,33). Neste dia cai bem uma via-sacra ecológica, a última do tempo da quaresma, para fechar, com chave de outro, os exercícios quaresmais, iniciados na quarta-feira de cinzas, para entrar, de cheio, na vivência do mistério da paixão e ressurreição de Jesus.

Passados estes quatro primeiros dias, chega-se, enfim, ao coração da Semana Santa e de todo o calendário litúrgico da Igreja: ao Tríduo Pascal. No quinto dia, quinta-feira, celebra-se a Páscoa da Ceia. Na celebração deste dia recorda-se a instituição da eucaristia, do sacerdócio ministerial e do amor fraterno, com o lava-pés. Neste dia, após a missa, se faz a trasladação do Santíssimo Sacramento, seguida da adoração eucarística, não devendo, no entanto, ultrapassar à meia noite. É nesta celebração que se recorda a traição de Judas, ao entregar Jesus por trintas moedas de prata. Na sexta-feira da Paixão celebra-se a Páscoa da cruz. Além da adoração, do beijo da cruz e da oração universal, a comunidade é orientada a fazer uma procissão com o Senhor pelas ruas da região. Nesta ocasião faz-se o sermão do descimento da cruz, a encenação da paixão e morte de Jesus, ou algo similar. Aqui em Palmas haverá a encenação da paixão de Jesus, encerrando-se assim o projeto “Palmas aos pés da cruz”. Lembra-se aqui também que neste dia faz-se a coleta para a Terra Santa. O sábado é um dia tipicamente a-litúrgico. É o dia do luto, do silêncio, do vazio. Durante o dia nada se celebra. No vigília tudo, então, muda. A explosão do “Aleluia”, no “Exulta de Alegria” dá o tom da Vigília Pascal, que segundo Santo Agostinho, é a mãe de todas as vigílias, porque nela se anuncia a Ressurreição de Jesus.

Passado assim rapidamente em release, eis, pois, o jeito simples de se viver os dias santos da Semana Santa. Enquanto para muitos a Semana Santa não passa de um feriadão, tempo apenas para passear, curtir a vida, comer, beber, consumir e faturar, nós ainda pregamos uma Semana Santa cristã. Para o cristão a Semana Santa é um verdadeiro retiro espiritual, uma verdadeira semana missionária. Na Semana Santa celebra-se tudo aquilo que o cristão precisa celebrar para evangelizar o cotidiano da sua vida, bem como tudo aquilo que se deve celebrar, na missão e como missão, para ser discípulo missionário, aos pés da cruz de Jesus.

E, para finalizar, só me resta enviar os meus augúrios pascais: Uma Santa e abençoada Semana Santa e uma Feliz Páscoa para todos e todas!

 

 

Dom Pedro Brito Guimarães

Arcebispo de Palmas-TO

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